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Como se formou um caçador


Criança ainda nos seus quatro anos, morando numa cidade pequena num bairro onde a rua ainda não possuía calçamento. A uns duzentos metros de sua casa, que era alugada, um majestoso Seminário Redentorista embelezava a rua, quase em frente havia um asilo para completar  o cenário de uma rua dedicada a fé e ao assistencialismo . Justamente em frente a sua casa um enorme terreno onde o proprietário dedicava-se à criação de vacas leiteiras.

O pai do garoto tinha uma oficina  ao centro da cidade onde alugava um pequeno galpão em que se ocupava em  fazer serviços de torno e solda, mais direcionados aos agricultores e a industria que naquela época na cidade eram  fábricas de vassouras e de maquinas de beneficiar algodão e bebidas. Naquele tempo tinham necessidade de consertar as peças, diferentemente de hoje que simplesmente substituem.

O pai do menino era um aficionado nas artes cinegéticas e nas pescarias. Nos finais de semana de inverno, sempre  aparecia com alguma caça . Assim que chegava com seus apetrechos, polainas, chapéu de palha cinturão de cartuchos e espingarda, era uma alegria para o pequeno garoto.

Curioso que era, o garoto passava a averiguar as aves, tocando em suas penas e perguntando sobre seus hábitos: Do que a ave se alimenta?Onde ela vive?Como nascem seus filhotinhos? Suas pequenas mãos acariciando a plumagem das aves, examinando seu bico,  suas pernas, tentava desvendar todo o segredo ali existente .

Assim que o pai passava a depená-las, ele também participava, e ao seu modo tentava ajudar  mas, mais atrapalhava que ajudava.

Quase sempre no  dia  seguinte sua mãe temperava e preparava uma deliciosa caçarolada de passarinhos. O garoto não deixava também de apreciar a exótica comida.

Com a chegada do verão, a transformação, não era mais caça e sim pesca. Da mesma forma seu pai agora trazia peixes frescos para casa, apanhados no rio que serpenteava a cidade crivado de bons pontos de pescaria. A criança curiosa também queria saber tudo sobre os peixes e seus costumes.

Conforme o menino crescia, seu conhecimento sobre os produtos da caça e pesca que seu pai trazia para casa ia também crescendo. Molecote já começou a procurar fazer um  estilingue ,igual que via com os garotos maiores. O pai ajudou-o trazendo câmara de ar e forquilhas de galhos de jabuticabeira ou de goiabeira. Na rua apedregulhada era farta a oferta de pedras onde eram escolhidas as mais redondas. E assim iniciou o treinamento em latas de óleo ou em isolantes de força dos postes elétricos.

Na igreja do seminário, todos os domingos sua mãe levava para assistir a missa, a igreja era imponente , clara , muito envidraçada. Era simples sem muito luxo, mas era grande e as missas eram rezadas por padres sempre auxiliados por coroinhas. Todas as crianças da rua queriam ser coroinhas, mas poucos passavam nas exigências. Tinham que ser muito aplicadas no catecismo.

Nos meses de junho era uma festança em frente ao seminário, os padres com suas pesadas batinas negras com enormes terços pendurados, faziam todo ano festa junina. Ali tinha o famoso pau de sebo, a corrida vestido de saco de estopa e a luta com travesseiros, em que participavam dois garotos encavalados  num pau de sebo na horizontal. A molecada ficava endoidecida com aquela festa. Além disso, tinha a fogueira e a guloseima que a criançada apreciava.

No catecismo ministrado num salão amplo de baixo da igreja, a molecada mais devota queria ser padre,  os demais queriam mesmo só cumprir a obrigação que a mãe impunha  em frequentar o catecismo. Os padres faziam o ensinamento do catecismo motivado com peças teatrais onde os alunos participam de uma peça com grande entusiasmo no final do ano.

O asilo, que só tinha uma mureta de proteção na frente, o garoto via os velhos que normalmente fumavam seus palheiros e cuspiam por tudo. Parecia para ele que aqueles velhos eram eternos, nunca morriam, pois ele não via nada e nem percebia se algum tinha desaparecido. As freiras cuidavam dos idosos, limpando o asilo e cozinhando para eles.

Quando chegava a noite era comum a criançada  reunir-se em frente ao asilo e debaixo de um poste iluminado com luz amarelada e fraca, um senhor contava estórias. A maioria das estórias eram sobre sacys, assombrações , boitatás ,etc. A criançada ouvia atenta tudo aquilo e  voltava para casa amedrontada.

O garoto brincava e também brigava muito com a criançada da vizinhança. Ele costumava brincar de luta com espadas de madeira ou de Farwest ,Tarzan e também de circo. Uma ocasião um colega dele participando de uma cena de acrobacia quebrou o braço. Levaram-no para o Melaré, um prático que colocava no lugar. O homem colocou no lugar os ossos e duas talas de madeira enfaixadas. Após um tempo tirou aquilo , o garoto ficou bom ,só que o braço ficou um pouquinho torto.

Mas, de todas as brincadeiras o que mais crescia dentro dele era o gosto pela caça.

A primeira forma de caçar passarinhos foi com uma arapuca construída de taquaras  amarrada com dois arames em diagonais.

No fundo do quintal cheio de frutas, da avó de seu amigo, uma doceira de fama que fazia gostosas goiabadas, foi que experimentou pela primeira vez a arapuca. As fruteiras atraiam sabiás de peito amarelo, assim foi que armando a arapuca com frutas do local é que foram capturados diversos sabiás, que depois foram colocados num viveiro feito de tela, ou em gaiolas de madeira.

O progresso nas atividades de captura continuava, passou então a caçar com gaiola. No pasto em frente a sua casa, grande quantidade de coleirinhas comiam  semente de capim, por isso  eram chamadas de papa capim. Lá ia o rapaz com a negaça na gaiola e o açalpão. A sensação era grande quando um macho de coleirinha sentava na gaiola e não caia no açalpão. Da mesma forma, ainda mais emocionante foram as caçadas de pintassilgo, pois eles eram mais difíceis de pegar, principalmente os machos de cabeça preta. Havia muito tuim, eles eram caçados, mas depois de presos em gaiola muitos escapavam, pois roiam os paus da gaiola.

Depois de um tempo ele ficou sabendo que seus primos também gostavam de caçar de gaiola,então faziam trocas de passarinhos e iam à caça mais longe.

No sitio em frente a sua casa também era o palco das caçadas com estilingue, no verão quando apareciam os lagartos eram alvos das pelotadas. As pombas e rolinhas eram ariscas , pois sabiam que as pedradas eram comuns. Os preás também eram procurados incessantemente.

O Sitio fazia divisa com o enorme terreno do seminário onde havia um tanque e vez por outra os garotos entravam lá munidos de varas para pescar, mas tinham que ficar espertos pois os padres mantinham  cães enormes de guarda.

Passado um tempo seu pai conseguiu fazer uma casa mais ao centro da cidade, assim deixou seu local de diversão. Um dia foi convidado para ir escolher café numa beneficiadora de café que era de seu tio. Lá também era beneficiado o arroz, e onde caia a palha ficava sempre pontilhado de rolinhas. Aquilo foi uma dádiva, pois poderia agora já com sua espingarda de pressão da Rossi abater rolinhas perto de casa. Assim ficou freguês do local e sempre conseguia apanhar algumas que eram levadas para casa para preparação.

Os passarinhos de gaiola foi obrigado a deixar, pois a nova casa não tinha quintal para mantê-los.

As aventuras pelos pastos e ribeirões não terminaram, ele costumava frequentar o ribeirão da serra onde ia mariscar com peneira.

Mais crescido, passou a acompanhar seu pai primeiramente às caçadas de rolinhas nos cafezais com a cartucheira de um cano calibre .36 que ganhou de seu pai.

Assim o gosto foi se firmando e progredindo mais e mais e continua caçando até hoje.

Esta é uma simples história de um caçador que trilhou o caminho das boas maneiras de viver e hoje é, como tantos outros, criticado por abraçar esta arte.

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