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As espingardas de caça "vintage"


Meu amigo escritor Cel .Óscar Cardoso,português ,enviou-me este texto assim sendo achei por bem que todos meus leitores também deveriam se deleitar.

As espingardas de caça “vintage” e as ferramentas de atirar

Não temos na nossa língua um termo que corresponda à palavra inglesa “vintage” quando aplicada a objectos. Se procurarmos no dicionário encontramos o significado  vindima, que não é o caso. No entanto, nós, uma espécie em vias de extinção programada e em curso, compreendemos profundamente o sentido da ideia. “Vintage” significa qualquer coisa que é a melhor e a mais típica do seu género, especialmente por ter sido feita numa época em que estava no período áureo da sua produção. Quando se trata de armas de caça considera-se o período que vai desde as armas muito finas de percussão – século XIX – até às de mecanismo ainda actual, de qualquer sistema, elegantes e leves, de grande qualidade e feitas antes de 1960.

Havia, não muito longe da minha casa, um velhote que, por ter estado longos anos em França, lhe puseram a alcunha de “o francês”. Era garoto quando o conheci. Ele tinha uma loja de aldeia daquelas onde se vendia tudo, desde pregos de galeota, passando por botas de atanado, adubo, carrascão local ( a copos de dois e de três), até aos cartuchos de caça vazios, “Falcão” da IPM, dos mais baratos. Para além destas virtudes acumulava o cargo de regedor que exercia com autoridade e rigor. As costumeiras querelas de aldeia eram resolvidas por ele e pelo “cabo de ordens”, de imediato e sem protestos. A vida decorria calma e serena nesses tempos do antigamente. De vez em quando convidava-me a ir “colher” um coelho ao Carrascal, uma mata das redondezas e lá íamos os dois mais a cadela dele, muito contentes. Eu tinha uma Pietro Beretta barata de cal. 12, grande e pesadona e utilizava cartuchos que “atacava” com pólvora T (2,3 g por 36 g de chumbo n.º 5). O velhote atirava a primor com uma Auguste Francotte de cães e cal. 16 / 65 mm. Carregava os seus cartuchos com pólvora Nobel sueca laminada e punha 28 g de chumbo 7. Comparada com a minha, a sua espingarda parecia um brinquedo. Tinha sido comprada no final dos anos 20, em segunda mão e em França. Chamava a atenção pelo requinte da báscula com guarda fogos e  pelo gravado sóbrio  das platinas. O ajuste dos canos, lindamente torneados, era perfeito. A coronha de meia pistola era embelezada por um recartilhado muito miudo, sem emendas nem sobreposições. De boa raiz de nogueira francesa e acabada a óleo, apresentava um tom de vinho do Porto velho muito distinto e aprazível. A chapa de coice de corno recartilhado  e os cães elegantemente dobrados, ambos a distância igual dos percutores, contribuíam com o guarda mato e os dois gatilhos muito airosos, para um conjunto de simplicidade harmonia e proporção. O delgado de secção oval e o fuste pequeno, e bem encostado  aos canos, punham as mãos ao mesmo nível tornando o apontar um acto natural. Nada na arma tinha sido feito ao acaso, nem peça alguma era mais espessa ou pesada do que o necessário. Embora a palavra ergonomia fosse desconhecida, naquele tempo, a espingardinha, a que o “francês” chamava afectuosamente « a minha “finesse”», era tudo isso e muito mais. A minha espingarda era uma boa ferramenta de atirar e a do velho, aquilo a que os ingleses chamam uma verdadeira “ Vintage game gun”.

As armas “vintage”. Muitos dos bons canos das armas do século XIX eram de damasco. Entretanto, com o progresso da metalurgia, os canos passaram a ser brocados  em aço, então chamado “fluid steel”, considerado mais denso e resistente do que o damasco.Verificou-se um aligeiramento notável nas armas sem prejuízo, segundo se alardeava, da sua resistência. Na Inglaterra, Joseph Manton criou um estilo próprio. Instruiu e influenciou grande parte dos bons artífices que, na Época Vitoriana, deram origem às melhores casas de Londres. O período Vitoriano é um marco na história do tiro de caça e na criação de mecanismos engenhosos e eficientes como o sistema Anson & Deeley. As platinas sofisticadas, as fecharias primorosas, vários sistemas de percussão, os requintados ejectores automáticos, as aberturas assistidas e automáticas bem como o monogatilho, são criações do século XIX e quase sempre de origem inglesa.  Os caçadores ingleses lançaram uma praxe que influenciou  toda a Europa chique dos séculos XIX e princípios do XX e ao qual o nosso país não escapou. Era a época dos grandes atiradores como o marquês de Ripon, o rei senhor D. Carlos, o lord Walsingham que desbaratou toda a sua fortuna com a paixão pelo tiro e muitos outros por toda a Europa e não só. Os grandes fabricantes competiam entre si pela primazia das novidades destinadas a aumentar a eficiência dos atiradores. Lord Walsingham atingia recordes como 1070 “grouses” num dia e o marquês de Ripon abatia 28 faisões num minuto. Tudo isto com armas de cães de canos de damasco, câmaras de 65 mm e Pólvora Preta. Em França, numa “escola” diferente, havia quem abatesse patos com canhões de tiro rápido e com rodas do tipo artilharia.  Comercialmente era vantajoso contentar toda aquela rapaziada fina e assim aparecem armas de 3 canos como as de Edwinson Green e John Dickson, e de 4 canos como as de Charles Lancaster e Purdey, todas de fabrico excelente mas demasiado pesadas para o fim em vista, pelo que não convenceram. Os americanos responderam com armas de repetição como a Spencer, a Winchester e a Colt no sistema revólver. Em 1905 Browning lança uma  espingarda automática fabricada pela FN, na Bélgica, e que ainda hoje é considerada como das armas mais fiáveis do seu género. Só que nas grandes batidas de que são exemplos Sandringham, Rambouillet e Tót Megyer (na Hungria, onde os almoços campestres eram servidos ao som de violinos zíngaros), esta arma não vingou. A verdade é que não conseguiu ultrapassar o ritmo de fogo dos caçadores que atiravam com duas ou mais armas de dois canos, com ejectores e abertura automática, devidamente assistidos pelos seus “secretários”. Havia que contar com o recarregamento moroso da espingarda de 5 tiros. Além do mais a arma era pesada. Na Inglaterra não teve grande sucesso e todo aquele que se apresentasse com uma arma de 5 tiros era, e ainda é, considerado “disgusting”. Foi no período que medeia entre os finais do século XIX e o início da 2ª Guerra mundial que se fizeram as armas de caça de dois canos mais elegantes e equilibradas. Eram práticas e adequadas tanto para o tiro de batida como para caça de salto. As câmaras eram em geral de 2 ½ polegadas (65 mm), quando não de 2 polegadas como no caso das espingardas Holland & Holland modelo “Centenary” que pesavam 2,450 Kg em cal. 12.  No continente os franceses fabricavam armas belíssimas como as Gastinne Renette, Verney Carron, Le Page e Darne. Os calibres de caça eram o 16 e o 12, ambos de 65 mm. Com a crescente popularidade do tiro aos pombos, os franceses lançaram armas para “Tir aux pigeons” com alongamento das câmaras para 70 mm e aumento de peso. A Alemanha produzia armas de superior qualidade como as Barella, Gebruder Adami e Merkel tendo também reintroduzido o uso das caçadeiras de canos sobrepostos cuja concepção já vinha do século XVI. A influência dos sobrepostos estende-se à Inglaterra onde Boss, Woodward, Holland e Joseph Lang produzem estas armas com fecharias extremamente engenhosas e de primeira qualidade. Na Bélgica Lebeau–Courally fornece a casa real russa, Auguste Francotte expõe em Inglaterra, onde estabelece representação e Defourny produz espingardas de qualidade suprema.  As armas inglesas de maior nomeada são as conhecidas por “London Best”, como Purdey, Holland, Woodward, Lancaster, Boss e Churchill quase inteiramente trabalhadas à mão e extremamente caras. Birmingham disputa com Londres a primazia do mercado. As suas armas são de grande qualidade, só que muito do labor é feito com maquinaria o que torna o produto final mais acessível. Não têm a aura da espingarda londrina e são consideradas, com um certo chauvinismo, muito inglês, “armas provincianas”. Excepção à regra é a casa Westley Richards de Birmingham que teve a  sensibilidade de montar escritório num dos sítios mais distintos de Londres e de designar, como promotor de vendas, o célebre Mr. Bishop de Bond street que atraia, com o seu saber e personalidade, a fina flor da aristocracia e os endinheirados da capital. John Deeley um dos criadores do sistema Anson & Deeley faz parte dos grandes mestres que trabalharam para Westley Richards e é o responsável pelo célebre modelo “hand detachable” que rivaliza em qualidade, classe e preço com as “London best”, quase todas de platinas. Também os espingardeiros escoceses MacNaughton e John Dickson concorreram, com as fecharias “round action”,  no prato dos gatilhos, para o prestígio que o armamento britânico atingiu no período considerado “Vintage” a que se refere o título deste artigo. As armas de caça “vintage” têm como características comuns  a leveza, ± 3 Kg em cal. 12, e um acabamento em que nada foi descurado; nem o paralelismo das finíssimas fendas dos parafusos. Foram concebidas para atirar, no máximo, 32 g de chumbo, com algumas excepções – as de câmara 2 ¾, destinadas a cargas mais fortes. Estão dentro dos limites estabelecidos por W. Greener que estabelece que uma espingarda não deve ser mais pesada do que 96 vezes a sua carga “standard”. Utilizadas com o carregamento normal chegam a perfazer 1 milhão de tiros sem laquear! A relação entre o atirador e arma é muito íntima, como se fizessem parte um do outro. “Quando as empunhamos sentimos um formigueiro nas mãos”. É assim que os enamorados as definem. Para os que podem e não têm problemas de coração, é sempre possível encontrá-las nos leilões cosmopolitas das firmas Holt’s,  Sotheby’s,  Christie’s  e Bonham’s, em Londres. As armas “vintage” não têm necessariamente que ser britânicas, nem das grandes marcas que aqui se referem. Por toda a Europa civilizada, no período que se define no início deste artigo, existiram pequenas oficinas e firmas menores que fabricaram armas de qualidade tão  excelente quanto a das que aqui se nomearam. O leitor terá que contar com a sua sensibilidade e intuição para as desencantar. Se a arma lhe produzir o tal formigueiro nos dedos, é muito possível que esteja em face de uma, que está à espera de si e que até nem precisa de ser cara.

As ferramentas de atirar. Actualmente, o adarme 12 está instituído como o calibre de caça e tiro havendo, no entanto, uma certa tendência para o cal 20. Os tempos são outros e as gentes e os desafios também. Embora o tiro pareça estar condenado em Portugal, outros países de maior visão praticam-no intensamente, tanto na caça como no “stand” desportivo. O calibre 12 que começou por câmaras de 2 ½ polegadas (65 mm), passando pelas de 2 ¾” (70 mm) e 3”, já vai nas 3 ½ polegadas e continua a crescer. Presentemente  dispara cargas que eram convencionais no calibres 10 e mesmo no 8. As armas actuais tiveram que acompanhar a nova vaga e por isso robusteceram-se e tornaram-se pesadas. Por outro lado, com a carestia da mão de obra, as espingardas são feitas quase inteiramente à máquina. Só nas muito caras o “jointing” (ajustamento) é manual. Fazem-se espingardas excelentes, de absoluta fiabilidade e eficiência só que lhes falta qualquer coisa – um tudo nada a que poderemos chamar Alma. E assim, conforme a qualidade, classifiquemo-las de boas ou más ferramentas de atirar.

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