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Caçada em Indiana 2018


Americanos preocupados: nos últimos 35 anos caiu em 18 % o número de caçadores nos EUA, as associações de caça estão em campanha para atrair mulheres e jovens caçadores. Atualmente os jogos da internet estão tirando o incentivo da juventude, e quanto as mulheres falta mais convencimento para se tornarem caçadoras. As entidades relacionadas à caça estão trabalhando nesse sentido.

Enquanto lá nos EUA eles se preocupam em manter a caça, pois sabem que a economia fica muito grata, aqui no Brasil a preocupação é como continuar com a caça proibida.

Em 2009, a convite do Rodrigo Meirelles, estive em Kalamazu-MI caçando veados de rabo branco, chamado de whitetaildeer. Naquela oportunidade fizemos uma caçada de espera num sítio onde o Rodrigo e seus amigos alugavam uma propriedade para a prática da caça, porém, onde fui mesmo apanhar meu primeiro veado, uma fêmea, foi na propriedade do amigo Bill, que conheci numa caçada e perdizes no Uruguai.

Nos EUA, pode-se caçar animais selvagens em terras públicas liberadas, em propriedades particulares liberadas e em fazendas onde se cobram para caçar. Existem também os “Preserves”, que são fazendas cercadas onde o animal é manejado exclusivamente para caça.

Neste ano de 2018, voltei novamente a convite do Rodrigo para à caça ao veado no estado de Indiana.

Assim que chegamos no dia 24/11 em Traverse City, cidade onde reside o Rodrigo, fomos conhecer a loja de armas Hampel´s Gun,de sua propriedade, que completará 100 anos de fundação no próximo ano. Após deixarmos a loja passamos ao Supermercado Meijer, para comprar as licenças de caça ao veado validos para Michigan, pois iríamos tentar um veado na propriedade do Rodrigo no município de Cedar.

Para que saibam, os EUA tem a caça regulamentada com muitas normas, como exemplo: a hora exata do início e do final do dia para a prática da caça. Sem falar na vasta programação de caça, proporcionando dias até para deficientes físicos, como também para cada tipo de arma, como: Arcos, bestas, rifles e até armas de ante carga. Além do mais, para a compra das licenças é exigido a “Carta de Caçador”, que é um documento emitido após avaliação em testes para caçadores.

Para o americano a licença do veado custa 20 dólares, no caso de estrangeiro a licença para o macho de veado custa 150 dólares e a fêmea 20 dólares, além disso o macho a abater terá que possuir ao menos 4 pontas nos chifres.

Compramos a licença, apanhamos alguns folhetos elucidativos à caça ao Veado de rabo branco, do Elk, do Perú selvagem, do Urso e de patos, todos com temporadas diferenciadas. De posse da nossa licença fomos para o jantar e, após, um merecido descanso da longa viagem implementada de São Paulo a Traverse City.

Por volta das 5 da manhã do dia seguinte, pulamos da cama e, mesmo sem tomar o” breakfast”, para não perdermos tempo, rumamos à propriedade particular do Rodrigo, que situa-se noutro município, a fim de caçar veado.

Nas margens da estrada, como em pontos dos campos viam-se muito gelo proveniente de uma forte queda de neve nos dias anteriores. A propriedade do Rodrigo também estava salpicada de gelo duro, que ainda se mantinha, por conta da baixa temperatura que persistia.

Nós dois, nos instalamos num esperadouro “,Blind,” todo fechado, bem confortável com duas cadeiras e ampla visão para` `a frente, à direita e à esquerda. Em frente via-se um terreno limpo onde se encontrava milho espalhado e um pouco de cenoura. Mais à frente e aos lados, árvores esparsas de “maple” já perdendo suas folhas cor de ferrugem pálido.

Estávamos eufóricos participando de uma típica caçada ao veado de cauda branca, muito disputada pelos americanos.

É interessante saber que o americano não caça só pelo prazer, eles adoram comer a carne

do animal. Tanto que, para facilitar o trabalho de carneamento, existem muitos açougues especializados onde você deixa seu veado abatido e eles transformam a carne na forma que desejar: moída, linguiça, em “Jerkey”, (carne salgada e defumada), que, aliás, é muito boa!

Permanecemos no “Blind” até por volta das 10 horas da manhã, vimos somente pássaros e esquilos correndo pelo local, subindo em árvores com suas patinhas que grudavam nos troncos como se tivessem cola.

Por volta das duas horas da tarde voltamos à ceva, me inseri no” blind” sozinho e o Rodrigo foi para um outro “blind” distante uns 500 metros.

Fiquei ali na espera, curtindo o frio, que batia em zero graus, apreciando a paisagem, torcendo para que aparecesse algum macho de veado. Os esquilos continuavam suas andanças incompreensíveis, pois corriam pelo capim, subiam nas árvores, desciam e nada acontecia!

Por volta das 16 horas, apareceu uma fêmea de veado que de imediato entrou na ceva comendo o milho debulhado solto no chão. Logo depois outra fêmea apareceu, só que ela circundou o local e não entrava na ceva, até que por fim entrou. Nesse interim, passei um zap para Rodrigo, ele me respondeu atire. Eu não quis atirar, achei que o porte do animal não era bom. Logo depois os bichos deixaram o local e nada mais aconteceu. Deixamos o local pisando em gelo duro espalhado pelo chão como se estivéssemos pisando em galhos secos. A esperança ficou para outro dia!

Noutro dia repetimos novamente o mesmo esquema do dia anterior, chegamos antes do amanhecer. Permaneci confortavelmente no meu” blind“sentado numa poltrona, com as janelas fechadas por conta do vento gelado, olhando somente pelas janelas de vidro. Nem pensar ficar sem luvas, o vento gelado castigava o brasileiro desacostumado com o rigoroso frio americano. Antes dos primeiros raios de luminosidade a tensão aumenta, pois é a hora que podemos enxergar um bicho, assim ficamos quase que inventando animais pelas sombras das árvores, ou então procurando-os num quebra cabeças de vegetação!

Os primeiros raios solares partem para as terras norte americanas, é hora de atirar se aparecer um veado. Pobre da gente, todos os vultos que aparentavam ser bichos, desvendavam que nada era além das sombras da vegetação.

Por volta das 9 da manhã, chegaram duas fêmeas de tamanho médio, uma delas estava mancando da pata traseira. Novamente passei um Zap para Rodrigo, que logo retornou: atire na machucada, pois não irá sobreviver ao inverno. Mais uma vez reneguei e as duas se foram ilesas.

Após o almoço, por volta das 14 horas retornamos ao mesmo local. Permaneci no “blind”, curtindo o frio do norte dos Estados Unidos, próximo do lago Michigan. Quando o relógio marcou 16:30 duas fêmeas apareceram na ceva, uma de bom tamanho e um filhote já bem crescido. Desta vez não titubeei , nem passei zap para Rodrigo. Empunhei a cópia do AR-15 no calibre 7,62x 39 e, muito calmamente arrastei a janelinha de vidro que estava fechada, por conta do frio, mirei a paleta do animal que não estava mais que 30 metros de

distância e calmamente acariciei o bem afinado gatilho. O tiro atroou pelos troncos dos “maples” e o bicho ficou no lugar. O tiro atraiu Rodrigo, que não demorou para vir me acudir.

Rodrigo ficou muito feliz por eu ter apanhado aquela fêmea, que segundo ele, estava muito dona do pedaço espantando outros animais da ceva. Eu por conseguinte, também fiquei muito feliz por ter a oportunidade de pegar uma “doe” como é chamada a fêmea de veado.

Noutro dia teríamos a viagem para Indiana e restava  pouco tempo para arrumar as coisas, então tratamos de carregar o bicho na picape, mas antes disso tiramos sua barrigada e depois deixamos o veado num açougue próprio para preparar a carne, que seria doada aos funcionários da loja Hampel`s-gun do Rodrigo.

Fomos à um supermercado para a compra de comestíveis para 5 dias de caça. Aproveitei também para comprar um “Blind” de lona para espera, já que eu estava com receio de me congelar num” treestand” fixado em árvores para espera de veados.

No dia seguinte, por volta das 4 da manhã, partimos para o sul. As estradas estavam com um pouco de neve, via-se por toda a parte caminhões com lâminas na dianteira, para limpeza da neve nas pistas.

Após quase oito horas de viagem, o GPS da picape mostrava que já estávamos próximos do local de caça, notamos uma mudança no relevo do lugar, ele se apresentava com partes planas de cultura de soja e milho e partes acidentadas com morros cobertos de árvores.

Após um labirinto de estrada chegamos ao “lodge” por volta das 15 horas, no município de Salem. Conhecemos o Martin, que é Outfitter, que mantem o negócio alugando propriedades para a caça. Na verdade o “lodge” é uma casa típica de antigos proprietários rurais. Na casa havia camas e colchões, mas sem arranjo, por isso levamos sacos de dormir. Havia também cozinha com fogão elétrico, geladeira, panelas e talheres, onde se poderia preparar algo para comer.

A ânsia era tanta e, após deixamos nossos pertences no quarto, partimos para a espera do veado. O Rodrigo me acompanhou por um campo de Soja, próximo um quilometro e meio da casa. Descemos pelo canto da soja, que ainda estava para colher, seguindo um riacho. Num determinado local levamos um susto, pois um bando de “Quail” (tipo da nossa codorna) levantou voo e nos deixou perplexos, pois se trata de uma ave um tanto rara. Chegamos até a confluência do riacho com outro córrego e ali resolvemos armar o “Blind”. Foi tão simples e prático, pois é confeccionado com tubos de carbono em disposição X que se torna muito prático. No interior colocamos uma cadeira, onde fiquei muito bem acomodado e protegido do frio e do vento.

Permaneci ali, olhando constantemente pelas três janelas que me davam visão pela frente, direita e esquerda. Nada se movia, apenas um esquilo solitário e alguns pássaros cruzaram pela frente algumas vezes.

Como de costume a gente sempre espera o sol se despedir, pois é nesse lapso de tempo onde se mistura o claro e o escuro é que os bichos se movimentam. Num relance vi dois veados fêmeas vindo, uma delas parece ter desconfiado algo, ficou tempo olhando para o” Blind “,da mesma forma me transformei em estátua fitando-a também. Logo aparece outra e mais outra. Eu não tinha licença para abater fêmea, fiquei só torcendo para que viesse um “buck” (veado macho) seguindo-as, mas todas elas voltaram num trote por onde vieram e o manto escuro da noite cobriu tudo. Deixei o “blind” e fui ao encontro do

Rodrigo. A legislação não permite caçar à noite, nem mesmo focar animais com farolete.

Voltamos para o Lodge, e o “Chef” Rodrigo resolveu preparar um lombo de porco com batata. Acreditem, a preparação foi a toque de caixa e ficou bom! Os colegas americanos que estavam no “lodge” também apreciaram o nosso jantar.

Manhã do dia seguinte, propriamente o primeiro dia de caça, partimos antes do clarear do dia. Como havia visto aquelas fêmeas, fui todo entusiasmado para o “Blind”, estava muito frio, 6 graus negativos! Cheguei ao local ainda estava escuro, instalei-me na cadeira, municiei o CZ 550 cal.3006 , apoiei-o na barraca próximo do meu corpo para fácil alcance.

Tudo se repete na visão de dentro para fora, permanecemos olhando atentamente para a seca plantação de soja e às árvores ao redor. A mente sempre cria um sombreado aparentando um bicho. Ficamos atento para ver se algo mexia e nada! Que desilusão!

As horas passam e temos que voltar para o lodge, para preparar algo para comer e, após tirar uma soneca e voltar ao trabalho.

Por volta das duas horas da tarde,retornamos ao “blind”, permanecemos até o escurecer, e o dia terminou sem nenhuma novidade. A única coisa a relatar durante o tempo que ficamos na espera, é que ouvimos muitos tiros ao redor. Poucas vezes de rifle, mas muitas vezes de armas parecendo carabinas 44 mag ou pistolas. Bem diferente daqui que não se ouve mais tiros, consequência do desarmamento do país.

No segundo dia à noite fomos jantar numa taverna na cidade próxima de Vallonia. Durante o trajeto que foi percorrido à noite, vimos muitos veados pelas plantações que margeavam a estrada.

Assim que entramos na taverna”, lembramos muito dos “sallons” do velho oeste, há muita semelhança: o grande balcão onde o pessoal toma seus drinks e as mesas, que aliás estavam ocupadas por muitos caçadores. O proprietário muito simpático nos atendeu com presteza e saboreamos um prato servido com coxinhas de asas de frango, patas de rã e camarão todos empanados. Os dois irmãos que estavam conosco no “lodge” nos acompanharam.

No quarto dia pela manhã o tempo amanheceu chuvoso, eu até poderia ir caçar, mas o Rodrigo que estava em “treestand” não quis saber de ir, como fomos noticiados que haveria um “Gunshop” na cidade vizinha de Seymor, rumamos pra lá. Assim que chegamos ao local verificamos que a feira de armas estava num galpão alugado das Forças Armadas. Pagamos ingresso na porta de 6 dólares à uma senhora já idosa, muito simpática, e entramos na feira. Ali havia muita armas expostas, facas, uma infinidade de canivetes e outros objetos tudo relacionado ao tiro e a caça. Uma curiosidade para mim foi quando encontrei um expositor com um cano de fuzil com um tubo na ponta todo fechado. Perguntei a ele e me respondeu que era um objeto de limpeza de cano. Eu como não entendo muito bem quando o americano fala rápido, fiquei meio nas nuvens. Para mim aquilo deveria ser um silenciador de arma. Assim que o Rodrigo chegou ele viu aquilo e também perguntou, o expositor respondeu a mesma coisa, só que disse que o comprador leva aquilo e depois se quiser fura e faz o que bem desejar. Ele disse não estar vendendo nada ilegal. Além disso esse senhor também tinha umas coisas interessantes como: munição traçante e pacotes dum produto para colocar no alvo e quando a bala impacta com o produto gera uma explosão fantástica. Após ter repassado diversas vezes os balcões de exposição e ter visto como o americano goza de muita facilidade para comprar, vender e trocar suas armas, deixamos o local.

Assim que retornamos ao” lodge “, nos preparamos e voltamos mais uma vez para o Blind. A mesmice se repete: a ida pelas laterais da plantação de soja até o local da espera, a acomodação na cadeira e a constante observação nos quatro eixos de visão. Ali ficávamos por horas, vez por outra comia um chocolatinho, uma mexerica, ou uma barra de cereal. Como sempre ouvíamos tiros pelos quatro cantos, mas sempre ao longe. Durante toda a claridade do dia nada de veados, a única esperança seria o curtíssimo espaço de tempo no início do escurecer.

Estava eu ali a pensar que o Rodrigo e outros dois não viram nenhum macho de veado todos estes dias sofridos pendurados no “treestand”, passando um frio danado! Eu pelo menos estava abrigado e num local considerado bom pelo Martin, tanto que não quis mudar o “blind” de local. Pensava eu se mudo e não acho nada e vem outro aqui e vê, estou lascado!

A tarde úmida ia se findando , o morro que ficava à 130 metros, bem em frente ao meu” blind”, já ia perdendo seus tons coloridos causado pelo escurecer do dia, quando vejo duas fêmeas cruzando o campo de soja correndo da esquerda pra direita. Uma cena muito bela todas com o rabo branco erguido, parecendo bandeira da paz. Não deu tempo pra nada e mais uma cruza também o campo. Fiquei atentíssimo ao desenrolar dos fatos, achava que iria aparecer um macho. Surge então um outro veado que ficou parado a uns 60 metros, tomei o binóculos, não conseguia vê-lo, a penumbra tomava conta e embaçava a visão. Notava que se tratava de um pequeno veado. Tomei a arma e procurei nas lentes da luneta, parecia ter 4 pontas nos chifres, a imagem do bicho era muito tênue, ofuscada. Pensei com meus botões, estou aqui há 4 dias, amanhã talvez se repita o mesmo sem ver nada. Vou meter bala- disparei, o bicho correu pra direita e voltou pro mesmo lugar, dei outro e mais outro e saiu devagar. A escuridão tomou conta, virou noite.

No dia seguinte pela manhã fui com o Martin à procura do animal, mas infelizmente não achamos, vimos somente uns pinguinhos de sangue que segundo Martin foi um tiro de raspão, e o animal iria se recuperar.

Certamente a caçada não foi boa, pois não conseguimos nosso intento o “Buck”, mas, considerando que é uma caçada de animais selvagens onde predomina a incerteza, sentimos prazer da mesma forma, pois participamos de uma caçada autêntica com muito aprendizado sobre os costumes americanos.

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