Algo sobre a perdiz


Foi pelas bandas de Caarapó onde costumeiramente frequentávamos é que descobrimos algo novo em relação as perdizes.

Desta vez convidamos o compadre, residente em Maracaju para nos acompanhar nessa empreitada.

Nosso amigo Nardinho, conhecido morador da cidade, com toda sua gentileza, sempre nos oferecia sua residência para de lá partirmos para os afazeres com as penosas.

Era meados de julho, seguimos então para uma fazenda de gado onde costumeiramente se encontrava perdizes. Saímos por um lado e meu compadre com seu pointer saíu por outro, munido de uma cal.28 de um cano.

Nessa época do ano as perdizes já estão a cantar “fiu, fiu, fiu-fiu. A emoção aflora na pele e pode até arrepiar.

Bem disse José Pardal, que a caçada de perdiz é tão emocionante como uma caçada de elefante. Da mesma forma que um elefante se esconde no mato fechado, a perdiz esconde no campo. Sabemos que está bem próxima, mas não sabemos como levantará, se escapará ou não.

Entre a caçada do elefante e a de perdiz , a única diferença é que o elefante é um bicho perigoso e pode te matar.

Após a caçada reunimos em volta da caminhonete para contar as façanhas da manhã e saborear uma pinguinha de garrafão. Meu compadre foi chacoteado por não ter apanhado nenhuma perdiz, mas sua resposta veio apressada:

—Eu, com uma cal.28 de um cano, com cartuchos ecológicos feitos na terra do Papa que não saíam tiros, como é que vou caçar!

Os cartuchos eram poloneses e foram comprados no Paraguai, alguns negaram fogo.

A conversa prosseguiu e o Nardinho trouxe à tona um fato até então inusitado. Pegou uma perdiz abriu seu bico e mostrou que não tinha língua pronunciada e sim bem curtinha. Tudo leva a crer que no tempo de acasalamento em que exacerbam seu cântico, elas perdem a língua, e só vem a crescer depois.

Henrique Silva em seu livro editado a mais de 100 anos, relata a seguinte lenda sertaneja: “No tempo em que todos os animais falavam, o jaó e a perdiz eram companheiros inseparáveis. Um belo dia, porém, brigaram e o jaó foi habitar os matos, ficando a perdiz nos campos. Hoje em dia, à tardinha, ouve-se as duas aves cantarem ao mesmo tempo,perguntando de dentro da mata o solitário jaó, em voz plangente e separando distintamente as sílabas:”Vamos fazer as pazes?” Ao que a perdiz, indignada, responde lá nos campos:”Eu, nunca mais”! Acrescenta o caçador goiano: ”Exatíssima e perfeita onomatopeia!”

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