©2019 by RECARGAMATIC.

Caçando emoções

Caçando Emoções

Lá estava a manada de elefantes. O cliente, com os olhos arregalados, parecia não acreditar no que via. Tanto troféu, só em sonho. Escolheu o seu; demorou-se na mira; procurou lembrar-se de todas as instruções dos caçadores que o acompanhavam. A cabeça do enorme macho iria enfeitar a sala imensa do palacete nova-iorquino. O vento, porém, não favorecia. O olfato sensível dos animais denunciou a proximidade de estranhos. A manada começou a deslocar-se em direção aos homens. Rui Quadros e Wally Johnson, caçadores profissionais, incitaram o cliente, falando com firmeza, bem perto dos seus ouvidos: “Vamos atire! Não temos muito tempo!” Mas o cliente estava perplexo.Olhar fixo nos elefantes que avançavam ameaçadores e a arma apontada para eles, permanecia, no entanto, sem ação. Rui e Wally o in centivaram aos gritos: “Atire! Atire”, sem resultado.Então os dois caçadores pularam para a frente e acionaram suas experimentadas 458. Os estampidos entrecortaram o tropel da manada .Um, dois, três animais vinham à frente, tombaram quase em cima deles. Os outros se dispensaram. O cliente, abobalhado não se dava conta de que estivera a um passo da morte, arrastando consigo dois profissionais acostumados a arriscar a vida como guias de safáris africanos.

                                          ———————

Agradecemos a Cristina Iervolino, filha do Lourival Iervolino, caçador do fime Mukongo, por ter nos enviado essa matéria interessante  publicada na revista O Cruzeiro em 28 de abril de 1970.

A matéria mata a curiosidade de muita gente que se interessa em saber como eram feitos os verdadeiros grandes safáris. O Rui Quadros, grande caçador profissional e atirador que serviu como guia de caça ao casal Iervolino faleceu em 31/05/2010, e foi ele quem deu a entrevista para O Cruzeiro, quem quiser saber mais sobre o Rui, acesse:  http://www.oocities.org/vila_luisa/Album11.htm A década de 70 marcou o fim dos grandes e cobiçados safáris na África, houve a revolução onde Moçambique, Angola e outros países se libertaram. As companhias de safáris foram escorraçados, a população e os guerrilheiros acabaram com os animais. Só há alguns anos atrás Moçambique voltou a aproveitar o potencial da caça, mas nada que se compare aos grandes safáris de outrora. 

                                          ———————

Por cinco mil dólares (em 1970),  o cliente tem direito a três semanas de caçadas e vinte animais de várias espécies.

No Rio de Janeiro, Rui Quadros mais parece um universitário em férias. Jovem, alto, forte, pele bronzeada, qualquer um poderia imaginá-lo sobre uma tábua de surf, deixando na onda de Ipanema.

É, porém, a coragem em repouso. Parecendo bem mais moço tem 32 anos–, há muito vem arriscando a vida, para satisfazer àqueles que podem pagar por emoções fortes.

–Há quanto tempo. Rui?

–Caçando? Desde os seis anos creio. Acompanhava meu pai,também caçador.


Natural de Moçambique, África Portuguesa, desde cedo se acostumou a viver entre feras. Afonso Quadros,seu país,ensinou-lhe todos os segredos da profissão. São nove irmãos,seis mulheres e três homens, mas apenas Rui tornou-se caçador, embora todos saibam manejar uma arma de fogo. Há oito anos vem guiando Safáris, como profissional. Começou quando criou, em Moçambique, a Safarilândia. Uma organização particular que teve, entre seus primeiros sócios, um dos maiores caçadores mundiais, o brasileiro Jorge Alves de Lima.

Caça-se, naquela região, de um de abril a 15 de novembro. É quando se organizam inúmeros safáris (grupos destinados à caça), cada um deles guiado, normalmente, por um dos caçadores profissionais daquela organização. Hoje a Safarilândia possui oito caçadores , seis portugueses e dois rodesianos. Só no ano passado, eles fizeram 90 safáris. Destes, dez foram guiados por Rui Quadros. Dos quais, três de clientes brasileiros (André de Botton, Marcelo e Betty Aguinaga—esta, uma das melhores atiradoras que já caçaram na África—e Lourival Iervolino). A maioria dos clientes —o dólar falando mais alto—é constituída por norte-americanos.

—Num Safári participam, em geral—vai explicando Rui Quadros—, o homem que vai caçar que está à procura de troféus e de novas sensações, um acompanhante—quase sempre sua esposa—, o caçador profissional e dois guias nativos. Estes últimos recrutados entre os da tribo Shangane, os melhores pisteiros do Sul de Moçambique.

Os pisteiros,conhecendo a região palmo a palmo,procuram localizar a presa,para que o cliente a abata. Todos eles tendo ao lado, vigilante, pronto para qualquer emergência, o caçador profissional. A Área da Safarilândia—900quilometros ao norte de Lourenço Marques e 300 ao sul da Beira—é uma das de maior abundância de caça, em todo o mundo.Ali há de tudo, e alguns que a lei proíbe de abater, como a girafa, o cheetah (espécie de leopardo) e oroan(da família dos antílopes).Paraíso dos caçadores,é fácil dar de cara com leões,elefantes,leopardos,búfalos.Necessário se torna,porém, além da cara ter coragem…

—O que se pode caçar, Rui, num desses Safáris?

—A licença geral, para cada safári, engloba 20 diferentes animais explica Rui Quadros—sendo necessário comprar “senhas” para outros que não estejam incluídos nela, tais como elefante, leão, leopardo e algumas espécies de antílopes(kudu,sable,eland,Inhala—este quase só existente em Moçambique)Os vinte da licença geral são, se não me engano,um búfalo,dois impalas,dois javalis,dois porcos –vermelhos,dois gnus,um crocodilo,um inhacoso,um chango,cinco antílopes pequenos,um gongonga,um babala e um hipopótamo.É troféu que não acaba mais.Geralmente, porém, o caçador compra algumas “senhas”,pois não deseja ficar de fora na caça ao leão,ao elefante ou ao leopardo, das mais emocionantes. Além disso, qual é aquele que não quer ter um desses troféus em casa, e poder contar repetidamente, aos amigos e parentes como conseguiu?

Um safári, normalmente, demora três semanas. Sai da Beira ou de Lourenço Marques e, e táxi aéreo,vai até o acampamento principal da Safarilância, o Zinave( esistem sete fixos) E deste à procura do habitat dos animais,quase sempre por perto. Em algumas ocasiões, porém, é necessário andar muito para encontrar o troféu desejado. O cliente tem direito a levar todos os troféus dos animais abatidos, que podem ser cabeças, peles ou, no caso do elefante, dentes e patas. Estes são preparados lá mesmo por Francisco Pardal, um dos melhores especialistas do mundo, e enviados em domicilio.

Quando não é época de caça, alguns guias profissionais, como Rui Quadros, saem pelo mundo à procura de antigos e novos clientes. E com eles marcam a data das caçadas. Para que se tenha uma ideia do número de aficionados, é bastante que se diga que Rui Quadros só tem duas vagas para este ano, nenhuma para 1971 e já está reservando datas para 1972.

—Quanto custa um safári?

—Uma vez no acampamento, uns cinco mil dólares. Os clientes, porém, tem todo o conforto possível—dentro de uma selva, é lógico. Viajam de jipe, dormem em boas “rondáveis” (casas circulares) ou tendas, comem bem. Não estarão, naturalmente, em Nova Iorque, Londres ou Rio de Janeiro. Mas conseguirão o que desejam que sejam troféus e emoções. Por estes e estas eu garanto.


Existem, também, os safáris fotográficos. São mais baratos.Duram,em geral 14 dias.E o cliente,no Parque Nacional de Gorongoza (onde nosso colega Indalécio Wanderley fez ótima reportagem) dos melhores da África,para fotografar ou filmar calmamente leões,elefantes,antílopes,etc.Ás vezes, graças ao guia, que sabe conduzi-los sem perigo, quase podem tocá-los.O que não tem desejo de fazer,como é óbvio.

—Não há perigo, Rui?

—Perigo há, naturalmente. Mas este existe em toda a parte, até mesmo no asfalto do Rio de Janeiro. De um modo geral, porém, o animal não ataca pelo simples prazer de atacar.Eles,quando sentem a aproximação de estranhos,procuram ir embora.Muitos, tidos como perigosos,chegam até a fugir. Alguns, porém, podem constituir problema, como o elefante ou uma leoa com cria. Quando o animal está ferido, a coisa é bem diferente. Aí, sim,ele vira fera.

—Nessa situação, qual o mais perigoso?

—Para mim quando ferido é o leão. As opiniões, porém, variam de caçador para caçador. Em segundo lugar, colocaria o elefante. o búfalo também é muito respeitado, na África. Ferido ,ele já matou muitos caçadores. É uma das paradas mais duras de enfrentar. Por isso, não temos o direito de errar o primeiro tiro. Raramente teremos oportunidade de um segundo, quando o animal arranca de poucos metros de distância…


—Na caça ao elefante, por exemplo, existem diversos fatores adversos. Um deles, o mato fechado e baixo da região,cheio de espinhos, que quase não dá chance de fuga, em caso de extremo perigo.Outro, é o vento . O elefante muda de direção constantemente,o que nos faz mudar também, para que o vento não leve o nosso “cheiro” até ele.às vezes temos que matá-lo a menos de 20 metros. Se errarmos ,ou apenas feri-lo, e ele carregar , a distância é muito pequena ,quase não dá para acionar novamente o gatilho. Nós profissionais, já abatemos alguns a poucos passos, o bicho desabando a nossos pés. E não me envergonho de dizer que algumas vezes, temos é que correr, para salvar a pele. E correr muito,pois naquela região quase não existem árvores onde subir. Há pouco tempo,dois dos meus colegas foram feridos, um por um búfalo, outro por um leão. Miguel Guerra, português, veterano, com muitoa experiência em caçadas de búfalos, quase que foi desta para melhor. Acontece que o cliente atirou no animal e não o matou. Quando este carregou, ele, amedrontado, largou a arma e fugiu, correndo para o jipe, Miguel, sabendo o búfalo ferido e perigoso, esperou que ele abaixasse bem a cabeça,para atingi-lo mortalmente, quando carregava. Deu um último tiro, no último instante, mas o animal ainda pode alcançá-lo. Foi internado, gravemente ferido. O redesiano Ken Fubbs atirou três vezes num leão que carregava para cima dele. O animal de uma assombrosa resistência, embora bem baleado, não parou. Num salto derrubou Ken, morrendo com os dentes enterrados no seu ombro. Foi necessário usar ferros para abrir sua boca. Todo ano morre ou fica ferido, na África, algum caçador, vítima de leão, leopardo, búfalo ou elefante. Este porém, é o nosso oficio…

O último safári que Rui Quadros dirigiu foi com o brasileiro Lourival Iervolino, de S. Paulo, que levou, em sua companhia, a esposa e um cinegrafista, Estanislau Szankovisky. Este filmou toda a caçada, montando com ela o filme (Mukongo), que em breve estreará no Brasil. A mulher de Lourival, entusiasmada, acabou também tirando licença para caçar, ela que nunca o fizera antes. E terminou abatendo diversos animais, entre eles um búfalo, um elefante e grande número de antílopes.É Rui Quadros quem conta:

—Nesse safári tivemos vários momentos emocionantes, como uma carga de búfalos, que abatemos a uns três ou quatro metro de nós. O cinegrafista, firme, captou toda a carga, desde o início da investida do primeiro búfalo ferido. Há, também, uma ótima cena da esposa do Loutival e um elefante. O Estanislau filmou o primeiro tiro, e a queda do paquiderme, e o segundo tiro, quando se vê perfeitamente o “pó” saindo da cabeça do animal e este tombando definitivamente. Vê-se, por outro lado. Dna. Ivone quase caindo para o lado oposto, tal o coice da arma 458 no seu ombro. Eu assisti ao fime e acho que, depois de totalmente montado, vai ficar excelente. O casal Iervolino já marcou um novo safári par a1972. Caçaremos juntos outra vez…

—Existem caçadores ilegais em Moçambique, Rui?

—Hoje, ainda existem alguns, mas são poucos, porque os Serviços de Veterinária os vigia de perto. A caça ilegal há de continuar sempre, embora de forma bem reduzida. Com o início dos safáris, em Moçambique, os caçadores-guias adquiriram uma nova mentalidade. Atualmente eu e meus colegas preferimos que o cliente abata um bom troféu a sermos nós os atiradores, Eu, por exemplo, tenho enorme satisfação em ver o cliente radiante por ter abatido uma boa peça, Nós guias,tentamos sempre abater, com o cliente, os machos mais velhos,poupando os novos e nunca atiramos em fêmeas com crias. Na Safarilândia, porém, sou de opinião que deveriam ser abatidos muito mais animais de  determinadas espécies, incluindo os machos e fêmeas com crias. Explico-me melhor. O aumento dessas espécies é enorme e isto, por certo, virá a criar sérios problemas no futuro, às outras espécies menos abundantes, em matéria de água e pastos. Quando há seca, não há água nem capim que chegue para para tão elevado número de animais morrendo centenas deles. Há três anos viajo constantemente aos Estados Unidos, onde vivo em contato com organizadores de safáris fiscais de caça etc. Lá o abate de animais é feito de tal forma, sob controle do governo de cada Estado, que chega a impressionar. Há estados onde permitem o abate de mais de cem mil veados ou outros animais e a caça tende sempre a aumentar. No caso inverso , quando notam que uma espécie está em extinção, fecham a região por um ano ou mais, até que exista em número suficiente para ser novamente caçada. Quando há abundância de fêmeas , autorizam o abate das mesmas. O grande problema do sul de Moçambique , entretanto, é o uso de “laços de aço”,empregados pelos nativos. Eles preparam essas “armadilhas”, aos milhares, matando cerca de 10 mil animais anualmente, nestes, estando incluídos machos novos, fêmeas com crias e até alguns como o leão e o leopardo, cuja carne não aproveitam. Todos os anos nós descobrimos e desarmamos , na Safarilândia, uma média de 10 a 15 mil desses laços.é triste andar pelo mato e encontrar dezenas de animais mortos, presos às ilegais armadilhas, pastos dos abutres. Isto já foi filmado e fotografado por muitos clientes, e o assunto vem sendo debatido em todo o mundo. Agora mesmo vai haver no Reno,Nevada, EUA, uma convenção com cerca de 900 membros –eu entre eles—da Associação Internacional de Proteção à Fauna, e um dos principais temas de debate será justamente o do “laço de aço”. Caso não se tomem enérgicas providências, a caça será pràticamente extinta em Moçambique, onde ela é fator de turismo e fonte de divisas.

—E as armas,Rui?

—Geralmente o cliente leva suas próprias armas. Em caso contrário, a Safarilândia as aluga. Para caça de antílopes , uma arma calibre 300 é suficiente. Para caça grossa, nós somos obrigados a usar calibre pesado como o .458.

—E o clima da região?

Mais ou menos igual a este daqui co Rio de Janeiro.

—Tem mar perto?

—Tem, e com lindas praias. Só que elas não possuem o que existe em Ipanema, Castelinho, ou Arpoador…


0 visualização