A emoção de um novato cão de caça



Hoje, limpando minha espingarda de caça, grandes recordações vieram à tona: primeiro foi o kit de limpeza marca” ILA “‘que era vendido num estojo de papelão com varetas de madeira de marfim que se alongavam com roscas de metal em suas pontas, o conjunto ainda apresentava dois frascos, um de removedor e outro de óleo, sem falar das preciosas escovas, de aço, de metal, de crina e a de algodão para lubrificação. Um conjunto desse foi comprado junto com a minha primeira Rossi cal.36 que ganhei do meu pai. A segunda recordação se deu com o a limpeza da espingarda que não é somente um processo mecânico de remover restos de pólvora, poeira e fazer a lubrificação, mas sim um ato de reminiscências. Assim que passamos a escova pelo cano da arma, lembramos quanto chumbo passou por ali, quantos cartuchos metemos naquelas câmaras. Quando engraxamos as agulhas e as travas das armas, refletimos sobre a precisão do mecanismo de disparo e de seu fechamento perfeito. E, quando montamos os canos, admirando o belo conjunto montado, surgem na memória estórias roladas no passado. Lembramos então quando fomos apanhar um cão pointer que compramos de um treinador experiente da época.

Naquela época, como ainda é agora, não era muito fácil obter um bom animal de caça de campo, assim rodamos centenas de quilômetros para chegar ao local onde encomendei um pointer para caça de campo.

Chegando à cidade, apanhamos o cão e seu treinador e seguimos para uma fazenda onde certamente encontraríamos algumas perdizes. Agora, imagine antecipadamente a emoção em ver um cão novo, praticamente um bebê, apontar uma perdiz, a rainha dos campos da américa latina. Nada se assemelha a emoção em ver uma perdiz alçar voo amarrada por um cão novo.

O cão novo, franzino, mal alimentado vai ao campo de braquiária. O dia de inverno nas terras ligeiramente acidentadas era levemente quente, a vegetação não aparentava tão esturricada pelo calor, mas o pouco frio e a estiagem dos dias anteriores deixaram o solo seco que ao caminhar levantava poeira vermelha do solo. O capim estava de boa altura. O cão trabalhava perto, um pouco amedrontado, coisa de cachorro novo, daqueles que estanham até um cupim. Com assovio do treinador ele passava da esquerda para a direita ziguezagueando o campo. Anda pra cá anda pra lá, campo seco humidade baixíssima, pouca emanação para o faro ainda com dúvidas de um cão novo que não distingue bem o faro de uma perdiz a de um tico-tico do campo, eis que num relance de farejo uma perdiz levanta longe. Atiro e, após voar machucada, bate num árvore encopada e cai morta.

O treinador não deixa que eu apanhe-a, leva o cão até o local e faz com que o cão novo pegue-a e vira as costas e abandona o cão. O cão novo com toda dificuldade e cuidado de não meter os dentes na caça, ajeita na boca e acompanha o seu treinador. Foi uma cena única inesquecível.

Mas, o cão novo tinha mais a nos oferecer. Depois de percorrer um grande trecho de pasto ele amarra novamente e vai de cabeça erguida dirigido somente pelo seu faro. Vai compenetrado em frente de rabo esticado, posiciono-me para trás só para ver seu desempenho. A perdiz corre e ele adianta a passos rápidos e a fugitiva alça seu magnifico voo, eu, abobado pela amarrada só acompanho com o olhar o perdiz descendo a lomba.

O treinador me indaga: –Porque não atirou? Respondo que para mim a amarrada estupenda valeu muito mais do que ter atirado!

E, o cão segue obediente caçando perto e percorrendo o campo. Num dado momento ele estanca como uma estátua, seu rabo hirto demonstra sem sombra de dúvida que é mais uma perdiz. Coloco-me logo atrás e, a emoção toma conta do meu ser, a adrenalina sobe ao seu patamar máximo. Com a cabeça angulada vento na cara, o cão caminha firme ao faro exalado pela perdiz. Nós, que estávamos atrás do cão caminhávamos quase tremendo, emoção literalmente tomando conta de tudo, cada passo um suspiro, coração batendo a mil enfrentando momentos aflitivos, mas de voluptuoso prazer. A perdiz decola parecendo um jumbo com motor de helicóptero, a cena dá dupla satisfação à nossa visão e aos nossos ouvidos. Nossos canos acompanham a perdiz e quando se tem na visão a linda imagem em voo, nossos dedos, numa automatismo inexplicável preme o gatilho e a beleza da caça se concretiza. O cão até então parado apreciando também a cena se põe a correr para apanhar a caça. Completando o aprazível prazer da caça o cão recolhe a caça e vem nos entregar o fruto do seu trabalho.

Acredito que não existe nada mais emotivo para um caçador do que uma caçada de campo às perdizes sul-americanas, no entanto, essa emoção se incrementa muito mais quando se assiste a uma amarração de um cão ainda inexperiente.

O assunto deste blog nem sempre reflete a verossimilidade dos fatos

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