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Delmo, uma vida exemplar


Uma vida exemplar

Num dia comum chego à agência dos correios e um dos funcionários me pergunta bem assim:–Você viu o jornal do Delmo Massarico? Estranhei a pergunta. —Que jornal? Ele respondeu —Tem um aqui na agência um pra você ver. Tomei o jornal de 4 folhas, não me contive, pedi emprestado.

Chegando em casa, curioso que estava em ver e ler o que ele escreveu, suguei o jornal em poucos minutos.

Muito me alegrou sua atitude em imprimir um jornal exclusivamente dedicado a si em comemoração aos seus 80 anos. Digo, pois, o que se vê no jornal é um exemplo de vida para todos nós leitores.  Na mesma semana liguei para o Delmo marcando uma visita em sua residência na vizinha cidade de Cerquilho exclusivamente para falar sobre o jornal. Ele me recebeu prazerosamente e ainda tive a satisfação de ouvir muitas histórias contadas com retidão.

Delmo Massarico inicia a primeira página do seu jornal falando de sua profissão e do seu trabalho humanitário. Foi um ativo gerente dos Correios da cidade de Cerquilho, participou por muitos anos do Rotary Club, promovendo o Social da cidade com muita dedicação e trabalho. Criou ainda, com muita luta, a Casa da Criança e participou de inúmeras campanhas de ajuda aos menos favorecidos.

Relata também sua carreira de cantor e compositor. Nessa parte da história lembro-me quantos carnavais passei em Cerquilho ouvindo-o com sua voz forte e marcante cantar as inocentes marchinhas carnavalescas da época. Além de ser um artista, foi um dedicado esportista no futebol, na corrida e na natação onde ainda atua em provas.

Outro assunto relatado foram suas viagens pelas Américas e Europa a passeio com sua simpática esposa.

Mas, a coisa que mais me prendeu além do seu currículo invejável como homem muito dedicado tanto à família como aos mais necessitados, foi a dedicação de duas páginas do jornal às suas jornadas de caçadas e pescarias, contando alguns casos e descerrando muitas fotos de suas aventuras. Muito me admirou a coragem de se expor em nosso mundinho fechado para essas questões.

Reescrevo aqui dois contos exatamente como o Delmo escreveu, são de pescarias, ele não contou os casos de caçadas, mas nunca deixou o acampamento sem uma carne de mamífero caçado no local.

“Pescaria na Serraria Rio São Lourenço

    Nossa equipe de pescadores, chegando na fazenda da Serraria, ao passar pela estrada ruim dentro da fazenda, uma casa de tábua, uma senhora abanando as mãos em sentido de socorro. Maguila parou a condução e a mulher nos mostrou o filho de dois anos, com febre alta, largado inconsciente. Imediatamente Maguila pegou nossa caixa de recurso médico, ou seja, remédios para necessidade de urgência, deu uma pequena dose de Novalgina, pediu à mãe que trouxesse uma bacia com água fresca.Ficamos lá mais ou menos três horas até que a criança deu sinal de melhoras. Nosso objetivo era a pescaria, mas, naquela situação, perdemos a pressa. A criança melhorou um pouco e Maguila deixou a Novalgina e ensinou a dosagem caso fosse necessário.

  Saímos direção ao rio, mais ou menos 7 km de estrada ruim, árvores caídas, tamanduá na frente, veados, pássaros. Lindo de ver os bichos. Fizemos o acampamento já começava escurecer. Depois de dois dias, no horário do almoço, veio o pai da criança a cavalo e nos deu uma leitoa limpa, dizendo agradecer o que fizemos a seu filho. Fizemos boa pescaria, na volta visitamos a criança, que estava boa.”

Por brincadeira começaram a chamar o Maguila de Doutor, e segue outro conto:

“Outra pescaria com Dr. Maguila

Ao chegarmos à beira do Rio São Lourenço no Sequinho, começamos a armar a barraca de dormir, barraca de cozinha e de banho. Nesse momento, vieram com canoa de um pau só dois índios Bororós. Sentaram no chão observando nós trabalhando na armação do acampamento, pois o motor estacionário gerava luz e eletricidade até para o chuveiro.

Então eu, Delmo Massarico, comecei a chamar o Maguila de Doutor, dando a entender aos índios que Maguila era um Doutor. Acontece que daí dois dias houve uma chuva forte com raio, dando uma faísca no acampamento dos índios. Pegou fogo em uma árvore e também numa oca. Foi um corre-corre com os índios.

No dia seguinte eu,Delmo, estava fazendo o almoço, em escala de serviço, pois o Maguila, excelente cozinheiro, foi pescar no período da manhã. Quando olhei para o rio vinham os dois índios. Chegando, pediram pelo Doutor, pois um deles estava deitado machucado e outro com dores, precisando de ajuda do Doutor.

Sabedor do que se tratava, pois tinham me dito, solicitei a eles que voltassem em sua morada, pois o Doutor estava pescando logo abaixo e que eles não incomodassem o Doutor e quando ele viesse almoçar eu o levaria ao acampamento indígena. Fiz o arroz à grega, fritei dourado e fiz salada de tomate com palmito, bem temperado.


Dali dois dias, todos nós estávamos almoçando e lá vinha a canoa com dois índios à toda velocidade no remo, Entre nós, e agora se morreu alguém, vamos nos unir preparados para o que der e vier. Chegaram e nos trouxeram quatro pacus, todos grandes, com mais ou menos oito quilos cada um. Agradeceram o Doutor e disseram que os índios estavam melhores. Para nós e para o Doutor só foi alegria”

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