Algo sobre os cães de campo


Passagens sobre cães de caça de campo

Quando ainda jovem participava com os mais velhos das caçadas de campo. Naquele tempo a pratica vigente era castigar o cão quando ele não obedecia.

  O cão é um caçador, e seu principal intuito é apanhar a caça, ele não se preocupa com o que está acontecendo em sua volta, o que o comanda é seu faro e nele se vê absorto. O homem se apoderou dessa capacidade do animal para trabalhar em seu benefício, e quer que ele faça aquilo que  propõe, não aceita que ele vá longe. Mas, o que significa para nós humanos a visão, para ele é o faro, então o homem não aceita muitas atitudes do cão que prejudicam a caçada, e não entende que o maior sentido do cão é seu olfato. Tanto é verdade que num livro português de adestramento de cães o autor sugere que se treine o cão a trazer à noite, para evitar que ele use a visão, já que não é tão bom nisso. Os antigos achavam que maltratando o animal, puxando suas orelhas ele iria obedecer, mas o cão não se condiciona com essas atitudes.

Vi cenas que davam pena do animal, mas essa prática foi modificada, da mesma forma que a doma do cavalo, o cão atualmente não é mais castigado, pois estudando a psicologia animal o homem mudou seu comportamento.

O cão tem o instinto de matilha e necessita de um dominador, sabendo trabalhar nesse ponto, podemos conseguir muito dele.

A utilização de uma longa cordinha pode educar o cão sem penalizá-lo. A coleira de choque também poderá ser usada. Quem não conhece a coleira pensa que o choque maltrata o animal, mas isso não procede. A coleira de choque foi inventada em 1935 e tanto foi o sucesso que de lá para cá ela só vem sendo aperfeiçoada.

A percepção do choque pelo animal parece ser dolorosa, isso porque ele não está acostumado como o ser humano que desde criança aprende que o choque é perigoso e que lhe dá uma sensação desagradável ou  fatal. A coleira foi inventada para atuar no pescoço do animal, pois a submissão dos animais ferozes se dá justamente pelo pescoço que é a parte do corpo de obediência do animal. Os grandes felinos impõem seu poder atacando o pescoço do adversário e seus rebentos são desde tenra idade transportados pelo pescoço, onde impõe a submissão.

 Atualmente existem coleiras de choques de varias escalas de tensões elétricas, algumas coleiras só dão uma vibração e o cão associa com o choque e obedece.

Eu tive uma coleira de choque e achei muito eficaz, pois cão que é acostumado sair longe, com um toquinho leve ele volta pertinho da gente. Eles associam facilmente, nas vezes seguintes só o ato de colocar a coleira parece que ele já passa a obedecer e trabalhar mais perto.

Uma vez um fazendeiro me pediu um filhote de perdigueiro, assim que criei uma ninhada reservei um para ele.

 Salientei ao fazendeiro que o cão perdigueiro que reside em fazenda tem que ficar preso, pois se ficar solto ele vicia caçar e o faz quando deseja e não mais obedece ao dono. Não deu outra, o cão ficava solto na fazenda e não obedecia ninguém, caçava sozinho a hora que bem entendia.

Um belo dia fomos visitar as penosas e o fazendeiro cansado da desobediência  quis experimentar a coleira de choque no “Pirata”, que era o nome do cão. Levamos-o longe da sede e colocamos a coleira. Na soltura o cão logo tomou grande distância e o botão do controle foi apertado, um detalhe: o choque deve ter uma duração de um quarto de segundo. O cão deu um grunhido e um pulo e rumou direto de volta para a sede da fazenda, onde tivemos que buscar a coleira. Conclusão: nesse caso a coleira não funcionou, pois o cão simplesmente abandonou o campo, uma vez que estava acostumado a ir e vir por onde muito conhecia.

Outra historinha de cão: Nilton, meu amigo de diversas incursões pelo campo, tinha um cão que se chamava Barão. O Barão ficava preso na fazenda do pai dele em Minas Gerais, o Nilton ia um final de semana a cada mês à fazenda, e quando lá, sempre saía fazer um passeio com o cão para que ele não perdesse o dom cinegético.

As caçadas que eu fazia com o Nilton sempre eram com meus cães. Um belo dia o Nilton resolveu levar seu cão. Primeiro teve que buscá-lo em Minas e trazer para minha casa, pois morava em apartamento. Foi penoso para ele fazer todo esse percurso, mas queria por toda lei ver seu animal trabalhando naquelas paragens.

 Assim partimos para mais uma aventura. Na ida, o cão que não estava acostumado a longas viagens preso na cachorreira roeu quase toda a portinhola da minha caixa de transporte de perdigueiros.

 Barão era um bonito cão laranja e branco que ele adquiriu do famoso canil do Dr. Pacheco, já falecido, de Itú-Sp. Eu estava curioso em ver o dito cujo trabalhar.

Assim fomos. E numa manhã quente do norte num campo limpo, onde já tinha sido colhido o milho foi o local escolhido para a soltura dos cães. À direita do campo jazia um plantio de milheto alto e seco, em que as perdizes se escondiam durante a noite e com o sol a pino, e nas manhãs mais frescas saíam para catar grãos de milho.

 O milheto era intransponível tanto para nós como para os cães.  Fomos então pelo limpo, muitas perdizes estouravam longe ao ver nós e os cães, algumas escondiam e assim podíamos aproximar mais delas.

Tudo estava cor de palha, verdes só parcas ervas daninhas, a vegetação estava esturricada pelo sol causticante. O ambiente era totalmente alheio ao bom trabalho do cão, a umidade estava baixíssima. Saímos com dois cães, andávamos um distante ao outro.

O cão do Nilton, já na soltura saiu em disparada e sumiu, ele quase ficou sem garganta de tanto chamar e assoprar o apito ultrassônico de metal. Seu cão não dava a mínima nem pelos chamados, nem pelo som agudo do apito. Depois de tempo insistindo, o cão deu a voltar pelos lados do campo, não parecia ser um perdigueiro, pois qualquer sombrinha de arbusto parava para descansar, lembrava o Rex, perdigueiro do meu amigo que ganhou o apelido “De sombra em sombra”.

No dia seguinte tentamos mais uma vez pensando que o Barão pudesse estar cansado da longa viagem, mas que nada, foi a mesma coisa. Nessa caçada o Barão não mais foi utilizado, pois naquela latitude não se deu bem. Assim fiquei sem saber se o Barão caçava ou não, o meu amigo afirmava que sim.

A bem da verdade naquele ambiente de caçada o mais experiente, sagaz e vigoroso cão se entrega facilmente aos dissabores do calor e ao sol cabuloso.

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