Como descobri o matão terceira parte


Terceira parte “Como descobri o matão” aventuras do Wanderley

Invariavelmente minhas visitas à mata eram programadas para o final de semana, assim mais uma sexta chegara e eu já estava com a mochila lotada, lá ia uma espingarda de pressão desmontada, marca El Gamo modelo Statical, cal.4,5mm, provisões de comida, panelas, cobertor, munições, etc. Além disto tudo, amarrei sobre ela um colchão de espuma de solteiro. Era meu costume sempre testar o peso da mochila e o volume que havia adquirido, assim colocava nas costas e me olhava no espelho. Aquilo estava parecendo uma formiga carregando uma enorme folha, tanto era o volume. Pelo tamanho da carga, não haveria possibilidade de tomar um ônibus até a estação, a única opção foi ter ido a pé. Assim que desembarquei do trem, chovia sem trégua na serra. Fiquei imaginando como iria sofrer dali prá frente, pois além da mochila pesada tinha o colchão. Na caminhada até a entrada do mato as pessoas ficavam me olhando curiosas, talvez perguntando: –O que esse doido vai fazer com esse colchão no mato com essa chuva? Realmente estavam certa, logo a proteção de papel ruiu e o colchão impregnou-se de água. Não pude mais carregá-lo, tive que colocar tudo no chão, assim arrastava o colchão certa distância e voltava buscar a mochila. Aquilo era uma insanidade, mas eu estava feliz com a aventura. Com certeza teria que pousar no mato, não chegaria antes do escurecer na cabana, já que o tempo de percurso dobraria. Assim fui percorrendo o trecho da forma que pude e certa hora tive que procurar abrigo. Lembrei-me que nas minhas explorações havia descoberto um forno antigo de carvão que, possivelmente era uns dos que foram usados para produzir carvão na época de 1867 quando a primeira ferrovia do Estado de São Paulo foi fundada por Visconde de Mauá que operou com o nome de “The San Paulo Railway Company Ltd” na vila de Paranapiacaba ,que em tupi guarani significa-Lugar onde se vê o mar. Hoje Paranapiacaba abriga o Museu Tecnológico Ferroviário. Site: http://www.abpfsp.com.br/museu_ferroviario_paranapiacaba  O forno que fora operado pelos escravos de origem africana, não estava distante. Pensava eu  ser um abrigo ideal para  pernoitar, poderia me abrigar  da chuva incessante. Deixei a mochila e o colchão na trilha enquanto caminhava ladeira abaixo munido só do facão, atravessando uma cachoeira e a mata fechada cheia de xaxins espinhosos, recordava como tinha descoberto aquele forno: Um dia ensolarado na mata tropical, extremamente úmida e quente, vinha praticando minhas andanças a descobrir novos lugares. Foi quando percorria um local fechado de mato, com auxílio do facão golpeei uma ramada e ouvi o tilintar da lâmina como tivesse batido num ferro.  Abrindo mais a vegetação intricada, notei que escondia ali uma antiga porta grossa de madeira, podres nas bases, com dois travessões horizontais de ferro chato aparafusados na madeira. No meu parecer aquilo seria um forno de carvão. Assim foi que naquele caminhar recordando, cheguei pela segunda vez ao forno, agora com o propósito de dormir dentro dele, abrigando-me da chuva que caia sem trégua. Tentei com um chute forte arrombar a porta, mas ela rigidamente, não cedeu. Então utilizei de uma pedra de uns 30 quilos com a qual golpei- a, e ela caiu. Assim que derrubei a porta, a mata começava a escurecer, a tarde estava findando. O chão do forno estava alagado com dois palmos de água suja. Ao adentrar ao seu interior, a água chegava quase penetrar pelo cano da minha bota de borracha, o cheiro era nauseabundo, as paredes bolorentas, o teto estava salpicado de bolotas pretas, por estar abaçanado não pude identificar o que seriam. Por instante fiquei a pensar como iria dormir num lugar inóspito, alagado e fétido, mas por outro lado não seria fácil dormir no relento da mata obscura debaixo de chuva. Decidi que deveria mesmo pousar dentro do forno, pois no seu interior estaria protegido do vento fresco da madrugada e da chuva torrencial. Com muito esforço, rolei para dentro do forno duas grandes pedras e arrastei a porta por cima delas, a cama estava pronta. Fui buscar minhas tralhas que estavam a quase quinhentos metros do local, arrastei o colchão e depois busquei a mochila. Nessas alturas a escuridão já tomava conta da mata, estava apenas com uma lanterna de duas pilhas coloquei o colchão, encharcado e sujo, sobre a porta. Assim que sentei sobre o colchão, vertia água suja e espumante. O frio e a umidade me causavam estremecimentos sentia que penetrava até nos ossos. Coloquei a mochila sobre o colchão, retirei as partes da carabina de pressão, pois teria que a montá-la. A El Gamo Statical, considerada uma das melhores que foi fabricada, possuia um sistema de amortecimento de recuo pneumático.


De repente ouvi um ruído estranho e algo passou zumbindo sobre a minha cabeça. Tomei a lanterna e foquei o teto, aquelas bolotas escuras que tinha visto tinham adquirido vidas eram centenas de morcegos dependurados, com a suas horrorosas cabeças voltadas para baixo. Logo começaram a voar. Fiquei desesperado em montar a carabina, pois teria que espantar aquelas horrendas criaturas. Montar sozinho a espingarda não seria tarefa fácil, já que teria que encaixar o cano comprimindo uma mola para assim colocar o pino de fixação. Para isso necessitaria das duas mãos. E como iria segurar a lanterna? Os morcegos estavam cada vez mais ousados, querendo expulsar o intruso de seus habitat. Comecei a temer essas criaturas por causa das doenças que poderiam transmitir. Prendi a lanterna entre o rosto e o ombro, enquanto segurava o pino com os dentes, e com as duas mãos comprimia a mola, após várias tentativas consegui encaixar o pino. A lanterna que estava usando possuía um imã, fixei-a no cano da arma e apontando para o teto fiz o primeiro disparo, caíram dois morcegos que ficaram boiando na água. Após o primeiro disparo eles enlouqueceram, passaram a dar voos rasantes sobre mim. Parecia uma guerra. Por incrível que pareça não errava, alguns caiam no colchão outros na água, e um deles sobre mim senti aquela pele macia aveludada causando-me repugnação. Deitar no colchão era impossível, pois estava todo encharcado, tirei toda a roupa e fiquei sentado. Os bichos não davam sossego, quando apagava a lanterna eles entravam e quando acendia eles saíam. A noite inteira foi esse martírio. Poucos momentos cochilei  sentado com a carabina na mão.  O sofrimento não me dava trégua, assim que cochilava pesadelos horríveis me invadiam. Sonhava que gente alvoroçada vinha em minha direção. Ouvia muitas vozes, mas não distinguia o que falavam. De repente um grande número de escravos, descendentes africanos vestidos de branco, descalços, armados com machados e facões acercaram-me com semblantes enfurecidos querendo me despedaçar. Nesse momento acordei estremecendo com coração acelerado e nada vi a não ser a escuridão. Só ouvia o barulho da chuva chocando com a folhagem da mata. Todos os animais noturnos estavam calados, vez por outra um raio iluminava a mata,então conseguia divisar a porta da caverna. Assim que o dia foi clareando lentamente, a porta do forno ia tomando a verdadeira forma que ainda não tinha visto completamente. Tomei duma maquininha fotográfica com flash giratório e gravei aquele que foi um momento único na minha vida.


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