Esturrador



                            Onça pintada o maior gato das Américas, terceiro maior felino do mundo                                                                     foto da web

      Era uma  família nova, que saiu  de  Goiás e foi para o Tocantins com ideal de progresso. Instalaram-se em uma  pequena propriedade  de  área de pastagem que possuía ainda muito mato. Como o dinheiro era curto para investir em bois, resolveram então partir para a criação de ovelhas. Foi assim que iniciaram o pequeno negócio.

      Cercaram uma área, e o plantel de animais aumentou com a fartura de capim. Porém quando há um desequilíbrio no ambiente , inicialmente vai bem , logo  depois aparecem as pragas e as complicações surgem. Não tardou muito começou a sumir ovelhas. Na redondeza  não havia cães que pudessem atacar as ovelhas. Qual seria então o causador do desaparecimento dos animais.

    Foram pesquisar  a causa do sumiço das ovelhas,  notaram que elas eram sacrificadas e arrastadas para o mato.Verificando meticulosamente os rastros, puderam constatar que se tratava de onça. Notaram também que as pegadas não eram de animal pequeno e sim de uma pintada erada.

    Num ato de desespero, pois não sabiam  de antemão como evitar aquilo, resolveram contratar, e pagar um matador profissional de onça. Assim  foi feito, mas o caçador, com seus cães, conseguiu apenas acabar com um filhote.

     O proprietário das ovelhas não ficou satisfeito, pois o tamanho da fera abatida possuía as patas bem menores do que aquelas que imprimiram os  rastros assassinos. Por uma quinzena  de dias a pintada não mais atacou, talvez motivado pelo tropel dos cães.

     Ele tentou algumas vezes fazer uma emboscada por onde o jaguar passava em direção às ovelhas, mas após diversas noites de longas horas na  espreita, o bicho não deu sinal de vida.

     Surgiu então uma ideia que seria a solução da questão. Fizeram um chiqueiro de paus fincados como se fosse  uma jaula , com duas portas de cair , uma na entrada e outra na saída, de maneira que quando a tal entrasse no chiqueiro cairia as duas portas e ela quedaria presa. Assim sendo poderiam até transportá-la para outro sitio onde não tivesse animais domésticos ao redor.

      Mas a sorte realmente não estava ao lado do pequeno proprietário. Deixaram a armadilha pronta e só foram verificar alguns dias depois propositalmente, porque se pegasse a onça, ela precisaria ficar diversos dias sem comer,assim tornaria mais fácil seu manejo com ela já enfraquecida pela fome.

        Após alguns dias foram certificar se a armadilha dera resultado. Eis que, assim que chegaram verificaram as duas portas fechadas como se o animal estivesse preso, mas dentro não havia nada. Fizeram então uma sondagem  na  jaula e verificaram que a onça fez um buraco no chão e saiu do outro lado, já que o fundo da jaula era chão de terra.

       O proprietário das ovelhas inconformado com as tentativas inúteis de apanhar o animal, resolveu  partir para outra experiência. Tinha ouvido falar que onça pode ser caçada com esturrador, ele nunca tinha visto um. Conversando com uns amigos, indicaram uma pessoa que lhe ensinaria o processo de fabricação, bem como a maneira de usar. Assim sendo aprendeu a maneira de esturrar e também como fazer um. Tomou um tubo de diâmetro de 100mm de PVC branco, cortou um pedaço de 45cm de comprimento , tapou com um plug um dos lados e mais ou menos 10cm contando do plug fez um furo no tubo do diâmetro de um cartucho cal.20. Neste furo ora feito é que iria assoprar,  como se fosse um  berrante. Poderia também ao invés de tapar com um plug, deixar aberto e quando for tirar o som tapar a boca do tubo com a palma da mão.

     Após o criador de ovelha construir o objeto e treinar muito, resolveu fazer uma tentativa.

     Uma tarde de lua cheia, deixou sua casa e foi em direção ao mato onde habitava a onça, após andar um pouco na trilha que a onça passava, encontrou um tronco de árvore  arranhados por ela como demarcação de território. Resolveu então escolher uma árvore ali por perto para fazer o jirau. Cortou uns galhos e foi amarrando-os na árvore como se fosse uma escada, até que se acomodou numa posição mais ou menos confortável e com boa visão. Assim que anoiteceu chegou o momento de dar uma esturrada, e assim o fez. O silêncio imperava na mata, os animais estavam quietos como que percebendo algum felino próximo. O único pássaro que ao longe deu um piu foi o macuco. Alguns raios de luar cortavam a penumbra fazendo com que seu pensamento ditasse formas verdadeiras a simples sombras. Embora estivesse com uma espingarda calibre 20 carregada com chumbo grosso, seu medo era avassalador. Passaram uns 5minutos, eis que ouve um esturro ao longe. Ele, quase que tremendo de emoção e um pouco atrapalhado com o instrumento, assopra o esturrador e a onça avança mais um pouco. Assim trocaram mais esturros, quando percebeu que estava mais próxima, parou de esturrar, pois como tinha aprendido, não podia esturrar com ela próxima, ela poderia desconfiar.

   Os ouvidos aguçados do caçador nesse momento seria o órgão primordial, pois teria que diferenciar um estalo de galho qualquer do passo silente dos pés almofadados da onça. Como alguns raios da lua cheia singravam a mata, ele pode ver cortando os raios o vulto da pintada, nesse momento acendeu o farolete, já com a cartucheira a  posto  pasmou com  os grandes olhos do maior felino das Américas.

Muitas vezes o verossímil pode ser inverossímil e outras vezes o inverossímil pode se verossímil. Reflitam o que acham deste conto!

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