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Caçadores de veados


A cidade de Tietê teve o privilégio de nascer às margens desse tão importante rio que tem o mesmo nome e que atravessa todo o Estado de S.Paulo.

   O rio embora poluído encanta a cidade.

   Muitas vezes vou até suas barrancas, e, da mesma forma que suas águas mansas umedecem as margens tornando-as fecundas, meu olhar  contemplativo faz brotar em minha mente imaginativa muito daquilo que se passou em suas águas.

  Anos atrás quando ainda a extração de areia e pedregulho do rio era feita manualmente, os extratores sempre encontravam cachimbos de barro e pontas se flechas pertencentes aos índios. Os índios nesta região tinham habilidade impressionante de executar as pontas de flechas esculpidas em pedra. O trabalho era de uma perfeição incomparável e os múltiplos gumes cortantes igualavam em termos de ferimento à caça as mais modernas pontas de fechas fabricadas atualmente. Cada uma dessas inúmeras pontas de flechas encontradas certamente  teria uma estória diferente de caçada.

    Séculos  após os índios, num passado recente  sob a brisa fresca provinda  do rio,  caçadores contavam suas estórias nas esquinas da rua do Comércio, esta que dista cem metros e corre paralela ao ex piscoso Tietê.

    Nessa rua habitavam dois caçadores conhecidos meus, um apelidado de Pelego e outro ainda vivo Furian.  Outro caçador, já falecido,  morava numa rua que terminava na do Comércio e era conhecido por Minguito. Este último além de seu trabalho cotidiano, dedicava também ao conserto ligeiro de algumas armas sem muito valor.

  O interessante desses caçadores é que eram muito reservados, qualquer pessoa que fosse participar da conversa, não tiraria nada com respeito à caça de veados. Eles juravam que não caçavam veados, mas tão somente cachorros do mato.

   Nós  sabíamos pelas entrelinhas que almejavam mesmo eram os veados, mas se corresse algum cachorro do mato, após ser apanhado mostravam o troféu para os proprietários das terras os quais agradeciam pelo fato de ter menos um predador para seus animais domésticos.

   Assim, nos finais de semana percorriam capoeiras e  margens do Tietê com livre acesso dos donos.

   Numa manhã de domingo de céu azul sem mácula com  tempo frio e seco, chegam os caçadores de “cachorros do mato”. Passam pela casa do proprietário Sacon, avisam que vão entrar no sítio para a empreitada.

   A cachorrada   irriquieta ,suando pela língua  no porta malas da caravan louca prá saltar e seguir pista de qualquer peludo, seja veado, cachorro do mato ou mesmo capivara.

  Três cães, dois vira latas e um americano são deixados num capão de mato, vizinho de terra de plantio onde sempre os possuidores de casco deixam suas impressões quando perambulam a noite pela terra limpa à procura de tenras gramíneas.

    O proprietário dos cães ficou perto no local da soltura para acompanhar a matilha e os dois outros foram para as batidas de costume.

    Não tardou, e chega a cavalo, o proprietário das terras alegando que deseja participar da corrida para ver o tombo do cachorro do mato.  O “Pelego”, dono dos cães ficou preocupado, pois se sair um catingueiro e meus companheiros atirarem como ficará a nossa situação… Até parecia estar escrito no ar.

    Não demorou muito os rabugentos cães passaram a ladrar e uivar, sinal de levante da caça.  Pouco tempo se passou um veadinho catingueiro desprende da perseguição dos sabujos e passa por ” Pelego” a ponto de tiro.

   “Pelego” nem ao menos fez mira, o maior desejo naquele momento era que o veado desviasse da rota costumeira para o rio e fosse para outro lado.  Mas que nada, ele foi direto ao encontro de outro caçador que estava na cilada.

   Não tardou muito e  o tiro rebomba nas barrocas do rio.

—Ah! Meu Deus, será que foi o veado. Espero que tenha errado!

 Pensou” Pelego”

   O sitiante à cavalo  chega primeiro no local do tiro. Não houve tempo para avisar o amigo esconder a caça. Logo depois chega “Pelego” dando dura em seu companheiro, para salvar suas imagens de “caçadores de cachorros do mato”. Felizmente com uma boa conversa e deixando a caça para o proprietário a contenda não progrediu muito.

  Como diziam os antigos: enfiaram a viola no saco e saíram com o rabo entre as pernas!

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