©2019 by RECARGAMATIC.

A aventura da lancha


                             A aventura da lancha

      Quando jovem tive um sonho, construir um carro, mas as atribulações da vida não proporcionou espaço para a realização . Porém, a energia potencial ficou retida até que muito tempo passou, montei um caminhão tipo trailer próprio para pescarias,com janelas , portas, camas, reservatório de água, toldo suporte sobre o baú para colocação de dois barcos. Coloquei também um banco cama na cabine, assim quando dormia em local infestado de pernilongos colocava um filó na porta e o sono era tranquilo. Desfrutei bastante do caminhão, até meus filhos quando pequenos aproveitaram um pouco, fazíamos viagens para as cavernas do Petar e dormíamos dentro do tal. A grande viagem realizada com ele foi a que fizemos para a Ilha do Bananal, entre ida e volta ,fora o trecho de asfalto, andamos 1000km de chão batido. Mas como tudo tem começo e fim, vendi todo o aparato. Mas, a energia ainda não tinha sido dissipada por completo, assim veio a lancha para consumir um pouco mais.

                            A ideia da lancha

Em 2002, acidentado em recuperação em casa, surgiu a ideia de construir um barco para colocar na represa do Tietê. Como tenho facilidade para trabalhar com chapas de aço, pensei em construir em aço. Mas mesmo utilizando aço marítimo não ficamos livres da ferrugem e da manutenção constante. Assim sendo desisti do aço.

                            O casco


Como tinha um pessoal bom no trabalho em aço, comprei as vigas U dobradas de espessura 3/16” e começamos a montar a carreta, baseada mais ou menos nas dimensões que o Eduardo nos passou. Adquiri também quatro rodas com eixos de Opala, quatro feixes de molas de rural Willys no ferro velho de autos, mandei encurtar os feixes, pois a carreta seria trucada com balancim. Enfim, montamos os eixos, etc. A carreta ficou muito boa, o truck ficou excelente, quando passava numa depressão o balancim atuava perfeitamente.

                            O transporte do casco

No dia marcado pegamos nosso caminhão, que já estava tudo preparado para puxar a carreta e seguimos para Pedro Leopoldo, que fica ao lado de Belo Horizonte.

Chegando lá à noite, pousamos, noutro dia de manhã seguimos para o Estaleiro Malloy, que fica dentro da cidade. Como a carreta é comprida, houve um incidente –quebramos o farolete traseiro de um carro ao passar com a carreta. Após acerto do estrago com o proprietário, chegamos ao estaleiro onde o Eduardo estava nos esperando. Entre conversas animadas, visitamos toda a firma , ficamos encantados com os barcos que produzem. A maioria deles passavam de 40 pés, alguns também com dois pisos. Aproveitando a visita, fotografamos tudo aquilo que me serviria para a montagem do cock pit (não tinha ainda foto digital) tiramos muitas dúvidas de como deveria construir a cabine.

Na volta, com o casco da lancha sendo rebocado trafegando pela rodovia Federal fomos interceptados por um agente da PRF, este solicitou a autorização de transporte Federal, e passou a conferir as medidas da carreta, a largura da lancha, o comprimento total do conjunto. Como só tínhamos autorização para as estradas de São Paulo,tivemos que usar o famoso jeitinho brasileiro, que todos criticam mas na hora “H” não deixam de lado. Bem, a viagem prosseguiu , só que para não encontrarmos com outro PRF, resolvemos ingressar pelas estradas estaduais de Minas Gerais. Ai complicou–os sobes e desces da região montanhosa eram muitos, e a demora prá chegar em casa foi aumentada em quase cinquenta por cento do tempo, mas chegamos são e salvos.


Com a lancha dentro da minha firma passamos a rascunhar o design da cabine, tomamos as medidas e passamos a levantar a estrutura da cabine que foi construída usando os mesmos materiais que a Malloy usa. Como meu  tempo era curto, pois tinha meu dia a dia de trabalho ,tive que trabalhar por muitos sábados e domingos. Uma das lembranças que carrego disso é uma cicatriz no dedo indicador que foi sulcado por uma esmerilhadeira manual. Com a estrutura pronta, adquiri as chapas de alumínio para a forração. Como não tenho muita prática e nem ferramental para rebitar as chapas contratei o serviço de um conhecido que trabalha só com baús. Com a cobertura pronta, entrei em ação  novamente. Desenhei as janelas, acompanhando o “design old fashion” da lancha e recortei-as com serra elétrica manual. A janela da cozinha e do banheiro fiz tipo basculante de abrir. Das quatro janelas grandes duas delas mandei fazer em vidro temperado e as outras duas com curvaturas, foram feitas de plaxiglass .O para brisa fiz basculante para circular ar dentro na cabine.

Além disso fizemos a repartição para o banheiro e a porta de entrada de correr. Adaptamos um vaso sanitário , sendo  que a saída com  mangueira corrugada para o rio onde terminava fixada em duas flanges de nylon. O serviço ficou excelente. Também colocamos o reservatório de descarga. A caixa de água no teto do barco que mandamos fazer em aço inox e ligamos o encanamento para o banheiro ,que possuía uma pia e uma duchinha . Na cozinha somente uma torneira.

 A construção ia caminhando vagarosamente, tanto é que demorou um ano para ser completada. Após tudo feito, culminou na pintura e posteriormente na colocação da propulsão. Nosso amigo Eduardo da Malloy, nos ofereceu um motor usado de opala com rabeta também usada, mas minha opção foi mesmo usar um motor Yamaha de 90 HP de dois tempos novo. Essa escolha foi motivada por ser o motor de popa mais fácil manutenção, uma porque é de dois tempos com metade das peças móveis que um de 4 tempos e outra porque se torna  mais econômico retirar o motor do barco para manutenção do que levar um mecânico até a beira do rio.

                                            O nome da embarcação

Sempre a escolha de um nome para qualquer que seja a coisa faz com que refletimos muito.

Assim, depois de muito pensar resolvemos colocar um nome indígena, e surgiu JACYPURÃ. Jacy todos sabem que significa lua em tupi-guarani e purã bonita. Então lua bonita. O nome  fez jus , pois dormimos no barco no meio da represa em mar de almirante por diversas vezes sob o luar prateado da lua cheia.

                                             O Teste

É normal para todos aqueles que fazem algo ou reformam alguma coisa ficarem ansiosos para por em ação aquilo que levou tempo para completar. A alegria transbordava. Seguimos com o barco rebocado para o local mais próximo da nossa cidade ,cerca de 120km, onde o rio Tietê já tem os primeiros traços de represamento do seu percurso que corta todo o estado de S.Paulo.

Dirigimo-nos para um camping e com a autorização do proprietário levamos a lancha até a beira do Rio. Então como diz o provérbio popular: Para descer todo Santo ajuda. Foi fácil soltar a lancha na água.

Funcionamos o motor e checamos se tudo estava nos conformes. Descemos o rio por uma hora, apreciando a beleza do local, inúmeros biguás e garças esvoaçavam sem parar. Jaburus quase na estratosfera aproveitavam as massas de ar quente.

Chegamos até uma ponte e ali avistamos grande número de homens com suas famílias, que estavam vivendo provisoriamente exclusivamente para apanhar tilápias que naquela época infestavam o rio.

Pelo tanto de combustível que gastamos na descida, já era hora de retornarmos. Assim fizemos, e o combustível nos causou preocupação, pois estava se acabando , tivemos que fazer “figa” para que desse para chegar de volta ao camping.

Felizmente chegamos depois de alguns encalhes em bancos de areia. Como o intuito era testar o barco, checamos tudo para ver se funcionava a contento. Descobrimos uma única falha, que era a bomba que levava água para o reservatório do teto.

Mas, o que nos esperava daí pra frente ninguém imaginava. Engatamos a carreta ao caminhão e quem diz de sair dali. O caminhão atolava, patinava e nada de sair. Eu tinha ido com a F1000 traçada, resolvi engatar na frente do caminhão para puxar. Mas, a caminhonete também patinava, e não andava um palmo ,só afundava.

Nesse momento é fácil entrarmos em pânico, mas nas situações difíceis as idéias afloram mais facilmente. Então resolvemos desengatar o caminhão e colocar uma corda entre o caminhão e a carreta, assim o veículo ficaria em terreno mais firme evitando que patinasse. Só que não tinha como apoiar a carreta. Depois de diversas tentativas com inúmeras coisas, conseguimos arrumar um eixo com duas rodas de moto que estava por ali. Foi o que salvou, colocamos debaixo do varal da carreta e assim que puxávamos a carreta com a corda as duas rodas rodavam fazendo o necessário apoio.

                                      A desilusão

Muitas vezes somos levados pelo ímpeto de ter algo, mas não medimos com exatidão os prós e os contras.

O ideal para quem tem uma lancha dessas é morar perto de onde ela fica, mas o local mais próximo que achamos para deixar a lancha foi a 300km de onde moramos, isto já se torna uma dificuldade, pois não é sempre que podemos sair, tendo assim menos proveito da embarcação.

Outro grande problema é que sempre tínhamos que ir acompanhado de mais dois companheiros para a pescaria, pois a lancha ficava coberta com lona e no relento. Assim sendo tínhamos que descobrir e colocar na água e na saída cobri-la novamente. Acontece que nem sempre coincide o dia que os companheiros podem ir,  muitas vezes era marcado  um dia para sair e esse dia ia se protelando, protelando por mais de mês.

Com tudo isso e mais outras coisas, resolvemos vender a lancha. Assim, no início de 2014 concretizamos a venda.

Vendemos a lancha para um senhor que tem idade próxima a minha, mas que ainda tem energia para queimar. Ele tem um projeto a percorrer trechos de rios amazônicos com a lancha propulsionada com energia solar. Desejamos sorte ao proprietário e que ela proporcione momentos agradáveis ao novo proprietário.

Não arrependo em nada da aventura da lancha, pois ela nos proporcionou momentos muito agradáveis que em outra oportunidade relatarei.

 O homem vive dos seus ideais, sem ele sucumbe

0 visualização