Incursão à Serra do Mar



 Tom Jobim escreveu no prefácio de seu livro “Visão do Paraíso”: “Desde a infância era a visão da floresta. A grande Mata Atlântica. Com suas verdes abóbadas por onde a luz passa deixando cair moedas de ouro. O mistério, esse segredo debaixo das folhas, que as cigarras denunciam em sua zoada de brasa ardente. Emaranhado de cipó.

A floresta chega devagar, úmida e silenciosa, com suas sendas azuladas. Mar de copas ondulantes abriga o pulo dos micos: canela, angico, jacarandá, canela, ipê, saboeiro, cabuí, jequitibá, pau cetim, pau-brasil, caingá, embaúba, quaresma, roxinho, sucupira, braúna, araucária, maçaranduba. O canto dos pássaros abre e fecha o dia. À noite patas macias e felinas transitam na escuridão. Os lobisomens, as mulas sem cabeça cruzam os caminhos em suas penações e sacis espiam do oco das árvores. Também ali vivem os curupiras furando a treva com seus pés virados para trás. E da clareira onde a lua pousa, percebe-se na sombra as chispas dos olhos dos bichos noturnos, arrepia e mata a gargalhada de bruxa agourenta da coruja rasga mortalha. Capivaras e tatus, preás e coelhos-do-mato saem de suas tocas premidos pela fome, sabedores dos riscos que correm.”

 Depois que Arnaldinho me contou todas aquelas estórias, brotou em mim um grande desejo em rever a mata Atlântica.

Assim, num final de agosto partimos para a Serra. Após viajar por quatro horas chegamos à cabeceira da serra.  Nada sabia sobre o acesso à casa do sitio que estava abandonado há mais de 2 anos.  Só na chegada soubemos que a estrada que corta o morro para atingir a casa à 350m do nível do mar, estava em péssimas condições.

O proprietário do sítio falou que poderíamos tentar subir os 4km de morro com a picape e, se não conseguíssemos deixaríamos o carro na estrada e seguiríamos à pé. Isso não me agradou muito, pois tínhamos bagagem para carregar.


 O único que poderia nos ajudar seria o Zé do Toyota, restava ver se ele estaria em casa.

Procuramos então o Zé, um sitiante acostumado com estradas ruins, dotado de criatividade única. Ele possuía uma picape Willys traçada com rodas traseira adaptadas do trator Tobata, que deixava-a bem alta, podendo assim enfrentar os buracos e os relevos irregulares da estrada.

O Zé se prontificou a nos acompanhar na subida da serra, mas iria com o carro tipo gaiola que montou ali mesmo usando mecânica Volkswagem com motor a ar com as mesmas rodas altas do Tobata. Completou o óleo e a gasolina da motosserra e carregou no carro gaiola.

Ele foi à frente. Engatei primeira liguei a tração e seguimos o carro gaiola. Juro que nunca enfrentei estrada tão ruim igual àquela, cheia de buracos e perigosa. O carro gaiola por sua baixa potência, creio eu motor 1.600 cc, tinha que andar acelerado, pois o torque é baixo.  Eles subiram na frente deixando a gente para trás. Vez por outra o Zé e o Arnaldinho nos esperavam no caminho. Certa hora tiveram que cortar com a motossera um tronco que jazia na estrada.


Chegando à casa, o Zé voltou com seu carro gaiola. Descarregamos as coisas adentramos à casa abandonada. Trocamos roupa e saímos, Arnaldinho, meu filho Mário e eu.

Fiz um croqui do local, marcando a casa, uma touceira grande de bambu e um córrego, defini o norte com uma bússola simples e seguimos.

O Arnaldinho conhecedor da mata foi à frente mostrando os locais onde já esteve, indicando a grande quantidade de palmitos cortados pelos palmiteiros criminosos, as grandes árvores os riachos,as bromélias, as orquidias.os xaxins e as quedas d’água. Alertando sempre a não apoiar nos troncos espinhosos, cuidar com o capim navalha e urtigas.

Assim subimos morros altos e descemos pirambeiras, tomamos água fresca e gelada nos riachos de água cristalina e respiramos ar puríssimo. Ouvimos o cântico da pomba do mato e de outras aves, vimos também na trilha o esponjamento da onça parda, que como o gato, puxa a terra sobre sua urina. Vez por outra tomava minha bússola e testava minha orientação e indagava para o Arnaldinho que lado ficava a casa. Ele sempre acertava a direção. Vez por outra ele também me testava, perguntando onde ficava a casa.  Quando estávamos voltando ele resolveu pegar outro atalho, daí fiquei perdido, já não sabia mais onde estava, quando ele me perguntava onde estava a casa e eu indicava do outro lado. Finalmente chegamos por trás da casa, por isso fiquei confuso com a orientação pela bússola.

Quando eu falava para Arnaldinho que a casa estava do outro lado ele me dizia: — Dentro do mato a bússola não funciona ela fica louca, o que vale é conhecer as trilhas…

Na verdade, o que precisa é ter um mapa do local, pois só com a bússola não é fácil se orientar.


Antes de chegar à casa, já na propriedade do sítio ele cortou dois palmitos cultivados que os palmiteiros não roubaram e levamos para casa. Colocamos na brasa com casca e deixamos assar.

O sol que quase não se via dentro do mato, já não mais enxergávamos, pois havia escondido nas montanhas da serra. Nessa hora os jaós, parecendo sirene, iniciaram seu cântico e os macucos davam suas despedidas do dia piando por três vezes antes de empoleirar.

A penumbra logo tomou conta do ambiente e ficamos à luz de velas e faroletes, preparamos um lanche e saboreamos o bom palmito assado.

 A energia que dispendemos em subir os morros, passar por troncos caídos e enroscar em cipós, consumiu toda nossa energia estávamos exaustos e fomos para cama às 19horas.

O sono foi reconfortante. Assim que apareceram os primeiros raios solares os jacus já cantavam em nossa janela. Às seis da manhã pulamos da cama e aprontamos para percorrer outra trilha diferente.

Descemos a estrada e, após uns 20 minutos adentramos ao mato novamente. Naquele segundo dia depois de um sono de nove horas estávamos mais dispostos e o Arnaldinho pegou duro. Subimos diversos morros íngremes, andamos muito e num determinado ponto paramos pra comer umas bolachas.  Nesse ponto o Arnaldo viu um pé de Brejauva. Imediatamente cortou uma vara deixando uma forquilha na ponta, enroscou no cacho de Brejauva e fez descer um cacho. A Brejauva é uma miniatura de coco e assim que aberto podemos saborear a água refrescante e raspar e comer a polpa do coco.

Conforme caminhávamos no mato íamos deliciando com os variados cheiros, assim tínhamos o cheiro característicos das plantas como também o cheiro almiscarado que invadiu nossas narinas pressentindo o carnívoro que deixou sua marca territorial.


Depois de longa caminhada resolvemos dar meia volta e pegar outra trilha mais leve a qual contornava o morro. Antes porém, paramos em uma enorme pedra que possui um avanço onde propicia ótimo abrigo natural de chuva e, além do mais brota ao seu pé uma nascente.

Descansamos um pouco ali e tornamos a pegar a trilha de volta. Arnaldinho questionava sobre a trilha, dizendo que parecia uma  estrada, uma obra da natureza de tão bem feita e que era.  Então disse a ele que essa trilha deve existir há mais de 100 anos e muita gente já passou por ali colhendo palmito, caçando ou procurando jazidas, assim sendo tomou aquele formato.

Continuando a caminhada, encontrei ao chão umas frutinhas de cor amarelada com muita polpa que me deu vontade de comê-las, pois seu cheiro e sua aparência eram convidativos, mas consultando o Arnaldinho ele me preveniu apontando que passarinho não tinha comido, provavelmente seriam venenosas.

 Uma cobra coral cruzou nosso  caminho , sempre que vemos cobra coral lembramos que existe a falsa e a verdadeira extremamente venenosa. Entretanto poucos sabem distinguir entre uma e outra, na dúvida temos que ficar expertos.

Mais à frente encontramos muitas amoras vermelhas do mato e viemos comendo-as. Logo pegamos a estrada. Porém, antes de chegar em casa tomamos um banho de gato no riacho, pois a água estava mais fria que entrar  num freezer.

Chegando à casa arrumamos as coisas rapidinho, pois começou uma ventania danada e nosso medo era que uma árvore caísse na estrada e deixássemos ilhados.

Felizmente descemos bem a temerosa estrada.

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