Deleite do primeiro de maio


     Era primeiro de maio, primeiro dia de caça após o defeso por nós elegido. Verdadeiramente, um dia que não poderia passar em branco sem aquela saída para caçar, mesmo que fosse por perto. Dia de muita ansiedade e expectativa, dia este que saberíamos se depararíamos com a caça, se o cão iria se portar com eficiência e se nós estaríamos também com bom pulso.

Meu companheiro de caçadas, hoje com 70 anos, pode-se dizer, um verdadeiro caçador. Muitos falam, eu fui caçador, este na verdade não é caçador. Caçador é pela vida toda, só para quando as pernas não podem mais levar seu corpo calejado de andanças, muitas delas infrutíferas, e que muitas e muitas vezes levaram quase à desistência de caçar. Mas, quando o frio bate à sua porta novamente, a vontade retorna e dá-se por esquecidas as agruras anteriores.

Meu companheiro tinha um cão de caça, eu não tinha ainda o meu. Além do cão, o meio de transporte era dele, uma Lambretta, o cão ia na frente entre as pernas e eu na garupa.

O local de caça era perto da cidade, lá todo ano encontrávamos sempre codornas, inhambus e pombas. O cachorro era um misto de perdigueiro com veadeiro e seu nome era Conde. O Conde tinha mais propensão para caça de pelo que de pena, vez por outra ele sumia no campo, como se estivesse seguindo algum mamífero. Ao pressentir uma caça de pena ele não apontava como um pointer, mas seu dono conhecia bem sua expressão quando dava no rastro. Assim que sentia alguma emanação ele passava a seguir a codorna dando voltas, parecia que sempre perdia o faro, quantas e quantas voltas atrás daquele cão! Seu dono não esquece o Conde até hoje, pois foi o cão que mais levantou caça para seu amo . Ele sempre dizia que onde o Conde passava não ficava caça sem levantar.

Este local de caça fazia rumo com uma grande fazenda de pastagem , além de nelores o fazendeiro criava búfalos indianos. Tinha um grande lago e o campo era crivado de codornas faladeiras. Nós parávamos na cerca e ouvíamos o cantar das codornas e mais à frente no tanque o esvoaçar de patos e paturis. Muitas vezes depois da andança infrutífera nas terras, que não era só nós que caçávamos, dava aquela tentação enorme de ultrapassar a cerca. Era o que fazíamos vez por outra, mas o medo era tanto em confrontar com o fazendeiro, ele parecia um coronelão, era rico, andava com uma perua Rural Willys, com chapéu igual dos velhos caçadores africanos. Isso metia medo na gente, pois o homem era cheio de poder $.

Na verdade, o medo nos roubava a desenvoltura , a maioria das codornas que levantávamos eram erradas, a preocupação de sermos pegos era muito grande e tínhamos que ficar com um olho na caça outro nos peões da fazenda, que a qualquer momento poderiam interceptar-nos com a famigerada Rural. Felizmente tivemos sorte e nunca fomos pegos.

Hoje esta fazenda enorme que era expressamente proibido caçar, não tem nada de caça, não pelos caçadores furtivos, mas pela monocultura da cana que tomou conta das terras e dizimou a maioria das espécies.

Para o brasileiro o único pretexto da extinção da caça é ainda o caçador, ninguém para prá pensar que o consumo exagerado de tudo acaba com toda a espécie selvagem.

Voltando ao meu amigo que colaborou tanto na minha iniciação à caça, irei contar um caso que passou com ele.

Esse meu amigo ia quase todo domingo, quando não era temporada de caça, a um pasto bem perto de sua casa treinar seu cão. Logicamente ia sem a espingarda, pois era um local muito próximo de habitações. Um dia de outono no frescor da tarde, foi ele a perseguir as codornas. O cão logo amarrou uma moradeira do local, assim que a codorna levantou ,o caçador quase num gesto automático apontou os braços como se fosse uma arma e com a boca disparou o tiro..bumm. E a codorna caiu! Como pode ser? Derrubar uma codorna com o som do disparo feito com a boca? Na verdade assim que a imitação do som do disparo saiu, a codorna bateu num arame de cerca e caiu… Incrível, mas é verdade! Já contei este caso a outros caçadores e não ficaram tão surpresos.

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