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A vida dos bichos



                                                             Os autores


Lendo a bela obra em 5 volumes escrita por Teodósio Cabral,Abel Prates e Henrique Galvão, intitulada Da vida e da morte dos bichos, que relata sobre a vida e a morte de diversos animais africanos , focando principalmente o modo de vida desses animais em Angola, quando era  colônia de Portugal me veio a questão: Como está a fauna angolana hoje? Para tanto me servi da web onde achei um belíssimo texto do Newton Silva de 1958, onde sua previsão ficou concretizada nos dias atuais.

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… Minha pobre Angola, como eu te lamento!

Quando todos te incensam e exaltam, te rendem homenagens e te levantam aos píncaros da lua; quando todos festejam ruidosamente a tua riqueza, o teu progresso, as realidades do teu presente e as promessas do teu futuro; quando todos enaltecem e põem em relevo o surto da tua economia, as realizações do teu fomento, a segurança das tuas finanças; quando todos apontam ao mundo, atento e interessado, a multiplicação das tuas obras portuárias e os teus aproveitamentos hidroeléctricos, a expansão das tuas vias férreas e a renovação da tua rede rodoviária; quando todos e extasiam perante o nível montante das tuas exportações, e falam respeitosamente do café e dos ouros frutos da tua agricultura, dos diamantes, do manganês, e de outros tesouros escondidos no teu seio, das farinhas de peixe e da generosidade do teu mar; quando todos calculam, conjecturam e fantasiam o que virá a suceder depois que das enanhas do teu solo comece a jorrar em caudais esse sangue milagroso da terra, que é o petróleo; quando todos- e com quanta razão, com que justificado optimismo – te auguram um destino de esplendor, eu, minha querida Angola, sinto-me triste. Sinto-me triste, por ti e por mim.

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E. por toda a parte é igualmente confrangedora a verificação de que os animais selvagens, acossados e perseguidos sem descanso, noite e dia, nos trezentos e sessenta e cinco dias de cada ano, correm em loucas correrias mal avistam gente ou carro, mesmo a um ou dois quilómetros de distância.Dentro de dez, de quinze ou vinte anos, e a manterem-se as condições actuais, as probabilidades de se encontrar, percorrendo-te, qualquer exemplar da tua fauna mais nobre, serão as mesmas de quem procurar uma agulha em palheiro. Para se ver animais de grande porte, só em reserva e parques, se umas e outros forem eficazmente defendidos e se uma crescente pressão económica e o jogo dos interesses particulares se não coligarem em luta de morte para as fazer distinguir e desaparecer. E assim, minha pobre Angola, tu a rica, tu a esperançosa, tu a civilizada, muito em breve, a par das tuas riquezas, da tua prosperidade, do teu progresso, mostrarás também ao mundo a nudez das tuas matas, o vasto das tuas chanas, a desolação e o barbarismo da tua fauna sacrificada, destruida e exterminada. Dela restar-te-hão apenas, a dolorosa recordação, um pungente e inútil arrependimento e uma emissão de selos. E os únicos caçadores, e os únicos amadores da tua natureza selvagem virão a ser … os filatelistas. Atingirás assim, possivelmente, um alto grau de civilização, imitando o que se praticou em países altamente civilizados, copiando o exemplo da Africa do Sul e dos Estados Unidos, onde as espécies maiores só subsistem, e em reduzidos números, em áreas de protecção. Não te ambiciono um tal sucesso, e julgo que nós, portugueses, que já soubemos dar ao mundo o espectáculo dignamente humano da perfeita integração de muitas e desvairadas gentes no seio da nossa própria grei, somos também capazes de lhe mostrar que compreendemos, melhor do que foi por outros compreendido, o carácter sagrado do quinhão que nos coube nas maravilhas da Natureza.

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Navegando mais um pouco, eis que encontro um elucidativo texto escrito pelo Sr. Hugo Seia, renomado pintor de motivos africanos, escritor, caçador e amigo do nosso querido Jorge Alves de Lima, o qual retrata a mais recente situação da fauna atual em Angola e outros países da África.

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Quando era jovem e comecei a caçar em Angola, a fauna era rica e nada fazia crer que pudesse sofrer as agressões que vieram a acontecer. Nesse passado a caça profissional organizada e vulgarmente conhecida por safari havia sido iniciada poucos anos antes e a caça furtiva que então se praticava em nada prejudicava as espécies animais. Por outro lado, os bichos ocupavam os seus territórios inalterados pela mão do Homem, contrariamente ao que hoje acontece, porque o ser humano ocupa todo o terreno que deseja, caçando, pescando, envenenando lagoas, destruindo florestas para as transformarem em carvão e madeira ou, simplesmente, cultivando sem limites. Os safaris efectuados pela célebre Angola Safaris, a organização que me permitiu dar os primeiros passos na minha carreira profissional, operava numa imensa e selvagem área do distrito do Cuando-Cubango, mais concretamente na coutada do Mucusso, situada na região então conhecida por “Terras do Fim do Mundo”. A fauna ali existente era tão variada e abundante que a acção da Angola Safaris em nada prejudicava os bichos, nem mesmo quando outras companhias de safaris, posteriormente, iniciaram a sua actividade.

Em relação à caça furtiva, apenas existia a praticada por caçadores como eu, cuja acção era absolutamente inócua na presença de uma fauna tão abundante, e a praticada pelos caçadores africanos que matavam animais para a sua alimentação, quer com o uso de armadilhas tradicionais, quer com armas de carregar pela boca e flechas. Como consequência da guerra e do processo de independência de Angola, a falta de controlo permitiu, infelizmente, a tragédia que condenou a fauna ao estado em que hoje se encontra. Ninguém é responsável, porque ninguém poderia ter tomado decisões que evitassem a catástrofe que aconteceu, mas nada poderá alterar a realidade. Regiões antes riquíssimas em vida selvagem estão hoje desertas, como, por exemplo, o Parque Nacional do Bicuar, que visitei em 2008 a convite do então governador da província da Huíla, José Ramos da Cruz. Será necessária uma enorme vontade política e um grande amor pela natureza para que se iniciem projectos destinados a recuperar zonas como o referido Parque, cujos resultados acarretarão custos elevados mas que me parecem essenciais se o País estiver interessado em proporcionar às novas gerações os fantásticos espectáculos a que nós, os mais velhos, assistimos. Espero que o projecto Bicuar, do governador Ramos da Cruz, não tenha morrido com a sua saída, e que alguém continue a zelar pelos animais selvagens, esses fantásticos seres vivos que um dia deambularam pelas matas e chanas da nossa terra.

Falando da fauna africana, de um modo global: com consequências mais ou menos desastrosas todos os países de África onde, há 50 anos, existia quantidade e qualidade de animais, sofreram entretanto transformações políticas e envolveram-se em guerras que provocaram golpes drásticos à Natureza em geral e à fauna em particular. A realidade africana em relação à vida selvagem é preocupante em todo o continente, onde tem sido impossível conter os excessos praticados. O exemplo disso está na tragédia que aconteceu no Quénia, depois de os safaris de caça terem sido proibidos (eliminados cerca de cem mil elefantes de forma ilegal), está no que se passou na República Centro-Africana, onde “batalhões” de furtivos vindos de outros países carregaram centenas de camelos com despojos dos colossais elefantes que produziam marfim fora do comum, está no Zimbabué, onde o povo destrói o que bem entende, está na Zâmbia, onde a lei de caça deixou de ser cumprida como antes acontecia, está na Tanzânia, onde excessos são permitidos e está noutros países menos sonantes mas onde, igualmente, a vida selvagem não é de todo considerada. Infelizmente, porém, a tragédia que se abateu sobre a fauna africana não é da exclusiva responsabilidade da chamada caça furtiva. Também a caça supostamente legal, aquela que se transformou numa indústria, tem a sua quota-parte nos problemas actuais que ameaçam a Natureza. Na verdade e paradoxalmente, a caça legal que a experiência provou tratar-se de meio eficaz para combater a acção das hordas de matadores criminosos, porque reduz ou mesmo impossibilita as incursões ilícitas com a sua presença nas regiões mais isoladas com pouca ou nenhuma fiscalização, é igualmente responsável por desequilíbrios que prejudicam a fauna. Por um lado porque, quando a ética rareia e a ambição comanda, não cumpre as quotas atribuídas, nem mesmo as regras que protegem animais imaturos ou em situação que devem ser poupados, e porque, por outro lado, quando selecciona os melhores troféus está frequentemente a seleccionar os melhores reprodutores, aqueles que geneticamente transmitem a boa linhagem da espécie. Nem sempre, como devia acontecer, se poupa o leão em família, nem sempre se poupa o elefante reprodutor ou qualquer outro animal que as circunstâncias do momento a isso aconselhem. A caça legal é, porém, ainda mais nociva para a fauna quando a sua acção é exagerada, abatendo mais animais do que seria de desejar, quer movida pela tal ambição e falta de ética que leva a subornar quem tem autoridade para controlar quotas.

Fui sempre defensor da continuidade da prática de caça desportiva em África, por reconhecer que, quando praticada com ética e bom senso, em nada prejudica a fauna e, pelo contrário, serve de travão às matanças ilegais. Não posso, porém, deixar de apoiar quem luta contra os desmandos que prejudicam a Natureza, excluindo o radicalismo das organizações ecológicas que hoje se manifestam em todo o mundo, porque na verdade se abusa desmesuradamente em alguns dos países onde ainda se explora a indústria de safaris de caça grossa, com o simples objectivo de produzir “notas verdes” e sem que as consequências desses exageros sejam devidamente acauteladas. Se esses abusos se mantiverem, lamento admitir que num futuro breve apenas restarão aos amantes da prática de Santo Huberto os terrenos privados, vedados e manipulados pelo homem, onde os bichos vivem em liberdade condicionada e onde a caça não tem nem pode ter o mesmo sabor. Se me pedissem uma opinião sobre quais as espécies mais necessitadas de protecção, faria uma pequena lista prioritária. Daria o topo dessa lista ao rinoceronte preto, seguido do elefante, do roan antelope, do bongo, do giant eland e do leão. Nem todos merecem atenção pelo mesmo motivo, mas todos precisam de ser cuidados de forma a evitarem-se problemas futuros com as respectivas espécies. Começarei, pois, pelo rinoceronte preto, esse fabuloso animal que foi tão abundante em Angola e noutros países africanos, hoje condenado ao extermínio. Há aproximadamente 40 anos, quando iniciei a minha carreira profissional no Cuando-Cubango (Angola), cacei na mulola Tondo, pertencente à bacia hidrográfica do rio Luengue, uma linha de água com cerca de 25 quilómetros de comprimento. Era então fácil, numa manhã ou numa tarde de caça, esbarrar com 20 ou 30 rinocerontes. Mais recentemente, em 1988, na Tanzânia, país onde existiu a maior população de rinocerontes pretos em todo o continente, fiquei chocado ao saber que apenas restavam 21 exemplares, últimos sobreviventes das criminosas matanças que ali tinham sido perpetradas em nome do lucro fácil. Hipotéticas propriedades medicinais e afrodisíacas atribuídas pelas culturas orientais ao corno da espécie e as aplicações em objectos que fazem parte dessas culturas inflacionaram os preços e, obviamente, as acções criminosas também. Hoje, segundo consta, metade desses pobres sobreviventes também desapareceram misteriosamente do local onde, supostamente, estariam bem guardados.

Quanto ao elefante, a opinião sobre o perigo de extinção da espécie não é consensual e é até polémica. Respeitando a forma como outros encaram o assunto, não acho que a continuidade deste animal esteja em perigo. Penso, no entanto, que existe uma ameaça em relação à carência de bons reprodutores, uma das consequências das pesadas matanças praticadas pela caça ilegal, mas também pelo exagero de machos abatidos legalmente por caçadores desportivos. Em alguns dos países onde existem elefantes, continua a observar-se um número animador que permite ter esperança no futuro, embora julgue que seria benéfica a redução de quotas autorizadas às empresas que se dedicam sua à caça.

Sobre o roan antelope, a palanca vermelha de Angola, recai uma das minhas maiores preocupações. Apesar de nunca ter sido tão abundante como, por exemplo, o sable antelope, a palanca preta do sudeste ou regular – não confundir com a palanca negra gigante ou real, espécie exclusiva de Angola – o roan parece-me estar condenado a desaparecer. O motivo por que se observam cada vez menos animais desta espécie não me cabe a mim estudar, mas se uma opinião ditada por mera experiência é permitida, eu diria que o roan não suporta, tão bem como outras espécies, o desassossego e pressão provocados pelos automóveis, pelos tiros ou, simplesmente, pela presença humana. Se o poder de decisão me fosse conferido, este belo antílope, um dos maiores da fauna africana, seria retirado das listas de animais cujo abate é legalmente permitido.

O bongo, o grande antílope das selvas tropicais, nunca foi muito abundante e está hoje condenado à extinção. Recordo que há um par de anos, na República Centro-Africana, onde realizei um safari com um amigo brasileiro, Milton Meirelles, surpreendentemente concluímos que existiam apenas duas possibilidades para obtermos o pretendido troféu: conseguir o macho que frequentava o território norte, da área de caça, ou o que frequentava o território sul. Infelizmente não havia mais machos vivos. Deles restavam cornos em “exposição” nas várias povoações por onde passávamos, entre muitos despojos de outras espécies, ao lado das bancas de venda ambulante de carne fresca de macaco, de sitatunga de floresta, de pequenos duikers e até de gorilas…

O giant eland, também conhecido por Derby´s eland, um primo direito da gunga ou cêfu de Angola, nunca foi igualmente muito abundante. Quando cacei no Sudão, em 1975 e na República Centro-Africana, nos anos seguintes, a espécie era pouco comum. Hoje é ainda mais rara e essa é a razão pela qual julgo ser necessário eliminar este enorme antílope das listas de caça desportiva… Antes que desapareça totalmente.

Quanto ao leão, julgo tratar-se de uma vítima da caça organizada. A busca de troféus castigou a espécie de forma impiedosa durante as últimas décadas. Recordo que em 1988, na Tanzânia, para se caçar um leão com grande e farta juba, três “iscos” por safari eram normalmente suficientes. Hoje, infelizmente, dez ou mais “iscos” dificilmente produzem os efeitos desejados. É evidente que esta realidade se deve ao exagerado número de leões caçados e um pequeno exemplo servirá para que se compreenda o que acabo de referir. Que país ou que região, por mais fértil que seja, terá possibilidade de recuperar a quantidade e qualidade dos seus leões quando, anualmente, se abatem bem mais de cem exemplares?

É claro que a acção repressiva está nas mãos das autoridades locais, cabendo aos caçadores conscientes, aos cientistas e aos homens de boa vontade que se preocupam com tragédias desta natureza, colaborarem na procura de medidas a tomar, alertando o Mundo sobre as barbaridades que todavia se cometem e tornando público o que muitas vezes não convém que se saiba. Poucos são os países em África onde a conservação da Natureza se processa com sucesso e não quero, nem devo, omitir o fantástico trabalho que nesse campo vem sendo efectuado pelo governo do Botswana. Devido ao controlo efectivo do respectivo Departamento de Caça e apesar da intensa actividade cinegética registada, não existem espécies que ameacem extinção. Para quem compreende e apoia estas medidas, é um prazer observ ar os resultados positivos da política adoptada e uma alegria verificar como os animais abundam – se.

Hugo Seia


                                                                     Hugo Seia

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