Jacaré no laço

Jacaré no laço

Hoje lendo o livro “Preparar apontar fogo!” do saudoso Synésio Ascênsio, ex-proprietário da extinta Revista Troféu, encontrei duas narrativas da expedição que ele e o Mesquita fez nos anos 70 no rio Araguaia em busca do lago da Saudade, denominação esta dada pelo explorador Gen.Couto de Magalhães no século dezenove.

Os aventureiros Mequita e Synésio e outros parceiros, acamparam na beira da lagoa da Saudade e lá fizeram muitas peripécias e se alimentaram somente da caça e da pesca. Dentre as embarcações que usaram os famosos barcos piracicabanos em alumínio estavam presentes.

Ao ler essas histórias reavivou em minha mente uma aventura que fizemos no Rio Negro, no Mato Grosso do Sul.

No ano de 88, reunimos uns amigos, dentre eles se fazia presente um negro humilde de Tietê, grande conhecedor de rio, que levava o apelido de Nhá Tusca.

Como os aventureiros da expedição do Synésio, também levei meu barco de alumínio piracicabano. Os barcos piracicabanos tomaram notoriedade por possuir um projeto bem fluidodinâmico que podiam ser conduzidos com extrema facilidade. Os primeiros piracicabanos foram feitos em madeira, principalmente em cedro e freijó, depois foram substituídos pelo alumínio, muito mais práticos, e podiam ser levados para qualquer canto. O piracicabano que mantenho até hoje, mais por recordação, foi fabricado por um especialista artesão que trabalhava no fundo se sua casa. Nunca me esqueço de que ele fazia questão de afirmar que o fundo do barco que produzia era com alumínio naval mais grosso do que os de fábrica. Realmente seu barco era muito bom e rendeu-me muitas pescarias inesquecíveis com segurança.

Com o caminhão baú preparado para pescaria chegamos a uma das pontes do rio Negro. O rio Negro recorta pastagens de gado sempre mantendo sua mata ciliar deixando ao fundo a serra de Maracaju. Estacionamos perto da ponte e ali demos início à pescaria. Soltamos o barco na água, coloquei o motor Yamaha de 15 HP, recém-adquirido, que havia comprado através de um amigo direto de Manaus. Liguei a mangueira de combustível, e como de costume premi a bomba manual de borracha para encher o carburador. Depois de algumas fieiradas o motor parte, mas logo adiante ele para repentinamente, bombeamos novamente, mas ele só andou mais um pouco e parou novamente. O sintoma era evidente, a bomba de gasolina do motor não estava puxando combustível. Assim, voltamos à margem e desmontamos a bomba. Deparamos com o que já era esperado o diafragma de borracha se deformou por causa do álcool que nosso governo adicionava à gasolina (ainda adiciona). Assim sendo, sem peça para reposição, tivemos que usar o motor de reserva do companheiro de pescaria.

O Nha-Tusca era o tarrafeador da turma, sua tarefa era servir os pescadores com iscas vivas que capturava com a tarrafa de isca nos lagos adjacente ao rio.

Numa tarde quente fui ajudá-lo a catar as iscas. No lago onde estávamos avistava-se a estradinha bem cascalhada de terra. Nisso passou uma viatura da polícia Florestal que parou, e um policial gritou de lá para o Nhá-Tusca:

—O que está fazendo aí? Você tem cara de coureiro hein! O negro quase ficou branco de medo. Nem sabia o que responder, e nem mesmo sabia o que significava coureiro. Então sem saber o que falar Nha-Tusca respondeu:

— Não sou nada do que está dizendo Sr, moro em Tietê e tiro areia do Rio. (Como se os policiais conhecessem Tietê) Então os policiais desceram da viatura e vieram conversar comigo. Perguntaram onde estávamos e se tínhamos pegado algum peixe. A resposta foi sincera– peixe nada.

Na verdade os policiais estavam na captura dos coureiros, que eram os predadores de jacarés do Pantanal. Os coureiros cometeram verdadeira barbárie com os jacarés, geralmente munidos da famosa “frobé” cal.22 abatiam o bicho à noite com um tiro no olho, tiravam o couro, somente da barriga, e descartavam o restante na água deixando ao sabor da correnteza. Nem mesmo a preciosa carne era aproveitada.

A jornada de pesca continuava sem saldo positivo, os anzóis abastecidos com iscas vivas e de qualidade não traziam nenhuma alegria. Barco que sobe e desce visitando os anzóis e nada de peixe. Já estávamos comendo arroz e feijão sem mistura. Os jacarés decoravam as barrancas do rio, todos com a boca aberta tomando os necessários raios solares.

Nós sem peixe, sem nenhuma proteína animal na cozinha estávamos na mesma situação de viventes de subsistência, o único recurso então eram os jacarés.

O TA. 38 de 6” da Taurus, que me acompanhava em todas as aventuras foi quem nos salvou.

Assim foi que nunca na vida comemos tanta carne de jacaré. Era cubos da carne do rabo de jacaré frito, macarronada com molho de jacaré, ou jacaré de panela.

Um dos amigos resolveu fazer uma experiência, partindo da premissa que se não tivéssemos com um revolver, como poderia apanhar um jacaré. Como ele era bom no laço resolveu tentar laçar um. Assim depois de muitas tentativas, pois ao chegar perto os jacarés pulavam na água, ele conseguiu laçar um e levar como troféu para o acampamento, que depois foi solto ao seu habitat.

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