A espingarda que renasceu das cinzas

A Espingarda que renasceu das cinzas


                                            Foto do livro Tiro ao Voo de Bernardo de Castro

Décadas atrás, quando ainda jovem, sempre que podia estava na oficina do meu pai. Ele era um torneiro muito conhecido e tinha muitos clientes. Assim ia me familiarizando com seus clientes e também tomando contato com suas atividades profissionais.

Um dia, notícias vieram que o casarão assobradado de madeira da fazenda, daquele que acabara de se eleger prefeito da cidade havia ardido em chamas. Na ocasião acreditaram que o incêndio foi provocado por motivo político.

Assim que meu pai soube do ocorrido pegou seu calhambeque,  sentei no banco do passageiro e fomos para o local da tragédia. Ele sabia da existência de uma espingarda de dois canos que era mantida no casarão. Chegando ao local sentimos o drama do incêndio, tudo estava no chão totalmente queimado, findou naquele dia toda história do casarão que nada deixou de recordação.

Procurando pelos escombros eis que ele achou o que tinha sido uma espingarda, a coronha e a telha viraram cinzas, a solda de união dos canos havia derretido,os canos  pareciam um guarda chuva ao avesso.                

Ao pegar aquilo, brotou nele a esperança de não mais ter que emprestar espingardas dos amigos para a caça ao voo. Naquela época poucos eram os que possuíam armas de dois canos,elas eram raras e caras. Com sua mente ágil em solucionar questões mecânicas, logo vislumbrou uma nova arma da mesma forma como uma imagem se forma na mente de um pintor.

Em sua simples oficina onde só havia um torno mecânico, solda elétrica, furadeira e ferramentas variadas, ele passou a trabalhar nos finais de semana naquilo que era praticamente uma sucata.

O maior problema que enfrentou foi fazer os canos. Furar uma barra maciça no comprimento de 71 cm não havia como. A solução veio nas barras de direção, como são tubos sem costura e de material resistente, serviriam para a feitura dos canos. A arma era sistema “demiblock”, ele uniu os canos fixou com solda a parte debaixo do cano onde vão as travas. Antes dessa operação deu um pré-formato interno e externo nos canos. Fez o extrator e o encaixe na câmara, deixou para o final o acabamento do rebaixo na entrada da câmara para encaixe do culote do cartucho. Assim que os canos estavam prontos para serem unidos na extensão total, tomou as fitas de cima e de baixo, endireitando-as e retirando toda a ferrugem, colocou-as nas posições certas e amarrou tudo com arame, mantendo a convergência dos canos. Após estarem preparados, lançou ácido muriático e soldou-os com estanho.

Após a soldagem, foram feitos os ajustes necessários para que a arma abrisse perfeitamente e as travas encaixassem e mantivessem o ajuste necessário.

Após a conclusão dos canos, teria que verificar as molas e o funcionamento do mecanismo da arma que era do sistema “Anson & Deeley”.  O fogo realizou um recozimento total das peças, fazendo com que as temperadas, como molas, cães e engates dos cães, perdessem toda suas funções específicas. Teve assim que submeter a nova têmpera das peças, as molas  tiveram que ser temperadas e  revenidas, e ainda mais, deixá-las pressionada dum dia para outro para certificar que se não alterariam o formato.

Após a total reparação da parte metálica da arma, ele mesmo resolveu a questão da coronha e telha. Conseguiu um bloco de madeira de Amendoim, que tinha bonitos veios e também não era pesada e aceitava bem os pequenos entalhes com formão.  Foi então recortando, passando grosa e a madeira foi tomando o formato de uma coronha inglesa. Depois de muita lixa grossa e fina deitou o verniz de laca.

Com a arma pronta fez algumas caçadas, mas um pedreiro interessado na arma não parava de fazer ofertas e ele não resistiu e acabou vendendo, com o dinheiro comprou uma Pieper Bayard.

Passados muitos anos veio em minha mente rastrear onde estava esta arma, pois queria resgatar uma obra que teve a marca do meu pai. Mas, infelizmente o pedreiro já havia falecido e a família não sabia o paradeiro da espingarda, só me informou que fora vendida.


 Sistemas de percussão e de união dos canos

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