©2019 by RECARGAMATIC.

Capincho


O Dicionário dos animais do Brasil de Rodolpho Von Ihering diz que a capivara é o maior de todos os roedores. Atinge um metro de comprimento; Sua cor é uniforme, parda, nem muito avermelhada nem muito amarelada. não tem rabo;as orelhas são pequenas. Vive sempre à beira d’água, que é seu refúgio, quando perseguida; nada e mergulha bem. Forma sempre varas, que não raro contam até 20 indivíduos. Alimentam-se como perfeito herbívoro e naturalmente dá preferência ao arroz ,ao milho ,a cana de açúcar,pelo que nas regiões ribeirinhas causa ,às vezes,muito dano. Passa o dia escondida, perto d’água e só à noitinha vem a pastar. Assim só a espingarda pode valer ao lavrador. A carne não agrada a todos os paladares, mas o óleo é considerado medicamento. O couro pode ser aplicado em certos fins como laços. Alguns caçadores distinguem uma espécie branca ,”capivaratinga” (tinga) tupi que significa branco, mas trata-se de um animal velho. Ela é também chamada de Capincho na região sul do país.

A capivara sempre foi muito caçada no Brasil, agora não tanto por conta da proibição geral e irrestrita da caça.

Quando a conversa se dá com um caçador de capivara, seu orgulho é dizer que a carne preparada da sua maneira ninguém diz que é de capivara. A capivara tem mesmo um cheiro e gosto de capim, que conforme a região é mais ou menos acentuada, e se não for bem preparada é difícil de engolir.

Já ouvi nada menos que uma dezena de receitas de como preparar a carne de capivara. Para que fique com sabor agradável. A receita mais antiga é deixar a carne em água corrente por até uma noite inteira antes de preparar, outra é cozinhá-la com folhas de mandioca. Uma que ouvi recente é congelar a carne e descongelar banhando com sal e água, usando bastante água. Alguns dizem que se fizer a carne em bifes e fritar, fica deliciosa e sem aquele gosto sui generis. Outros dizem que a linguiça é muito boa. Francamente, já comi a linguiça feita com adição de bastante toucinho de porco, mas não me agradou.

A maneira que vi preparar e que deu certo foi colocar a carne totalmente desossada e desengordurada dentro de uma panela com muito tempero variado, como: salsinha, cebolinha, cebola e outros condimentos. Deixar cozinhar em fogo brando sem colocação de água. O intuito é extrair o máximo a umidade da carne, pois parece que é na água que está o gosto forte. Após a carne estar cozida é só fritar com pouco óleo e fazer um acebolado para acompanhar, fica muito boa e sem cheiro.

O bolinho de capivara (porpeta), também me agradou, mas a carne é misturada com generosa porção de carne de porco.

Já tive a oportunidade de comer o capincho do sul do país preparado por churrasqueiros gaúchos, eles espetam a carne intercalada com toucinho de porco. Não posso afirmar se a capivara do sul tem menos cheiro que a da região sudeste, ou se é a combinação acertada com o toucinho no espeto, mas posso afirmar que ficou muito bom.

Na verdade, o prazer do caçador de capivara se desdobra em dois: no ato cinegético e no desafio de preparar a carne, para que ninguém perceba o sabor forte.

As caçadas

Nossa cidade é servida por três rios que banham o município, a caça à capivara sempre foi praticada com frequência nas margens desses rios.

Num desses rios onde existiam alguns ranchos de pescadores amadores, onde o acesso era difícil, pois, para chegar à barranca do rio tinha que baixar por um declive muito acentuado e não era para qualquer veículo a subia de volta. Carros com tração dianteira penavam, e quando chovia, tudo piorava. Aquele tempo não era como agora que existem muitos veículos traçados.

Antigamente nesse local costumávamos ir à pesca de bagres durante a noite, pois era a hora que desentocavam e iam à busca das iscas de fígado de boi.

O sistema de caçada de capivaras a noite nos rios da região era aquela velha maneira que os colonizadores portugueses usavam praticar na África: a caça com farolim.

O velho barco de cedro, o qual era usado para as aventuras, muitas vezes era encontrado cheio de água, era necessária laboriosa mão de obra para esvaziá-lo. O barco era tomado emprestado de um dos ranchos do local.

O ideal para fazer a caçada eram três pessoas, um ia à proa com o farol movido a bateria, outro ia à popa do barco, como piloto, e o atirador ia ao centro, levando de preferência uma cal.12 de dois canos carregada com chumbo 3T.

A descida pelo rio em noite estrelada de inverno , ao sabor da leve correnteza teria que ser leve como uma pena flutuando no ar. O piloteiro se cuidava ao máximo para não bater o remo no barco, até mesmo quando fincava- o na água tinha que ser suavemente.

Além da visão aguçada, os ouvidos ajudavam os três intrépidos caçadores à perscrutação dos bichos nas margens do rio. Vez por outra notavam a barranca lisa onde os bichos haviam descansado.

Quando um vulto escuro era notado, a atenção dos três era redobrada, nenhum “pio” poderia ser dado, o barco teria que rodar como se fosse uma tranqueira vagando na água. A função do faroleiro era manter o bicho preso no ofuscamento do facho de luz. Já o piloteiro com sua destreza dirigia a embarcação na posição ideal do tiro. O atirador completava o evento, disparando ,um em seguida do outro, os dois canos da cal.12 na paleta do animal. A torcida era para que ela não pulasse na água, como instintivamente costuma fazer. Se pulasse o trabalho seria dobrado e a busca teria que ser iniciada após 20 minutos, tempo esse para que o bicho flutuasse na água.

Porém, a pior parte ainda estava por vir: a limpeza do bicho a noite, na barranca do rio sob um mar de pernilongos e uma récula de mosquitinhos. Bem que alguns diziam que a caçada de capivara era boa até que não matasse!

2 visualizações