Caçada de Urso preto no Canadá


A convite do inveterado caçador Rodrigo Meirelles, brasileiro, que reside há quase duas décadas nos Estados Unidos, partimos em setembro de 2016 para mais essa aventura.

Saindo do Estado de Michigan de carro cruzamos a fronteira do Canadá alcançamos a cidade de Wawa, onde existe um portal muito apreciado pelos caçadores.


Após atravessarmos a cidade de Wawa e rodarmos um bom trecho na rodovia 101 entramos no Parque Nacional de Algoma. Rodamos aproximadamente uma hora dentro do Parque e alcançamos o “Halfway Haven Lodge”

Esse Lodge além de ser uma pousada para caçadores e pescadores é um ponto muito requisitado no inverno onde os praticantes de “Snowmobile” fazem trilhas nas estradas internas da mata e ali se servem de refeições e combustíveis na pousada.


O Governo do Canadá concede licenças para exploração à caça e pesca a Outfitters licenciados, além disso também concede exploração de madeira sustentada para firmas do ramo.

 Nosso guia Jeff, caçador experiente, muito atencioso e simpático, nos recebeu no Lodge, solicitou nossas licenças de caça e preencheu documentos para cada caçador. Tudo devidamente muito controlado.


A caçada de Urso, nosso objetivo, não é uma caçada simples onde o caçador tem plena certeza de abater o urso. Segundo estimativas o caçador tem 50% de chance de ver um urso, isso também não quer dizer que poderá apanhá-lo. É verdadeiramente uma caçada em ambiente totalmente selvagem em mata Boreal.

Como a caçada é no interior da floresta não há como ser feita por aproximação, então ela é realizada com “bait” (ceva), onde se coloca guloseimas como bolachas regadas com xarope de Maple (xarope da seiva da árvore “Sugar Maple”), sucos de frutas e até carne de castor. Num tambor também se coloca comida internamente e quando é encontrado tombado é sinal que o urso esteve no local.


Nas raízes das arvores também são jogados sucos de frutas, onde se nota muita atividade dos ursos que cavoucam e arranham profundamente os troncos de árvores.

A caçada de urso é na espera que pode ser no chão ou numa árvore onde o caçador fica sentado num “tree stand” por pacienciosas horas à espera da vontade do urso aparecer. O urso anda durante o dia, mais é mais comum circular à noite, porém à noite a caça não é

permitida.


Estávamos em 10 caçadores naquela semana. No domingo cedo Os “Outfitters” nos propuseram que deveríamos fazer um teste de tiro.

Coube a mim ser o primeiro a atirar, justo eu, um simples brasileiro na presença de 8 americanos!

Felizmente meu tiro foi muito bom com a CZ 550 cal.30-06 do Rodrigo, logo após os americanos atiraram com diversos calibres inclusive com cal.12 com baletão.


Logo depois o Jeff me convidou para alimentar as cevas e conhecer o local onde eu iria ficar. Ele pegou seu ATV(All-terrain Vehicle), carregou baldes com milho, mel, sucos em caixas e pedaços de castor sem pele.

 Chegando ao local onde eu iria ficar, colocou dentro do tambor o milho moído e cereais com mel e 

nos buracos das raízes das árvores derramou sucos.                                                                                    

 Também pendurou no alto dois pedaços de castor sem pele. Esses castores são caçados por caçadores licenciados pelo governo para aproveitamento de suas peles e controle da espécie que muitas vezes danificam o ambiente, por conta da construção de represas.

 Marquei bem o local pra voltar depois do lanche. Assim que me alimentei preparei as coisas e parti para o local sozinho com as roupas que o Rodrigo me emprestou: roupa camuflada, capa de chuva e o rifle CZ 30.06, sacola, com água, castanhas e barras de cereais. Não me esqueci também do Spray de pimenta contra ursos. É usado como protetor de ursos pequenos que poderão vir xeretear.

 Já na trilha da entrada da ceva ia pensando: hoje vou pegar meu urso. Chegando ao local, a emoção era tanta que vi um urso atrás do tambor e parecia nitidamente seu focinho. Fui bem devagarinho sem fazer barulho, com a arma empunhada, mas que nada, a visão tinha sido enganada pelo pensamento, era um tronco escuro atrás do tambor!

 Uma cadeira estava a uma distância de uns 20 metros atrás de uma árvore” Birch” (a árvore que solta folhas do tronco igual papéis).


Uma hora após sentado sem se mover, só vi pequenos esquilos correndo por todos os lados. A temperatura estava ótima, até uns pernilongos me rodearam. A brisa suave balançava os Maples (plátanos) e alguns passarinhos pequenos emitiam seus sons. Três horas e meia de espera sentado numa cadeira e nada. A única coisa que fiz foi cochilar por mais de uma vez e comer barra de cereal, castanhas e deliciosas tâmaras .0 sol ainda alto, era outono, notava se se ainda o viço das plantas, seu verde profuso iluminado pelos pontos de raios que ultrapassavam a mata. Sempre me lembrava do que os experientes caçadores de ursos me falaram: fique atento, pois o urso não faz nenhum barulho. Num estalo de dedo ele está na ceva e você nem sabe como apareceu. Então, eu fechava os olhos e ficava pensando: quando abrir os olhos darei de cara com um baita urso preto! Mas que nada!

 O inverno estava próximo e a temporada da caça terminava naquela semana. Tanto as plantas como os ursos vão para hibernação anual no inverno, a neve cobre tudo, as plantas não crescem e os ursos mantém sua atividade cardíaca em baixo nível de pulsação, o consumo de energia permanece mínimo mantendo órgãos funcionando apenas com a energia da gordura acumulada.

 Após 7 horas de espera sem ver sombra de urso deixei o local com o sol se pondo.

 Ao chegar ao Lodge notei que estavam esfolando um urso pendurado. A satisfação foi grande ao saber que o Rodrigo havia abatido seu troféu.



 Segundo o Jeff era um urso dos seus 120 kg. O evento deu um alento aos caçadores.

 Na sala de refeição falei com um americano que me disse ter atirado um urso, mas o urso desapareceu na mata. Após o jantar o guia do caçador e mais uns americanos saíram à procura do animal, porém na manhã seguinte fiquei sabendo que não acharam sinal do bicho.


 Segunda feira pela manhã o dia amanheceu chuvoso. Segui com um ATV com Rodrigo no local que havia abatido seu urso, subi no “tree stand”, mas começou a chover e não me senti confortável em permanecer lá, então fomos onde havia esperado no dia anterior. O Rodrigo me deixou lá e após umas duas horas o Jeff foi alimentar as cevas me pegou e levou mais pra frente num outro local para eu conhecer. Alimentou a ceva que estava bem batida. Na volta me disse que iria me levar para outra ceva, voltamos até a pousada e na volta vim dirigindo o ATV, que por sinal é muito gostoso. Fomos para outra espera chamado por ele de 23. Da mesma forma ele colocou coisas líquidas e xaropes nos troncos das árvores e comida dentro do tambor. Havia pegadas de ursos menores.

Voltamos para tomar um lanche, perguntei ao Jeff qual sua opinião onde eu deveria esperar, ele me disse que se eu quisesse ver urso deveria ir para o 23 porque sempre via ursos naquele local.

Foi o que fiz, pensando que se eu não pegar nenhum, pelo menos poderia ver algum nem que fosse pequeno. Deixei o veículo longe uns 150 m do local e fui caminhando carregando as placas de EVA para sentar no “treestand”, sacola com água, capa de chuva, esqueci outra vez a lanterna, rifle, filmadora máquina fotográfica, etc. O tempo virava constantemente começou a escurecer alguns trovões e pingos da água, me desanimou. Mesmo assim subi com tudo no “tree stand”, após alguns minutos o tempo mudou saiu o sol e o vento surgiu.

O pinheiro onde estava a cadeira balançava com o vento e eu firme no posto, acreditando na sorte de ver um urso preto. Fiz algumas tomadas de fotos do local onde se viam árvores arranhadas por unhas de urso e suas raízes cavoucadas. O cheiro de xarope de Maple era intenso no ar para atrair os ursos.

O sol se escondeu e mais um dia de espera terminou sem eu ver urso.


Terça pela manhã antes do café sai com o Rodrigo visitar três” baits”, levamos a calibre 20 para os Grouses, primeiro fomos no “bait” que Rodrigo abateu seu urso e após visitamos mais dois todos batidos por ursos, provavelmente durante à noite. No caminho abatemos três Groses. Ao chegarmos conversamos com o jeff (guia) ele me levou novamente na espera onde iria ficar, me orientou como fazer com as iscas após deixar o “bait” e me mostrou onde estacionar o quadricíclo.

Eram onze horas da manhã, tomei um lanche de presunto e queijo comi uma maçã, fiz meio lanche para levar na espera. Preparei o resto das coisas vesti o colete alaranjado botei o capacete alaranjado amarrei o rifle 30-06 na traseira do quadriciclo e parti com calma para a ceva. Chegando próximo deixei o quadriciclo peguei as coisas e desci para a ceva. Subi no “treestand” acomodei as coisas e passei a escrever. O vento ainda batia forte, as árvores produziam seu chiado característico. Sentia ainda sabor de dirigir um quadriciclo pelas estradas íngremes dentro da selva, sentindo o frescor da mata que revigoravam os pulmões.

Desde quase meio dia até as quatro horas nada de urso, estava pensando o que dizer para os outros caçadores que sempre me perguntavam se viu algo: vi sim” I Saw only schadows Bears”. Via toda sorte de formas deixadas pela sombras parecidas com ursos que enganavam nossa visão.

 Mas, o imprevisto ocorreu: o vento havia cessado era por volta das 19:00 horas, a floresta estava totalmente calma, esporadicamente se ouvia os gritinhos dos esquilos, virei a cabeça para esquerda e vi um vulto negro, não houve tempo para pensar, o vulto deu uma bufada e saiu desembestado, só ouvi o som de suas patas batendo no chão. Era um urso preto que estava atrás de mim. O grande problema foi que ele veio por trás sem ruído nenhum e o nível do solo por onde ele veio era quase o mesmo nível da cadeira do” tree stand “então, pareceu que além dele sentir meu cheiro, pois o vento batia no meu rosto, ele também me viu. Assim terminou mais um dia de caçada. Pelo menos tive algo a contar!

Os ursos são muitíssimos espertos, dizem que seu faro é tanto que consegue farejar o que há dentro de uma lata fechada a vácuo! No livro “Understanding Michigan Black Bear” o autor fala que os ursos detestam “blinds” de lona, quando encontram destroem. Não gostam das câmeras espiãs também. São tão espertos que sempre visitam as cevas quando os “tree stands” estão vazios.

Saldo final da caçada, 10 caçadores naquela semana, somente dois mataram ursos. Dois erraram e um não quis atirar, pois achou que o urso era pequeno.

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