Como descobri o matão


Continuação de “como descobri o matão” História passada por Wanderley

A cabana provisória

Nem mesmo a terrível congestão que me assolou fez com que eu desistisse de estar já no próximo final de semana dentro do mato novamente.

Meus planos era construir uma cabana ampla e confortável, porém para isso deveria preparar um canteiro de obras, i.é, edificar uma cabaninha bem simples para me abrigar durante a noite.

O local escolhido foi do outro lado do rio, assim fiz um coberto de folhas trançadas de palmito para que eu passasse a noite. Cortei o mato no local pretendido e preparei o chão, foi tudo que consegui fazer naquele dia de sábado. No domingo teria que regressar. Assim que tomei rumo de volta, me perdi completamente na subida dum íngreme morro. Fiquei sem destino, vagando por duas ou três horas. Os espertos em mata dizem que quem se perde tem tendência de ficar dando voltas, e muita vez retorna ao próprio local onde se perdeu. O filme “No limite” mostra bem isto.

Nas andanças pelo local à procura do rumo de saída, deparei com um lugar maravilhoso, meu espanto foi ainda maior quando notei que alguém já tinha estado por aquele local e construído uma pequena cabana. A cabaninha estava abandonada por muito tempo, a vegetação havia engolido-a quase que totalmente. Com muito custo consegui adentrar, verifiquei que tinha paredes feitas de galhos e folhas secas, e que toda madeira estava deteriorada por ação dos cupins, mofo e formigas. A cama era de  tarimba de varas na altura de 50cm do chão, assim que sentei foi tudo para o chão, estava podre. Num dos cantos havia um paletó pendurado que parecia estar coberto de algodão, tanto era o mofo depositado. Assim que toquei, o paletó se desfez igual uma camisinha de lampião queimada quando é tocada.

Ouvi um ruído de água, tomei o machete, e abrindo caminho, fui seguindo a água e aproximadamente a 20 metros deparo com consistente córrego de água corrente cristalina.  Seguindo essa água notei que jogava suas águas num córrego mais volumoso. Perseguindo este outro córrego encontrei um rio largo onde  desembocava. Em uma das margens do córrego distinguia-se uma vegetação totalmente intrincada e de difícil transposição. Pensei comigo, que penetrando naquele local, talvez encontrasse um salão amplo, e possivelmente teria assim um local ideal para instalar minha cabana.

Com muita dificuldade, sem auxílio de facão para não deixar rasto, consegui transpor aquele paredão vegetal. Minha expectativa estava certa, após transpor o paredão dei com um lindo salão. Para completar, também achei uma linda fonte de água que descia penteando uma grande pedra e jazia numa poça formando um tanquinho natural, ideal para lavar panelas e roupas. Aquele foi um grande momento, senti uma embriagues indizível, dei saltos de alegria. Considerei o local ideal, pois era muito difícil de transpor aquele paredão vegetal, outra vantagem que ficava próximo da velha cabana e se alguém descobrisse a velha, com certeza nem desconfiaria que tivesse outra por perto.


Dura experiência.

Durante a semana de trabalho comentei com meus colegas sobre minhas aventuras no matão, uns mostraram incredibilidade, outros simplesmente ignoraram. Dessa forma, não toquei mais no assunto.

Tinha um grande amigo chamado Milton, que residia em Campo Limpo Pta. Ele estudou comigo quando estava no internato, uma ocasião presentei-o com um avental de classe e assim tornamo-nos muito amigos.

Na época o Milton trabalhava como bancário; como teria um feriado na sexta da próxima semana, convidei-o para uma excursão na mata, ele prontamente aceitou.

Na quinta à noite já estávamos a preparar as coisas, e na sexta cedo tomamos o primeiro trem para Paranapiacaba. O dia amanheceu escuro, sem sol e chovia.

A caminhada foi dura, debaixo de chuva esbarrando em vegetação encharcada. Nossas mochilas sem proteção de plástico, que só vim a adotar mais pra frente, ficaram todas molhadas e pesadas, as alças marcavam profundamente nossos ombros. A artéria do pescoço do Milton saltada, mostrava a força que estava fazendo.

Assim que chegamos à velha cabana onde iríamos pernoitar estávamos tomados pela lassidão. 


A mata estava escura e nebulosa, descansamos um pouco descemos para alcançar o rio. Como estava tudo encharcado, assim que descemos a ladeira em direção ao córrego, ambos escorregamos e fomos deslizando morro abaixo até que conseguimos agarrar em árvores e cipós. Deslizamos até perto da margem do rio.

O rio aparentava tenebroso e amedrontador, suas águas barrentas avolumadas corriam rápidas através das grandes pedras. Como nosso intento era atravessar, procuramos transpor com auxílio de troncos de árvores, mas foi impossível a forte correnteza carregava os troncos facilmente.

Procurando um local mais fácil para ultrapassar, achei um que poderia atravessar pulando através das grandes pedras. Foi o que fiz e consegui transpor por várias vezes trazendo ferramentas do primeiro local que havia escolhido para a cabana que tinha deixado.

Como o Milton ficou com medo de atravessar permaneceu sentado esperando na margem, sempre acompanhando eu pular de pedra em pedra.

No retorno da última travessia, aconteceu o que eu temia, escorreguei e fui com mochila e tudo engolido pelas velozes águas. A força da água era impressionante, em poucos segundos fui arrastado fora da visão do Milton. O acidente se deu tão rápido,  mas a mente ainda teve tempo de se ocupar em pensamentos desastrosos, revivi notícias de pessoas que foram sugadas pelas águas na serra do mar e nunca mais reapareceram. Porém meu pensamento era positivo e não me deixei abater, pois tinha certeza que iria agarrar numa pedra ou num galho e iria me safar. Consegui agarrar numa pedra e saí das águas. Já tinha rodado  uns 300 metros do ponto onde escorreguei. Voltei por dentro da mata e encontrei o Milton que me seguia pela mata, ele estava rezando de joelhos, tão molhado como eu. Imaginem o nervo que esse cara passou! Subimos a serra ofegantes, com todas as ferramentas e alcançamos a velha cabana. Estávamos exaustos e totalmente molhados. Procuramos nos livrar um pouco da umidade torcendo as roupas, pois não tínhamos outra muda. Fizemos um lanche quente no fogão à gás e um café e procuramos repousar, que já era noite escura. Tudo estava molhado na cabana,o chão estava alagado. Estávamos somente com uma pequena lanterna, havíamos esquecido as velas para a iluminação, assim sendo teríamos que economizar pilhas.

Aquela noite foi uma das piores que passei no mato. Nossos corpos ansiavam o descanso relaxante, mas… Como não tinha cama, deitamos cada um sobre um tronco roliço, além do total incômodo não podia esticar as pernas. Quando foi por volta da uma hora da manhã, o Milton gritou que estava sendo picado por formigas. Eu desdenhei, achando que não eram formigas, mas logo ele reclamou outra vez e acendeu a lanterna. Qual foi nosso espanto, onde a luz da lanterna alcançava estava tomada de formigas, estávamos em cima de uma correição que parecia um tapete vivo. Logo elas penetraram por toda nossa roupa e tivemos que abandonar o local. Chovia e o céu estava muito escuro que não enxergava nada, e nós só com um simples farolete. Foi então que o Milton ideiou fazer fogo com os paus que trouxemos na mochila, protegidos em sacos plásticos. Assim com dificuldade acendemos o fogo, por milagre as formigas se afastaram e voltamos dormir no mesmo local. No dia seguinte arrumamos decentemente as camas e pudemos descansar bem a noite do sábado. No domingo por volta das 12 horas partimos de volta. O retorno deveria demorar mais que o previsto, pois a trilha estava escorregadia e a chuva ainda castigava. O Milton fazia questão de ir à frente com a espingarda e o cinturão de cartuchos. De repente estacou emudecido, olhei para frente e notei um corpo roliço de um animal atravessado na estrada. Aquilo era uma cobra,  tomei a espingarda do Milton e atirei. Como estava com chumbo fino não feriu muito , ela rapidamente  partiu furiosa com a boca escancarada em nossa direção. Enquanto corríamos da cobra, pedi outro cartucho ao Milton e apressado coloquei na arma e disparei, mas só ouvi uma batida metálica seca do cão e nada de tiro. Por nossa sorte a cobra desistiu de nos perseguir e adentrou ao mato. Fui verificar porque o cartucho falhou e notei que na pressa ele passou um cartucho vazio e eu nem percebi!

continua na próxima postagem

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