Jorge Alves de Lima Jr

Na década de noventa vi um chamado na rede Globo para uma reportagem sobre um parque da África. Eu como inveterado amante da África e seus animais, prontamente aprontei uma fita virgem VHS e reservei para a gravação do programa.

Minha agradável surpresa foi que o repórter Ernesto Paglia tinha feito uma reportagem sobre o parque Tsavo de animais no Quênia e também entrevistou o nosso famoso Jorge Alves, por ter sido caçador africano mundialmente famoso.

Essa gravação guardei com maior carinho, pois aquele homem alto forte calvo, com marcante entonação de voz, de finíssima educação, mostrando aqueles troféus de patas de elefantes, chifres de rinocerontes, tornou-se verdadeiramente meu ídolo. Era o homem que gostaria de ter tido como meu guia de caça em África, se assim tivesse atravessado o tempo dos grandes safáris e evidentemente tido condições financeiras.

A aventura do Paglia começou pelo parque Tsavo , que tem mais animais e mais problemas com os caçadores ilegais. Andando pelo serrado africano do parque , Ernesto dizia como era fácil entender porque o parque Tsavo tinha o maior problema, pois a vegetação muito fechada, parecida com a caatinga do nosso nordeste,podia facilmente esconder alguém, até dirigir pelas estradas do parque era difícil, tanto que chegou a quebrar o retrovisor de seu carro.

Aqui em Tsavo onde há os maiores problemas com caçadores ilegais a guerra começa pelo alto, três aviões são usados na fiscalização do parque, a arma mais recente dos guardas .O chefe da guarda disse que os caçadores já mataram 50 elefantes em Tsavo só nos dois primeiros meses deste ano. A fiscalização do parque assemelha-se a uma guerra diária contra o inimigo que joga tudo para alcançar seu intento. O caçador furtivo vê o lucro do marfim , do chifre do rinoceronte e da pele do leão.O pequeno exército de “rangers” está do lado da natureza. São 60 homens para fiscalizar uma área igual ao nosso estado de Sergipe, nos últimos seis meses o governo investiu em jipes e salários, mas as armas ainda são, na maioria, desde o início do século.

A missão da patrulha aérea é localizar os animais na imensidão do parque, atrás deles sempre vem os caçadores ilegais. O piloto sobrevoa a margem irregular do rio Galana, lá embaixo pequena manada de elefantes vem à procura de água. A localização dos animais é transmitida à patrulha terrestre, os rangers avançam com cautela, cada arbusto pode esconder uma emboscada, a 1.5km encontramos a confirmação, os caçadores passaram por aqui protegidos pela imensidão do parque, deram o bote e fugiram sem deixar rasto .Esse elefante foi morto pelos caçadores ilegais a pouco mais de um mês e daqui a pouco tempo em algum lugar do mundo alguém deverá estar comprando um objeto de decoração com o marfim ilegal.

O Ranger disse que os caçadores ilegais agem depressa retirando as presas dos elefantes em pouco mais de meia hora, quando terminam só carregam o marfim, a carcaça de milhares de quilos de carne não é aproveitada. Hoje os caçadores ilegais de elefantes usam as armas mais poderosas do mercado como rifles americanos e soviéticos de repetição, permitem atacar uma manada e matar vários animais, isto está muito claro aqui, a menos de 10 metros outra carcaça de um elefante.

Mas nem sempre é dia de caçador, atrás dessa porta pesada a sete chaves no QG do parque ficam os tesouros tomados dos comerciantes de marfim. São 400 presas confiscadas pelos rangers a maioria são de elefantes jovens vitimas da ganância de caçadores ilegais. Algumas pequenas presas foram tiradas de bebes elefantes, a ganância dos caçadores ilegais não tem limites. Para o elefante o marfim serve como defesa, que ao mesmo tempo vem ser a desgraça do animal.

De volta de uma patrulha aérea o piloto, diz que prefere enfrentar os caçadores com esse HK G3 que portava ou o AK47, os mesmos que caçadores ilegais disparam até contra nosso avião.

Dando continuidade ao programa, Paglia entrevista o homem que caçava e hoje prega a proteção aos animais.

Um caçador profissional como este brasileiro que caçou mais de 20 anos na África acha que se a matança indiscriminada continuar a vida selvagem africana estará condenada a desaparecer.

Jorge Alves de Lima Jr saiu da áfrica há muito tempo, mas vive até hoje na lembrança dos grandes safáris que comandou. O caçador não se acha culpado da destruição da fauna africana e garante que profissionais como ele ajudaram a preservar os animais selvagens.

Na sala de troféus do Sr. Jorge, Ernesto observa presas de elefantes, patas e chifres de rinoceronte, um pé de elefante que na época foi um recorde mundial. Diz Jorge que de todos os elefantes que abateu na África um que merece menção, embora não tivesse grandes presas era enorme e pesava cerca de sete toneladas, um elefante desses com a tromba erguida conseguia apanhar um galho a 7 metros de altura.

Ernesto:- – O Sr. caçava por quê?

Jorge:- – Caçava porque era um profissional, vivi minha vida toda na África. Primeiro pratiquei a caça profissional ao marfim e quando se restringiu o numero que podia se abater, então passei a fazer a caça de turismo cinegético, como” White Hunter”, aonde participavam clientes do Brasil, da Europa e Estados Unidos , eu ganhava como empreendedor desses safáris.


O safári Kirongozi ficou famoso virou segundo nome de Jorge Alves de Lima, Kirongozi guiou centenas de caçadores do mundo todo como o milionário texano Bill Necley que mandou fazer um arco recurvo especial de alta potencia para provar que poderia matar um elefante com uma flechada. Com ajuda de Kirongozi comprovou a tese mostrada num filme. Apesar de kirongozi ter ajudado a matar inúmeros animais como este, ele acha que a verdadeira ameaça é a matança clandestina feita hoje na África.

Jorge:- –Eu como guia de caça, nunca permiti que nenhum caçador abatesse fêmea de qualquer espécie de animal e que não fosse um animal absolutamente adulto.

Ernesto:- –Como é que o Sr. define hoje o que faz um destes caçadores ilegais que dizimam animais como elefantes, rinocerontes,etc. onde é proibida a caça como no Quênia?

Jorge:- –O que ocorre hoje em dia na África é que os” poachers” caçadores clandestinos, eles não matam dizimam, usam até bazuca e metralhadoras e pegam esses animais que estão geralmente nos santuários, nos parques, são animais que estão acostumados com o contato humano, sendo assim uma presa fácil. A única maneira de se preservar a fauna seja da África da Índia, Tailândia ou mesmo no Brasil é que precisamos conscientizar a sua preservação, senão no futuro serão figuras de revistas.

Ernesto:- –Qual a memória, a lembrança, o registro que ficou desses 20 anos que passou na África?


Jorge:- –Meu coração ficou na África, se meus filhos cumprirem quando morrer quero que minhas cinzas sejam jogadas na África, não que seja mal brasileiro, mas sou mais africano que brasileiro, passei a parte mais importante da vida que é a mocidade e a vida adulta na África.


Dica: Caçadores de Marfim é um ótimo filme que mostra os caçadores ilegais de marfim.


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