Caçada no Uruguai 2014


 Caçar, antes de tudo é estar com a natureza e apreciá-la, observar as aves que percorrem os céus, apreciar seus cânticos , seus  ninhos ,como os Gorriones que fazem ninhos com gravetos nas árvores ou ou Hornero (João de Barro) que no Uruguai é muito comum fazer o ninho nos morões de cerca ou nos postes de luz, ver  os animais  pelo campo, como o Zorro.

 A caçada de campo engloba,  aquilo que muitos ecologistas nem de longe sonham: sentir o frio matutino do inverno,  seu vento que muitas vezes corta gelado  como uma  navalha , percorrer  campos úmidos enterrando os pés na lama, ficar exausto de cansado atravessando córregos , vegetação alta e, após sentir-se como atropelado por um caminhão, com todas as juntas doloridas, ficar empanturrado de prazer que só mesmo o verdadeiro esportista pode sentir.

Soma-se a tudo isso a saudável   amizade que curtimos durante os dias de caça, trocando muitas experiências e chateações inequecíveis.

Mas, como recordar é viver, vamos à recordação.

 No ano de 2013 não pude ir para o Uruguai tendo em vista uma fratura da perna, então foi adiada para 2014. Conversando com meu amigo Rodrigo Meirelles, ele me propôs fazermos a caçada juntos, na companhia do  Jim e Bill americanos amigos. Nesse meio tempo apareceu na minha firma o José Conti que também despertou interesse na viagem.  No dia 5 de julho empreendemos viagem.

 Assim que chegamos no aeroporto de Carrasco encontramos com nossos amigos que vieram dos EUA,Bill e Jim e Rodrigo , Pedro e  o João Paulo , dono do  Outfitter  Solar del caçador. Após assinarmos o documento ,que previamente o João obteve no Exército Uruguaio ,que nos permite a posse da arma durante a caçada, nos conduziu pelos 200 kms que separa o aeroporto a sua pousada. O dia cinza claro, o chão molhado de chuva que havia caído horas antes, prometia frio na manhã seguinte.

Após 3 horas de viagem, chegamos a pousada, lá nos nos aguardava um bom antepasto e um  vinho

tinto ideal para acompanhar um churrasco  de tenra carne nobre do Hereford que ardia ao fogo. Tivemos uma boa refeição e após descanso  despertamos noutro dia por volta das sete horas. Estava  frio,  o vento  movia ao longe as folhagens dos eucaliptos, mas ainda não sabíamos o que nos esperava. Após o café chegaram os mochileiros (como são chamados os nossos acompanhantes que nos conduzem pelo campo, direcionando os lugares onde se caminha e comandando o cachorro). Interessante que todos os cães obedecem aos mochileiros, mesmo que troquem de cães.

Após acomodarem os cães nos carros , distribuição da munição , designação dos cães e mochileiros para cada um, partimos em direção ao campo a 20km da pousada. Nesse dia , por falta de mochileiro teríamos que caçar em dupla. Assim saí com o José Conti  o mochileiro Roman e o cão Lury, um pointer branco e laranja. O Uruguai é tido pelos corredores de bicicleta como capital do vento, aquele dia ele era tão forte que quase arrastava a gente ,o vento combinado com o frio, tínhamos a sensação em andar dentro de uma câmara fria. Como o Uruguai é plano e sua terra argilosa mantém por mais tempo o solo molhado depois das chuvas, assim amassamos muito barro e por vezes até a botina encharcada de água saía do pé.

 Uma das codornas atiradas marcou aquela manhã, ela saiu no ponto e um só tiro ecoou pelo campo, imediatamente o Zé Conti  explodiu de alegria que até me abraçou, pois  a codorna caiu. Assim que abri minha arma ele perguntou:–Mas você também atirou? Eu acenei que sim. Então pairou a dúvida, pois nós dois pensamos o mesmo, que só um tinha atirado.

Infelizmente a arma que aluguei na Pousada não caia bem para mim, e a cada tiro sofria um choque no osso zigomático do rosto , assim  tive até um inchaço. Com isso a gente já vai ficando com receio do tiro. Porém o bom João Paulo conseguiu outra arma que me dei melhor, uma cal.12 italiana. Ela também batia um pouco no rosto , mas suportável.


Lembrando aqui que o problema não é a arma e sim o tipo físico de cada pessoa que exige que a coronha da  arma seja dimensionada exatamente. Por isso  dizem que o que acerta o tiro no voo não é a mira e sim a coronha. Então, todo caçador de voo prefere  atirar com sua própria arma.

No terceiro dia de caçada fomos além da cidade de  Durazno que dista a mais de 40 km da pousada. Por lá caçamos de manhã e como ficava longe para voltar almoçar na pousada , o Rodrigo teve ideia de almoçarmos em um restaurante, assim fomos a uma parrilhada. Fiquei feliz em ver  a alegria dos mochileiros almoçando num restaurante, coisa que eles não tem condições de fazer. Comemos uma boa carne assada como também tripas assadas acompanhada de um bom vinho Don Pascual. Após a refeição retornamos ao campo e voltamos a lida.

Um dia pela manhã o Bill, o Jim e o Rodrigo foram às pombas e nós fomos às codornas . Nesse dia fiquei muito contente pois pude levantar três perdigões , não atirei em nenhum, já que o abate de perdigões (martinetas) como eles chamam está proibido. Mas o fato de saber que eles existem  já é uma  grande alegria.

Uma tarde em que caçamos juntos , José Conti  atirou  numa codorna primeiro e ela começou a subir e  para que não fugisse confirmei o tiro e caiu. Assim  expliquei para o José que quando acontece isso é porque a ave recebeu um chumbo na cabeça  e fez ela desorientar e subir.

Outro fato curioso aconteceu com o Bill, ele estava caçando, como sempre com o Mochileiro Rafael, e fez um “double” atirou uma e  caiu,  a seguir outra que também caiu, quando foram procurar a segunda , tinha sumido , tinha entrado dentro de um buraco de tatu, parecendo as codornas tidas como buraqueiras encontradas na região de Minas no Brasil. Mas , com a esperteza do Rafael meteu a mão dentro do buraco e arrancou a codorna.

Uma manhã caçando com a Morocha (fêmea pointer), esta entra num capim alto e logo saiu esfregando o nariz e rolando pelo chão e senti o cheiro característico do Zorrilho, animal que se defende urinando em seu predador, deixando no ar um forte cheiro característico. Por algum tempo ela não caçou , ficava só a esfregar o nariz na grama.  Mais tarde saiu uma lebre a toda perto de mim e um tiro fez ela rolar. A Morocha de pronto  pegou-a e deixou-a impregnada com cheiro de zorrilho, que depois até dentro do carro sentíamos o cheiro.

Alguns caçadores não se importam muito com o trabalho dos cães, mas eu, que sempre tive meus próprios cães, fico  fascinado em apreciar eles amarrarem, assim sendo tive o prazer de ver  um show de amarrações com o Tejo, Morena, Uma, Luna,e Morocha  que nos proporcionou momentos inesquecíveis.

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