Filisteus (Artigo do Coronel Português Óscar Cardoso)

Filisteus *

Há uns tempos, deambulava eu pelo Campo de Santa Clara, absorto nos meus pensamentos, recordando, talvez, os velhos tempos em que adquirira a minha primeira ”Parabellum” na Feira da Ladra, quando fui surpreendido por uma voz autoritária que berrava assim: -Eh, VOCÊ não sabe que não pode passar por aí ?! Olhando, deparei com um jovem, que pela idade podia ser meu neto e que me mirava ameaçador. Envergava uma espécie de fato-macaco de cor preta, calçava botas com polainitos razoavelmente engraxados e ornamentava a cabeça com um boné, também negro e com uma insígnia qualquer estampada. Era um rapaz grande, ostentava uma pistola que, embora no coldre, apercebi-me ser da Nova Geração; talvez uma Glock ou uma Walther P 99, o que, vá lá, sempre era uma prova de bom gosto. O coldre de posição baixa (sim, porque deve estar sempre de acordo com a posição natural da “strong hand” do atirador) era de polímero moldado, muito ergonómico e mantinha a pistola ligeiramente inclinada e afastada da perna direita, como mandam os manuais do “Quick draw”. Do cinturão, tipo militar com ilhoses, pendiam, além da pistola e do coldre, um par de algemas bem cromadas. Ao avaliar aquela figura que “resplandecia” autoridade, compreendi que estava perante um “Rambo de elite”. Só que este profissional não estava embuçado como aqueles que nós vemos nos filmes de violência com que a nossa TV nos contempla, sempre e repetidamente os mesmos, no seu rotativismo de canais. Se quisermos ver filmes novos temos que pagar uma maquia maior.

A postura “esplêndida” que o atirador assumiu, levou-me a crer que o fulano estava a viver o grande momento da sua vida. O pé esquerdo apontava para mim, enquanto que o corpo, a 45º, se inclinava ligeiramente para a frente. As duas mãos à altura do peito – a direita um pouco mais baixa, com o polegar revirado – davam a entender que ele se preparava para sacar em grande estilo, possivelmente assumindo uma posição “Weaver modificada” dado que ele, embora corpulento, não era assim tão gordo que tivesse que atirar em isósceles. Deveras “impressionado” perante aquela figura “magnífica”, consegui responder-lhe: – “Agradeço que o SENHOR não atire. Eu não quero molestar seja quem for e, além do mais, estou desarmado. Não leve a mal eu tratá-lo por SENHOR é que eu prezo muito os agentes da autoridade, sejam de que corporação forem. E também as pessoas idosas e toda a gente que se sabe dar ao respeito”.

Afastei-me desgostoso, meditando nestas coisas da Democracia e do Estado de Direito. Acabei por não visitar o editor de um dos meus livros, que tem a sede junto do Tribunal de Santa Clara, onde esta cena se passou. Nesse dia estava ali a decorrer uma sessão do mediático processo da Casa Pia.

Havia muita gente junto do tribunal, uns fardados outros não; até lá estavam a TV, jornalistas e fotógrafos.

Ao atravessar o jardim encontrei uma velhota que meteu conversa comigo e me disse, em tom conivente, mais ou menos isto: -“ Tá a ver? Com este estendal todo, que vamos ser nós a pagar, os graúdos nunca os agarram e hão de ser os “putos” que ainda vão ficar mal vistos! Segui o meu caminho. Já não tive vontade de dar uma olhada pelas bancas da feira. Não pude deixar de pensar no que tinha visto e também de recordar aqueles coldres que nós fazíamos, de cabedal bem molhado com água quente, dentro dos quais metíamos a pistola, devidamente untada e envolvida num preservativo para não enferrujar. Era um processo lento que devia ser efectuado em dias de sol. Enquanto o coldre secava íamos moldando o cabedal com os dedos até que o perfil da arma ficasse desenhado no cabedal. Depois de seco até parecia que a arma tinha nascido lá dentro. No final grafitava-se a parte interior do coldre, untávamos por fora com uma vela de sebo, ou óleo de mão de vitela e tudo ficava catita. Agora os coldres já vêm de fábrica com a pistola, só que são, talvez, demasiado rígidos, barulhentos e um tanto incómodos quando usados dentro de viaturas.

Fui educado num grande respeito pelos Agentes da Autoridade. Sempre os olhei como o garante da nossa Segurança e da nossa Liberdade. Quando íamos para a escola gostávamos de sentir a presença das autoridades por ali. Cumprimentávamos os seus agentes com simpatia. E, então no Natal, dava gosto ver as prendas que ofereciam aos sinaleiros e a forma ordeira como o tráfego fluía nas ruas das cidades. Na província, o povo agradecido pela “Tranquilidade na Ordem”, honrava os postos com as primícias da sua produção.

Tudo isso se perdeu embora, hoje, tenhamos forças militarizadas com efectivos nunca sonhados anteriormente. Também é verdade que ainda contamos com algumas forças competentes e bem comandadas, só é pena que não as deixem trabalhar conforme o que a experiência lhes ensinou. No entanto, talvez devido ao estilo ameaçador, de importação, que alguns elementos teimam em exibir, a autoridade é pouca, o respeito quase nenhum e a criminalidade maior do que nunca.

As corporações e as pessoas verdadeiramente de elite que conheci, todas tinham um factor em comum – a Humildade.

Não precisamos de maiores efectivos, a metade dos que temos sobrava. É absolutamente necessário que se confira mais respeito, mais dignidade, mais autoridade aos agentes da ordem, comando competente ( política à parte) e melhores condições de vida e de trabalho. Caso contário será o descalabro do que nos resta.

Quanto ao crime organizado, se realmente o quiserem combater (duvido), não será só assunto das Forças da Ordem. É trabalho de equipa, só possível com a colaboração de todas as pessoas de bem.

É altura de travar o plano de castração progressiva, em curso, a que foi submetida a sociedade portuguesa ao serem-lhe imensamente dificultados a possibilidade de se defender e outros direitos. A Constituição consagra, por enquanto, o direito à vida e à integridade pessoal.

Em todos os países que promulgaram legislação semelhante à nossa “exemplar” lei das armas, o resultado foi sempre o mesmo: o aumento drástico da criminalidade, maior tráfico ilícito de armamento, bem estar dos facínoras e o medo e o descrédito instalados entre a população.

Tendo referido aqui um tipo de filisteu extremamente incómodo, em vias de expansão e que vem complicar ainda mais as nossas vidas e também alguns dos males que afligem a nossa sociedade, outras histórias vos passo a contar.

Os coleccionadores são em geral pessoas educadas, sociáveis e que se interessam por assuntos de cultura. Os coleccionadores de armas não fogem à regra. Como todos os outros gostam de trocar impressões com os membros da confraria e de esclarecer aqueles cuja curiosidade natural os leva a ter inclinação por assuntos de armaria, suas origens, história e características especiais.

Se trocar impressões com outros conhecedores é um dos aspectos mais gratificantes da nossa devoção, o ter que aturar certos indivíduos que o nosso sentido de sociabilidade nos impõe, é um sacrifício quando não é um martírio.

Enquanto as regras de segurança relativas a armas de fogo (Os dez Mandamentos) são mais ou menos do conhecimento do comum dos atiradores, as normas de cortesia e de educação, referentes às armas, são sistematicamente ignoradas. Especialmente por aquele indivíduo a quem na nossa gíria cognominamos filisteu, quando não lhe chamamos outros nomes que a minha pudicícia não me permite revelar.

Quando o anfitrião ingénuo franqueia o armeiro ao nosso herói, este apressa-se a tirar uma caçadeira, sem pedir licença, para exemplificar como deitava abaixo as perdizes lá no monte, onde costumava caçar, nos bons tempos em que havia muita caça. Então, com odedo no gatilho explica que o que era preciso era “correr a mão” e nunca parar a espingarda. Acontece muitas vezes que ao correr a mão, na sala, acaba por deitar abaixo, não uma perdiz mas, um objecto de estimação que o coleccionador muito prezava.

Tudo depende do temperamento do anfitrião. Em casos extremos o filisteu pode ser corrido a pontapés. Se o não for, pelo menos uma coisa é certa – nunca mais porá os cotos naquele santuário. Quando se pretende conhecer uma arma, é de bom tom pedir ao dono que a mostre e que a explique, o que ele por certo fará com o melhor agrado. Nunca se deve abrir uma arma sem pedir licença; é bonito e também uma forma de cortesia para com o seu orgulhoso possuidor. Ao abrir uma caçadeira há que levar em conta que pode ter ejectores. Assim poderão existir cartuchos “dummies” nas câmaras. Estes, ao serem expulsos inadvertidamente, podem causar danos nos objectos circundantes ou escorregarem para baixo dos móveis, obrigando o pagode a ter que repescá-los na posição em que a Alemanha perdeu a guerra.

Se for o caso de desmontar uma arma basculante, quando para isso o visitador for instado, deverá este verificar se a arma está carregada, tirar o fuste, colocá-lo nos canos, à frente do grampo de fixação dos mesmos e, então, abrir a arma ficando com a coronha numa mão e os canos e o fuste na outra. O fecho das armas basculantes serve para as abrir e também para as fechar. É considerado sacrílego fechar uma arma de dois canos basculantes com um golpe seco das duas mãos. E pior ainda com um impulso rápido de uma mão só, como gosta de fazer o nosso filisteu quando pretende impressionar com o seu à vontade em coisas de armamento. O barulho do metal a bater no metal é um som agreste que o amante de armas detesta ouvir. Na verdade o uso repetido desta “sorte” contribui substancialmente para que a arma venha a laquear. Embora muitos fabricantes declarem que as suas armas estão preparadas para disparar em seco, os conhecedores detestam que isso aconteça. E quem o fizer fica “marcado” para sempre.

Uma das características que define o filisteu é a maneira como agarra as armas pelas partes metálicas sem se preocupar com os danos que isso possa causar, especialmente no verão, com as mãos bem suadas ou molhadas pela humidade do copo de Whisky que ele exigiu, de preferência com dois cubos de gelo.

Há certas pessoas que têm um suor mais corrosivo do que outras. Diz-se que as senhoras, quando grávidas, segregam uma transpiração mais ácida do que normalmente pelo que se deve evitar o seu contacto com as armas. Nos casos em que isto acontece, basta limpar bem a ferragem com um pano seco e pincelar as partes tocadas com uma trincha embebida num bom óleo alcalino como o Ballistol ou o Young’s 303, por exemplo. Estes óleos também são uma boa panaceia contra os excessos de manipulação por parte do nosso indesejável visitante. Quando avaliamos uma espingarda de ejectores, com a anuência do seu proprietário, é de bom tom abri-la suavemente, encostar os dedos aos ejectores e esperar que eles disparem. Quer isto aconteça numa feira de armas ou num dos famosos leilões londrinos, como os de Christie’s, Sotheby ou Bonhams, quem o fizer subirá vários pontos na consideração da clientela escolhida e conhecedora que frequenta estes locais mundanos. A verdade é que os aficionados não toleram o ruído metálico de qualquer mecanismo que dispare em seco.

Uma das proezas que mais entusiasma o filisteu consiste em armar uma espingarda de repetição, tipo “trombone”, com um golpe brusco, na vertical, para cima e rapidamente para baixo, produzindo uma barulheira de ferragem extremamente desagradável. Já vi destas demonstrações de virilidade, nalgumas espingardarias, perante o sorriso amarelo do espingardeiro, a indignação de alguns clientes e o quase colapso cardíaco de uns quantos mais sensíveis.

Se as espingardas são vítimas destes abusos, muito mais o são as pistolas e os revólveres.

Ainda sou do tempo em que a maioria dos cidadãos tinha a Liberdade de ir a um armeiro e escolher uma arma de defesa. E a cena era quase sempre a mesma. O cliente com o revólver bem agarrado, o dedo no gatilho e o cano apontado à barriga do vendedor, atirava a pergunta sacramental: – “Isto mata um gajo a que distância”? Independentemente do hipotético “gajo” merecer ou não ser morto, isto denunciava a existência de sentimentos malvados, um requintado mau gosto e uma imperdoável “falta de chá”. Estas coisas deprimentes aconteciam no tempo do obscurantismo. Hoje, mercê de medidas criteriosas, inteligentes e oportunas, já não é assim. A maioria dos cidadãos sente a Necessidade de ir à “candonga” (leia-se mercado paralelo) e adquirir uma “fusca” (pistola em calão e na gíria dos novos fornecedores) para se sentirem mais confortáveis. Com tudo isto, é curioso que no tempo do obscurantismo era raro alguém abater outro alguém com ou sem arma de fogo e hoje, no tempo da erudição e da perspicuidade (uma palavra bonita), já se liquidam uns aos outros com tiros de rajada!

Há uma grande diferença entre o ignorante e o filisteu. O primeiro, normalmente, é humilde e pergunta; o segundo sabe tudo. Assim, é possível que o nosso herói decida impressionar os circunstantes com o seu conhecimento dos filmes do Oeste americano e que, para tanto, resolva fazer rodopiar o revólver em torno do dedo. Só que, ás vezes, a arma escapa-se e está-se mesmo a ver…

Outras calamidades pode o filisteu provocar, tais como: encaixar o tambor, que previamente fez girar, no caixilho com um golpe seco do pulso; accionar o nosso querido revólver “Frontier”, com o gatilho premido e a palma de uma das mãos a coçar desalmadamente o teiró do cão, com grande rapidez, da frente para trás (Fanning the hammer), exemplificando como os heróis do Far-West despachavam bandidos em série; conseguir a proeza de deixar o cão de um revólver a meio curso, permitindo que o tambor rode livremente.

Quer queiramos quer não, um revólver é sempre uma peça delicada, mais sensível do que a maioria das pistolas e que, sujeito a maus tratos, facilmente fica com o mecanismo descomandado. Os bons revólveres são objectos muito bonitos que os iniciados gostam de admirar e manusear com devoção.

Uma das atitudes que distingue o conhecedor é a maneira como ele encaixa o tambor no caixilho de um revólver. Fá-lo de molde a alinhar uma das câmaras com o cano, de maneira a evitar que o bloqueador do cilindro risque o mesmo, antes de entrar na respectiva mortagem.

Os amantes de armas têm as suas madurezas, os seus tabús e ninguém lhes pode levar a mal por isso. Para se viver em sociedade têm que existir regras.

Há quem possua uma pistola piloto, normalmente sem possibilidades de reparação, que serve para avaliar os visitantes e para decidir até onde estes podem ir. Entregam-lhe a pistola com a corrediça fechada e observam a reacção. Se o visitante verifica a arma puxando a culatra atrás, com o cano numa direcção segura, sobe logo uns pontos. Se depois disso devolve a arma com a corrediça aberta e o carregador à parte, o anfitrião, possivelmente, dir-lhe-á “touché”! E a visita será um sucesso que ficará lembrado.

É feio premir o detentor da corrediça, de uma pistola descarregada, sem acompanhar a dita corrediça até ao final do curso com a outra mão. Nunca por nunca se deve disparar em seco uma arma de percussão circular. Quando se tocou nas partes metálicas de uma arma é de boa norma pedir um pano para a limpar. Quando o visitante traz também um menino é de bom tom que este mantenha a boca calada e as mãos nos bolsos.

Uma das regras fundamentais da etiqueta relativa a armas é: Não tome iniciativas; quando não sabe pergunte.

Sempre que se trate de armas muito antigas é conveniente não manobrar os mecanismos. As molas, como tudo na vida, envelhecem e, ás vezes, partem. É melhor que seja o proprietário a explicar o seu funcionamento. Se o coleccionador insiste para que o visitante experimente armar certas platinas para ouvir o seu “cantar”, deixe que seja o dono a mover os cães. Da nossa parte só temos que encostar o ouvido às platinas e escutar a música.

Há filisteus que, para além de outros maus costumes, têm o péssimo hábito de não poderem estar quietos com as mãos a pontos de não resistirem a mexer nos botões das miras telescópicas que tanto trabalho nos deram a regular. Um espectáculo triste que tenho presenciado, muitas vezes, é o chumbo de caça entornado a correr pelo chão fora devido à incontinência dos “mexilhões” que não se coíbiram de accionar os manobradores das máquinas de carregamento de cartuchos.

Infelizmente encontra-se de tudo, até aquele parceiro “muito sabedor” que mete o dedo dentro dum cano e depois declara peremptório que a arma é de grosso calibre, nunca menos de uma polegada! E também aquele que, saudoso do seu tempo de tropa, não resiste a mostrar como se fazia a Ordem Unida no seu Regimento, no tempo da Mauser. Depois, os que sofrem são a nossa carabina, o candeeiro do teto e nós próprios – Muito.

* Cândido de Figueiredo no seu Dicionário da Língua Portuguesa, define Filisteu como “Homem corpulento e desajeitado; brutamontes.”

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