A cachaça e a caça


A “marvada” pinga não é tão “marvada” assim quando ela nos acompanha nas caçadas. É certo que, como diz o ditado:  armas e álcool não são miscíveis, mas em nosso caso nunca abusamos dessa mistura, e ela, a cachaça, só nos proporcionou uma combinação deleitosa.

Não foram poucas vezes que ela nos permitiu relação mais amistosa entre o proprietário da terra e caçador. Quem enjeita uma cachacinha de alambique produzido com esmero e carinho em pequenos alambiques tradicionais onde realmente o líquido precioso pinga do destilador.

Uma das últimas vezes que caçávamos perdizes, entramos num gramado de braquiária sem saber precisamente de quem era o terreno, porém notamos que havia uma casa no declive e, nos limitamos a ficar invisíveis da casa, mesmo convictos que os tiros nos iria denunciar.  O campo era pequeno, mas as perdizes estavam amontoadas, conforme íamos andando o cachorro logo estancava e assim que levantava uma, pulavam mais 4 ou 5 delas. Quedávamos atônitos sem saber o que fazer. Após termos feito uma boa colheita e notando que o campo poderia permitir mais uma andada noutro dia resolvemos visitar a casa da encosta.

Descemos uma estradinha até ao local e assim que fomos recebidos pelo proprietário, imediatamente nos desculpamos com o trivial truque de sempre:–Desculpe, mas o pasto ali de cima é de fulano de tal?” E imediatamente o proprietário responde que não, e diz que é dele. Aí entrou o pedido de desculpas por termos entrado sem a autorização e já oferecemos algumas perdizes para o proprietário. Logo após, oferecemos a pinga pura de alambique, a qual foi perfeitamente aceita, e nos  franqueou o local para caçar. Daí para frente só alegria, pois voltamos ao mesmo pasto no dia seguinte com autorização do proprietário e completamos a cota e ainda presenteamos algumas peças para o proprietário.

A cachaça não serve tão somente para cultivar novas amizades, ela é muito oportuna quando servida para comemorar uma boa empreitada de caça, assim quando chegamos exauridos de canseira, nada como um gole que desce queimando, que gera careta, mas que completa a sensação de êxtase.

Falando em cachaça, resolvemos buscar alguns garrafões num alambique típico, que produz em pouquíssima quantidade. Seguimos para o município de Cerquilho para um bairro de sítio caracterizado pela colonização italiana, onde muitos deles começaram plantando café, algodão e criando gado, agora já se vê por lá alambique industrializado. Mas, este que fomos possui um dos mais rudimentares alambiques com destilador de cobre, que produz a autêntica cachaça.


Conversando com o proprietário ele me explicou o segredo para se fazer a pinga: o segredo é a fermentação, a moagem da cana para extrair o caldo não tem segredo, o processo de destilação é simples como destilar a água, mas a fermentação é sim a maior dificuldade. Ele usa para a iniciar a fermentação da garapa o fermento de pão e a quirera de milho, mas não é simples, tanto que até a superstição está presente: ele não deixa ninguém ver a fermentação, pois pode dar quebranto nas bactérias e estragar tudo.

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