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Lembranças de um caçador


Meu pai à esquerda e João Lazarin foto de 1969

Estes dias visitei o Sr. João Lazarin, que está com 88 anos. Foi grande amigo do meu pai nas caçadas e pescarias, ambos se davam muito bem e eram bons atiradores.

Logo que cheguei em sua casa, sentei-me e perguntei se ele teria alguma coisa para contar sobre caçadas que fez com meu pai. O Sr. João, embora com os dois joelhos com próteses ,tem boa aparência e aparenta muito saudável. Aquela pergunta apunhalou-o magneticamente, que sua face transfigurou em alegria e seus olhos brilharam intensamente. O Sr. João passou a contar da caçada que fez com meu pai próximo a Bataguaçu, numa região que hoje está totalmente inundada pelo lago do Paraná.

Numa manhã fria em que até os cupins estavam brancos de geada, meu pai que estava com vontade de omelete, partiu os ovos na frigideira e aquilo foi servido como café da manhã. Logo depois os dois sairam , João em companhia de sua famosa cadela Lila, que era uma daquelas que só faltava falar e meu pai, formavam a dupla. As perdizes foram levantando e as calibres 28 foram comendo solto; a do meu pai uma Pipper Bayard de cães expostos e a dele uma Boito mocha. Os exímios atiradores não deixavam mesmo as peças escaparem. Depois da colheita voltaram ao acampamento e ainda gozaram de outros caçadores que pouco tinham apanhado, tendo em vista que eram ruins no tiro.

Conta o Sr. João que a cadela Lila era excepcional, uma vez chegando num local para caçar , enquanto conversava com o proprietário das terras, pendurou a espingarda na cerca, junto com seus apetrechos de caça. Imediatamente a cachorra deitou ao lado. O Sr. João desafiou qualquer um , para que tirasse sua espingarda da cerca. Um dos presentes falou: — Cachorro perdigueiro são todos sem vergonha e muito mansos, eu tiro a arma. Quando chegou próximo da arma, a cadela mostrou os dentes e ameaçou pegá-lo. Além disso a cadela tinha a aptidão de entregar ao seu dono , qualquer coisa que ele derrubasse ou mandasse ela apanhar.

O Sr. João relata um outro episódio passado por ele: como seu serviço era colocação de bombas de água em sítios, era sempre requisitado para as fazendas. Uma ocasião foi convidado para ir até Rondonópolis colocar um sistema de aquecimento de água num fogão à lenha. Como sempre fazia, não deixava de levar sua companheira Lila e sua espingarda cal.28. Após executar o serviço, era a hora de verificar as galinhas do terreiro “perdizes”

Acompanhado do filho do proprietário, desceram para uma plantação de arroz num varjão. Chegando lá, como é costume de caçador experto, já foi olhando para o chão ver se tinha esponjados de aves. Para sua surpresa, estava repleto de fezes de perdizes nos lugares onde fizeram pouso na noite anterior.

Aquilo chegou até a arrepiar, pois era certeza que o local estava propício, até a vegetação estava na altura certa para caçar as galinhas. A Lila de imediato já apontou uma, e logo pulou, e foi para o chão, logo em seguida outra levanta e ainda sem abrir a arma derrubou com o cano direito. A Lila apanhou as duas de imediato. Assim sem ultrapassar 200 metros já tinha no embornal oito perdigões. O filho do fazendeiro foi pular um canal de irrigação do arrozal e distendeu o tornozelo e não pode mais caminhar . A caçada acabou, e o Sr. João teve que carregar além das oito perdizes,também o  seu companheiro até a séde.

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