Aparelho de café

A caçada de campo é uma das caçadas mais complicadas, primeiro tem que se ter um cão  treinado, viajar por muitos lugares e cada vez  mais longes. Para complicar ainda existe os entraves contra a caça no país! Mas, uma das partes cruciais é onde conseguir os locais para a prática. Isto se faz com amizade muito chegada com os proprietários,  além disso o caçador deve saber se comportar com o fazendeiro , pois se não está tudo perdido! Muitas vezes o fazendeiro gosta de ouvir o cântico da perdiz e diz ao caçador, para não caçar as que estão próximas à sede, e certos tipos desrespeitam e perdem definitivamente o local. Nas minhas andanças sempre fui felizardo, onde cacei sempre foi convidado a retornar. Eu sempre usei a técnica de oferecer as perdizes abatidas para o fazendeiro e se ele não quizesse todas, então levaria as restantes. Assim sempre fui convidado a retornar ao local. Coloco aqui uma história do livro do falecido ex deputado Abel Rafael Pinto, do livro Contos e crônicas de caça e pesca de 1980 José Olímpio saiu de Juiz de Fora, com o Português, num caminhãozinho que eles haviam comprado para caçadas. E vieram vindo, parando e caçando. Quando o panorama prometia,quando as veredas apareciam,paravam, eles e iam dando exercício aos cães,como maior ou menor proveito. Até que chegaram à entrada de uma fazenda que pela topografia, de terras planas e meia laranja, devia render muitas perdizes. Adentraram a estrada e depois de alguns quilômetros  chegaram à sede.O fazendeiro e sua esposa estavam na varanda e os receberam com aquela gentileza própria do interiorano, que aprecia visitas e gosta de uma conversa sobre as “novidades da cidade” Depois do cafezinho costumeiro, das introduções indispensáveis, e da amabilidades trocadas, José Olimpio entrou no assunto. O fazendeiro com toda delicadeza, explicou que nunca deixava ninguém caçar em suas terras, por isso ou aquilo. José Olimpio não insistiu no propósito, mas esticou a conversa para outros assuntos e, como bom conversador que é, foi cativando os hospedeiros. compreendeu e justificou os motivos da negativa e disse que sua excursão com o amigo era mais para “despareicer”:eram umas férias que eles haviam tirado para conhecerem o interior desse querido Brasil,travarem novos conhecimentos e, se possível,caçarem um pouco. E estavam muito satisfeitos com o conhecimento que haviam travado e prometiam voltar um dia para tomarem outro cafezinho e baterem mais um dedo de prosa… À saída, José Olimpio, já no carro, de lá tirou um embrulho que ofereceu à fazendeira. Era um aparelho de café,de esmalte,muito bonitinho.E já ia pondo o carro em marcha quando o fazendeiro o fez parar,dizendo: —Olha, para os senhores não voltarem com a boca cheia d´agua, podem matar umas duas perdizes aqui perto da fazenda, ali naquele morrinho acolá. Eu irei com o senhores. E foi. A cerca de 100 metros da sede, o cão amarrou bonito. Perdiz levantou, encastelou, e José Olimpio lhe deu dois tiros sem acertar. O português também havia descarregado a arma, sem proveito. A cena se repetiu várias vezes. E os nossos caçadores estavam sem sorte,pois em vão descarregavam as armas diante das perdizes que fugiam. Ao fim de uma hora de tiros infrutíferos, José Olimpio resolveu ensarilhar as armas. Agradeceu ao fazendeiro  e ia tocar o carro quando ouviu: —Olha moço! Os senhores podem caçar à vontade na minha fazenda. Gostei dos senhores. José Olimpio, com cara de desapontado perguntou: —Essa estrada aqui vai dar aonde? Tem saída para o asfalto? Ao que o fazendeiro respondeu: —É mais comprida que essa por onde os senhores vieram. Mas vai dar também no asfalto,mais embaixo. E ajuntou: —Há muito campo bonito aí em baixo. Os senhores podem ir gastando seus cartuchos, sem cerimônia! Quando o carro estava mais distante, ele se virou para a mulher e disse: —Do jeito que eles atiram, podem caçar à vontade, que eu vou assar no dedo o que matarem! E deu uma risadinha de escárnio… O carro rodou dois quilômetros,até ficar fora das vistas do fazendeiro. Havia muitas perdizes.E era saírem e morrerem.Até doublé fizeram… Mas também nunca mais voltaram tomara aquele cafezinho!

0 visualização

©2019 by RECARGAMATIC.