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Ao voo


Caça ao voo

A julgar pela proporção de emoção entre as modalidades de caças ao voo, a que mais me excita é sem dúvida a caça de campo. Não sei se isso se deve a herança do meu pai, mas  é muito emocionante, tanto que caçadores renomados africanos sempre compararam a caçada ao voo com as mais emotivas de animais perigosos. Ademais, podem notar que todos os grandes caçadores da época de ouro dos safaris não deixavam de levar suas armas de tiro ao voo, para com ela abater galinhas angola e francolins.

Em se tratando de relatar, a caça de campo com cães, com certeza é mais digna de emotiva descrição, pois envolve nosso cão, como também o percurso de campo onde descrevemos tudo o que de bom apreciamos. As caçadas estáticas, tipo as de pombos e patos, também são emotivas, mas em menor grau, portanto, assim também as descrições são mais limitadas.

Vamos lá então a mais um episódio de caça passado no tempo e que ainda restou recordação.

Num milharal colhido em solo com formato retangular, cercado por quase todos os lados de árvores esparsas, foi o palco do cenário duma típica caçada ao voo.

Os caçadores estrategistas antes de iniciarem o trabalho auscultaram os deslocamentos do pombos que faziam o tráfego aéreo entre as árvores e o milharal colhido. Cada um escolheu um local, de preferência na sombra de uma árvore, e armou seus apetrechos de chamas de pombos a uma distância aproximada de 25 metros de onde localizava seu banco de um só pé.

Os pombos vinham de outros locais à procura de alimento e desciam no meio do campo colhido. Quando levantavam voo, a maioria das vezes partiam de vez, alguns pousavam nas árvores da beira da plantação colhida. Havia um bom trânsito aéreo de pombos.

Tínhamos que ficar muito atentos, pois não é só pela frente que eles vinham, mas também pelos lados e por trás. A princípio todo caçador é ansioso e não aguenta ficar sem atirar, deixando assim de avaliar a distância. A boa distância para o tiro é no máximo 30 metros. Não citamos o calibre, pois pombos podem ser caçados com 12, 20 ou até 28. Na verdade a velocidade da carga, teoricamente deveria ser a mesma para todos os calibres, o que muda é a quantidade de chumbo. Muitos podem dizer que derrubam pombos a 40-50 metros, isso acontece conosco também, mas sem dúvida é um tanto raro!

Os pombos voam rápidos, embora não aparentam, mas suas batidas de asas tem grande torque e impulsionam velocidade com movimentos mais lentos. Muitas vezes o pombo que vem direto de frente pra gente, vindo quase a trombar, e na ânsia erramos. Dois fatores ai devemos considerar: um que o tiro muito próximo tem a chumbada concentrada, ficando mais difícil de acertar e outro que podemos negligenciar o desconto!

Parado na espera sentados, ficamos distraídos pensando na vida boa que é estar caçando imerso na natureza, sentindo o calor dos raios solares, ouvindo os quero-queros, sentindo o cheiro das plantas, vendo ao longe árvores frondosas num horizonte verde. Nesse interim vem um pombo que só notamos quando já está passando, sem tempo para fazer um acompanhamento caprichado, metemos um tiro de chanfro no desespero e, corrigindo com outro, despenca do ar o lindo pombo! Que satisfação!

E assim vai a caçada também observando os outros caçadores atirando os pombos que caem antes do estampido ferir nosso tímpano . Que cena prazerosa!

Atirar pombos é não ter dó de cartuchos, pois se perdem muitos tiros. Aquele tiro caprichado que contamos com a ave no chão, lá se vai o pombo embora redondo!

E aquele tiro longo que você atira pensando que o azar é só dele, e o pombo cai! Que delícia!

O sol começara a baixar para seu descanso diário ,o friozinho de inverno começa a pegar. Inesperadamente, como invasão de esquadrilha aérea, surgem bandos de marrecas, em formação parecida com a dos aviões tucanos da esquadrilha da fumaça fazendo o reconhecimento aéreo. Voam rápido com incessante bater de asas, parecendo aviões turbo hélices! Dão um giro por cima do local e, assim que passam por perto de algum atirador lá se vão tiros. São tiros sensacionais, pois o surgimento inesperado, faz com que nossos corações aumentem o ritmo cardíaco e suba o nível de adrenalina. Algumas sucumbem e outras continuam seu destino.

O sol quase sumindo, confiantes que nada mais viria, alguns caçadores deixaram seus postos e ficaram em pé em frente as árvores conversando no frescor da tarde. Eu só apreciando de longe, nesse momento aparece o rei dos patos: o patão preto de asas brancas. Por ser um pato grande, quase do tamanho de um ganso, chamá-lo-ei de B52 (fortaleza voadora) Ele vinha voando muito alto e passou por cima dos três caçadores, aquilo foi um tiroteio gostoso de se presenciar,pois foram nada menos que seis tiros, mas o B52 nem se abalou e foi-se embora.

Não demorou muito, outro patão passou por onde os rapazes estavam, mais um tiroteio e dessa vez o bruto despenca da altitude que estava, porém se enfiou num brejão de difícil acesso, não puderam recobrar.

Final de caçada é saborear a gostosa canseira física, mente aliviada, saciedade de aventura e agradecimento pela natureza tão prodiga que nos dá todo esse prazer!

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