História do safári

O filme “Out of África” Entre dois Amores, retrata maravilhosamente com suas senas incríveis  filmadas em Ngong Hills , Masaimara , The Rift Walley West of Nairobi , Ngorongoro  Cratera e Lago Manyara, o que foi o início da colonização inglesa no Quênia.

Sempre ávido por saber mais sobre a colonização da África e o início dos safáris encontrei uma fantástica reportagem gravada com o ator Richard E. Grant, no Animal Planet:” A história do Safári”. Tudo que me despertava curiosidade como o Hotel Norfolk e o grande caçador Bror –Barão  Von Blixen foi apresentado nessa reportagem, como segue:

A história do Safári está longe de ser simples . Ela envolve a controvérsia dos colonizadores brancos, o modo de vida colonial e a expansão do Império Britânico.

Richard: Sendo eu um homem branco que nasci na Suazilândia, embarquei nessa jornada pelo safári para tentar entender seu passado complexo e seu presente polêmico. Visitei paisagens extraordinárias e vi de perto  a emoção e a sensação dos animais selvagens “Jambo” ,”Jambo” Quênia espetacular. Descobri  que a história do Safári está ligada a um estilo de vida excêntrico e muito sensual.  Então as camas , a caça  e o safári eram compartilhados. Sim, sem problemas e sem ciúmes. Eu quis entender por que a emoção da caça ainda  atrai defensores apaixonados. Esta viagem me mostrou no fundo que o safári  tem a ver com o prazer e liberdade. Uma aventura inesquecível.

Em 1896 o governo da África Oriental Britânica iniciou a construção de uma ferrovia que ia de Mombaça na costa do Oceano Indico  pelo Quênia até Uganda. Essa mesma estrada onde foi construída a ponte de Tsavo, onde dois leões mataram 12 trabalhadores e mais 100 foram vitimados por ataques de leões.

Com, a expansão do Império  era vital  ter uma rota comercial até o coração da África. Apelidada de “Expresso Lunático” a linha foi inaugurada em 1903. Logo transportaria  aventureiros ingleses ricos interessados em safári  e caça de animais de grande porte. Nairobi se tornou a estação principal . É aqui que o meu safári começa , diz  Richard.

Nairobi surgiu em 1899, era só uma parada do “Expresso Lunárico” . Na época , zebras leões,gnus girafas passeavam na trilha que virou a avenida principal. O que começou com cabanas e infra- estrutura básica se transformou em uma cidade sem nenhum planejamento. Em 1907 foi declarada capital oficial da África Oriental Britânica. Nairobi se tornou uma cidade caótica  e barulhenta de mais de 2 milhões de habitantes. Mais alguns minutos do movimentado centro urbano podemos ver o pedaço de passado colonial britânico. Vim ao Quênia para saber mais sobre a história do Safári e como se liga ao controverso passado colonial. O Hotel Norfolk é o lugar perfeito para começar.

—Bem vindo ao Hotel Norfolk , sou Richard Kimenyi, o gerente do hotel.

—Obrigado, diz Richard –somos xarás.

Norfolk em estilo Tudor, foi inaugurado no Natal de 1904. Era nele que os ingleses ricos começaram o safári. Norfolk oferecia classe e luxo na África selvagem. Um exemplo de como os ingleses transferiram seu estilo de vida às terras africanas. A ostentação exótica era importante para os ingleses e alguns se tornaram famosos  pelo comportamento exagerado.

Norfolk era o epicentro da vida colonial, aqui havia chalés  e eles jogavam bilhar e faziam trocas de esposas, como diz a história.

—Isso não acontece mais? Pergunta o Richard para o gerente do Norfolk.

—Não isso não acontece mais, bem vindo a sua suíte.

O luxo e a grandeza do Norfolk são completamente ingleses e lembra minha própria história. Fico abismado com esse contrate enorme do trem lotado de Mombaça , o caos do trânsito em Nairobi, ninguém pára no farol vermelho ou para os pedestres passarem. É um grande caos organizado. E quando entramos no Norfolk Hotel topamos como o colonialismo. Quando  imagino minha criação em Suazilândia no final do império é vergonhoso dizer que era uma família com empregados , cozinheira, faxineira, dois jardineiros. Eu  nem sabia cozinhar um ovo quando fui para a faculdade. Então para o menino branco voltar à África em busca da história do Safári é como fechar o ciclo. Não sei até que ponto dá para se punir pela culpa colonial.

Crescer na Suazilândia significa viver numa sociedade completamente inglesa. Meu pai era ministro  da educação da administração colonial. Na minha infância fazíamos expedições para tirar fotos  e saíamos para caçar cervos com meu pai, embora eu nunca tenha atirado em um animal. A idéia da caça  recreativa  nunca me atraiu , mas quero saber por que era tão importante para os colonizadores,e qual  era o envolvimento do povo africano .

Para entender um pouco dos primórdios do safári.

Um dos primeiros e mais controversos britânicos a aceitar o desafio foi Hugh Cholmondeley , o terceiro Barão Delamaire. Lorde Delamaire adquiriu 42 mil acres de terras próximas a linha do Equador em 1901, ele desembarcou do trem neste cruzamento e declarou que as planícies  ao redor seriam o local de construção de sua casa e empreendimento comercial, o Equator  Ranch. Vim encontrar com o professor David Anderson da Universidade de Oxford para saber como  Lorde Delamaire se tornou um parâmetro para os primeiros colonizadores .

Richard pergunta ao David: — Esta casa é original do Delamaire?

—Não, esta construção é mais moderna, mas é onde ficava a fazenda , bem no meio de tudo.

—Na sua opinião ele foi ousado, corajoso e aventureiro, vir para cá e comprar milhares de acres de terras desocupadas.

—É uma boa pergunta, porque quando se olha agora, pensa :Como fizeram isso?

—Ele chegou aqui praticamente sem nada e viveu por anos como miserável. Não se trata de um aristocrata rico que veio curtir a África. É alguém sem sorte com dificuldades que veio para recomeçar e trabalhou muito por isso.

—Como ele planejava lucrar  e o que tentou criar?

—Bem de início trouxe ovelhas, trouxe linhagens de Nova Zelândia, que depois morreram todas. Importou também rebanhos do Reino Unido e novamente de Nova Zelândia. Foi uma aventura incrível, porque nada deu certo. Mas além de empreendedor Lorde Delamaire era um entusiasta caçador. Criado sob os moldes  aristocráticos  britânicos  ele havia passado anos caçando elefantes para obter marfim pelo continente africano antes de se estabelecer na África Oriental Britânica. Mas para limpar suas novas terras da vida selvagem Lorde Delamaire levou a caça esportiva a uma polêmica.

—Como ele era visto?

—Era muito ambicioso e ativo. É uma história interessante, ele se envolveu em um debate com Sir Harry Johnston, um governador de Uganda. Ele escreveu uma carta terrível para a Sociedade Geográfica Real, acusando Delamaire de caçar com uma Gatling, uma metralhadora antiga, em cima de uma montanha, dizimando os elefantes. Delamaire sempre negou ter feito isso, mas Johnston fez um alvoroço por causa disso e logo de início manchou a reputação de Delamaire.

—É verdade?

—Pode ser, porque havia muitos caçadores exploradores nessa época , a maioria vinha em busca de aventuras e dinheiro fácil. Eles eram perigosos porque gostavam de se dar bem e estavam dispostos a explorar para se darem bem. E foi o que fizeram no Quênia.

 Sem dúvida Lorde Delamaire definiu os rumos da colonização não deixando a natureza interferir nos negócios britânicos. Para poder cultivar o solo africano iniciou-se um abate em massa dos animais de grande porte, isso virou uma experiência  agradável e esportiva ao importarem costumes  de caça. Alguns colonizadores até trouxeram cães de caça da Inglaterra e saíam pelas planícies africanas vestindo os tradicionais casacos  rosas ou vermelhos. Os colonizadores podem ter se sentido empolgados e felizes , mas também sentiam ter o direito natural de dominar e explorar todos os recursos e povos da África Oriental Britânica.

Em 1907, Ewart Grogan, figura conhecida da colonização açoitou três empregados na  estrada do Tribunal de Nairobi por assustarem sua sobrinha ao conduzirem mal o riquixá. Lorde Cranworth escreveu que explorava intencionalmente as tribos Massai e Kikuyu trocando itens sem valor por marfim valioso. Esta é a imagem do colonialismo que me deixa incomodado com meu próprio passado , diz Richard.

Mas para compreender melhor os primeiros colonizadores de gerações anteriores à minha quero conhecer os descendentes que talvez possam me dizer mais.

O primeiro é Tony Seth Smith, em sua casa às margens do lago Naivasha.

Richard:— Corrija-me se estiver errado, mas seu pai Tony, chegou aqui a 106 anos, então foi isso em 1904 se seu irmão mais velho veio um ano antes.—E porque veio  para cá?

Tony:—Acho que pela aventura, era uma da última fronteiras. O Canadá já havia sido explorado, assim como os EUA e a Austrália. Então para eles eram terras virgens.

Richard:—Você crê que eles achavam no direito de expandir o Império sem serem questionados?

Tony:—Até certo ponto, por ser um país predominante selvagem e primitivo eles achavam que levavam desenvolvimento e civilização. Eles tinha  moral sobre as pessoas que estavam aqui, mas não acham que sentiam que estavam roubando.

Richard:— Eu nasci e cresci na Suazilândia e meu pai sempre dizia que mesmo nascendo aqui, se você era branco era um estrangeiro neste país. Então, sempre tive a questão na cabeça sobre se eu tinha direito de ser dono de terras.

—Isso já passou pela sua mente Tony?

—Não, Quênia era uma colônia e Suazilândia nunca foi. Não era um protetorado, nós viemos e colonizamos este país. Nós os Britânicos e uns poucos de escandinavos, repartimos a terra ,pagamos por ela , não roubamos . Mas acho que pessoas como meu pai se questionavam se isso era justo com a África. Sempre ouvia falar:”Pobre africano está ficando com a menor fatia do bolo”. Mas é preciso lembrar que eles eram 1,5 milhões naquela época e hoje são 40 milhões. Quem critica  vê o país como é agora e diz “Como puderam pegar terras quando tanta gente e todos querem um pedaço” Mas, não era bem assim . É preciso analisar as coisas como era na época. Para os colonizadores do século 20 a natureza abundante e extraordinária não passava de uma praga no caminho deles e se livrar dela proporcionou a Tony sua primeira experiência de caça.

Era como arrancar ervas daninhas do seu quintal, acabava com seu trabalho se plantasse trigo ou criasse gado os leões comiam o gado,leopardos matavam as ovelhas, zebras e cobos dos juncais pisoteavam as plantações. Os animais eram considerados pragas naquela época. Por isso eram dizimados em terras de colonizadores brancos. Era um estilo de vida, a arma ficava à mão para proteger a colheita.

Richard:—Você  relembra a primeira vez que atirou em um animal?

Tony:—Sim , o primeiro dos grandes foi um búfalo no nosso trigal. Eu fiquei nervoso , devia ter uns 13 ou 14 anos,fiquei muito nervoso o coração disparou de euforia quando cheguei perto do animal que para minha surpresa tinha acertado.

—E qual foi a sensação após atirar?

—Eu acho que uma mistura de medo e alegria. A caça é isso você  tem que ter respeito em relação aos perigos  da natureza, mesmo que não tenha medo é necessário muito respeito. Tem quem critique nossa matança e o fato de sermos caçadores e gostarmos de caçar. Para entender tem que passar por isso.

A caça era parte da vida dos primeiros colonizadores brancos. Era um esporte que eles adoravam. Nas planícies africanas a diversão não tinha limites. Raposas e tetrazes eram fichinha comparado a isso. Caça em África Oriental  Britânica era coisa de homem. Rituais foram criados para saudar o caçador triunfante. Ele era fotografado com seu troféu morto. A cabeça e a pele eram removidos e preservados para que decorasse sua casa.

Na década de 20 a África O. Britânica Colonial tinha estabelecido nova e rentável indústria do safári. Turistas abastados vinham para as planícies africanas em busca de aventura e liberdade. Colonizadores estavam eufóricos com o novo estilo de vida africano. O safári era a engrenagem que movia sua existência. Mas isso logo seria ameaçado e a colônia  em ascensão ganharia a reputação de  se ser uma sociedade instável. Uma minoria se tornara incontrolável. Havia muita bebedeira e aventuras sexuais que tinha como palco o infame Clube Muthaiga. Tanto que era proibido entrar  com câmeras e até hoje não é permitido filmar em seu interior. Um historiador declarou que uma minoria estava denegrindo a reputação da Colônia , mas a turma apelidada de “The happy valley set” seguiu sem preocupar e essa moralidade mais solta se integrou ao safári. O esporte másculo tinha apelo sexual entre as mulheres e um nova geração de caçadores sedutores surgiu trazendo romantismo às selvas africanas. Um dos mais célebres foi  Bror ou Barão Von Blixen. Blixen era um aristocrata sueco criado na tradição de caça e foi retratado no filme “Entre dois Amores” de 1985. Continua no próximo post.

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