Caçada diferenciada


   Antigamente as caçadas eram realizadas principalmente para fornecer proteínas à alimentação, atualmente o caçador não se preocupa mais com a proteína, isto é indiferente, o que vale é ter um relacionamento diferenciado com os proprietários da terra, cultivando uma amizade duradoura. Além disso, muitos caçadores gostam de fotografar animais e aves, dando assim um aspecto mais diversificado ao esporte.     Era uma sexta feira em que o entusiasmo nos arrebatava, a noite anterior foi perturbada pelos constantes pensamentos nos levantes das perdizes e na eficácia dos cães.   Logo de manhã chegamos à fazenda, era bonito de ver entre o mangueiro, onde o pessoal ordenhava as holandesas, e a plantação de milheto espalhava-se pelo chão uma miríade de galinhas misturadas com frangos, que pastavam na grama e colhiam insetos.   Um gavião de asas pretas singrava calmamente o ar, como quem não queria nada, mas a galinhas alvoroçadas, saíram numa desenfreada correria com medo do gavião insidioso.  Nisso chega o proprietário da fazenda e cobra do meu amigo a urgência da espingarda para detonar o grande gavião comedor de frangos e pintos.   Não houve tempo, o gavião passeou por cima de nós exibindo seu belo voo pausado, fez uma curva fechada à direita e sumiu de vista.     Depois do clássico cumprimento ao fazendeiro, resolvemos ir ao seu vizinho antes para bater um campo. Chegando ao vizinho onde também fomos franqueados para exercer o ato venatório, deixamos em seu freezer algumas latas de cerveja para amenizar o calor da volta do percurso de campo. A andança foi grande, mas infrutífera, inacreditável, andamos em locais totalmente certeiros de acharmos algumas perdizes e nada.   Na volta, a esposa do proprietário já estava com o almoço pronto, e nos premiava com carne assada, frango caipira assado, arroz, feijão e mandioca cozida. Para abrir o apetite uma boa pinguinha de alambique e a cerveja geladinha para acompanhar. O que nos impressionou foi o chão de vermelhão do alpendre, que mais parecia uma superfície polida de vidro, ficamos até com receio de pisar.   À tarde repassamos outros cantos, mas foi infrutífera a caminhada, unicamente vimos uma perdiz que levantou estourada.   Manhã de sábado, outro lugar de um conhecido do meu amigo. Chegamos à fazenda que era só pastagem, já deparamos com o senhor de 79 anos, proprietário das terras que estava colocando sal no cocho do gado.   Depois do cumprimento e um pouco de conversa, perguntamos para o senhor se havia perdizes por lá e se estavam cantando. Ele, em tom muito brincalhão respondeu que tinha muitas e que estavam chamando assim: pólvora…chumbo fino. Foi muito cômico ouvir isso dele, que também dizia que nunca achou um homônimo, por causa de seu nome diferente.   Subimos o pasto e afastamos um pouco da manada de garrotes para não espantá-los, nisto vinha passando muito alto um patão de asas brancas e a 20 sabendo que o azar era só dele, ecoou baixo, mas o pato seguiu sem desvio. O inesperado e indesejável ocorreu, o gado tratou de correr no pasto e vir em nossa direção. A preocupação era demasiada, pois o filho do proprietário detestava caçadores. Caminhamos um pouco mais acima e o Lupe provocou uma amarrada  cinematográfica, no seu nariz pula uma perdiz que subiu e veio por cima de mim. O tiro foi quase que um disparo sem noção somado a preocupação de o gado ter corrido, no que viro não deu mais para atirar os companheiros estavam na direção, felizmente eles interceptaram seu voo.   Saímos daquele pasto, andamos um tanto e no retorno levantamos mais uma no estouro que foi derrubada por nem sem quem, foram diversos tiros e não discutimos quem foi o felizardo.


  Como o sol já esquentara muito, descemos para encontrar com o fazendeiro para ver como estava seu humor em relação à corrida do gado. Felizmente nos recebeu bem e disse que não foi nossa culpa e para alegrá-lo demos as duas perdizes, dizendo que foram poucas e ele nos respondeu que antigamente quando ia caçar só de achar o rastro do veado já valia a pena.    No mesmo dia seguimos para outra cidade em outro local e nosso amigo levou um parafernália de coisas, alvos diversos, silhuetas de bichos, armas munições,luneta de spotage e mais uma série de coisas.   Chegamos à noite e o fogo foi aceso para a carne assada. Noutro dia pasto molhado da chuva do dia anterior, saímos e percorremos o campo com os cães. Logo voltamos e iniciamos outra atividade relacionada, que foi o tiro a silhueta e uma disputa de fogo central. É isto que faz a diferença na caçada: bom relacionamento com os amigos e proprietários de terras, compartilhar a mesa, brincar com o esporte do tiro, etc.   Devemos sempre lembrar que existe o caçador e o atirador. O caçador analisa tudo, da atenção aos parceiros, relaciona-se bem. Já a pessoa que só pensa em atirar na caça e mais nada, esse é marginalizado pelos colegas e pelos proprietários das terras.

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