©2019 by RECARGAMATIC.

Luna, cadela Setter-inglês


            Luna, fêmea de setter inglês tricolor, achava-se estacada na vegetação baixa das planícies uruguaias, seu perfil imitava uma lança, apontando para algo que ela mesma ignorava. Só sabia que a caça estava parada, pois a emanação permanecia derramando cheiro como um saco furado vazando o produto continuamente. Porém, assim que a emanação rareava ela dava uma corridinha e, seu nariz, novamente apontava para algo suspeito. Assim de corridinhas e paradas, fez com que a caça se cansasse e nós nos transformássemos em pura emoção. Nada mais cabia dentro da gente, a não ser emoção! Por fim, a última parada. Ela permanece estática, mastigando o nada, única forma de expressar a sua comoção! A perdiz selvagem alça seu voo espetacular, última tentativa de se safar da perseguição dos maiores predadores da terra: homem e cão! A sequência do magnífico espetáculo culmina no mais expressivo ato, onde a ave troca sua vida pela emoção do homem.  O homem, por fim, depois de se saciar de emoções rende seu póstumo agradecimento alimentando-se desse apreciado fruto do ar!

          Assim foi a primeira apresentação do primeiro dia de 2017 no paraíso das perdizes. Mas, a emoção não ficou só nessa amarração, tem mais: estávamos, Valdemar e eu a andar atrás e, muitas vezes até na frente da Luna, pois essa se petrificava tanto nas amarrações, que tínhamos que passar à sua frente para impulsioná-la a andar. Era a minha vez de atirar, a Luna seguia a perdiz, logo avistei-a altiva caminhando pelo chão, parecia ter seu tamanho duplicado, pescoço estendido, olhando pra nós e correndo. Nesse instante vem aquele temor de todo caçador de voo: ver perdiz no chão é errar o tiro na certa!   Nesse instante crucial vem à tona o pensamento de atirá-la no chão pelo temor de errá-la no ar, mas isso é contrariar o sentido esportivo! E, a perdiz voou e o chumbo colidiu com ela, a Luna desempenhou seu bonito papel, tanto na amarração quanto na coleta da peça, um espetáculo para poucos!

        À tarde nos reservou mais momentos inesquecíveis: após o Valdemar, meu colega de caçada, fazer um belo e desafiador tiro com sua cal.28, era minha vez. A cadela Luna, no seu modo compenetrado e sério de caçar, como sempre, não perdendo nenhum rastro, andou e ziguezagueou muito, finalmente pula uma bela perdiz, num bom ângulo de tiro. Não demora o tiro parte e interrompe seu voo. Nesse preciso instante salta outra e, para completar nossa felicidade vai ao chão também. Um formidável “doublé”! Cada vez que realizamos isso nosso ego se fortifica, pois sempre buscamos essa rara oportunidade!


  A formidável Luna agora se envereda por vegetação mais alta, logo vem à minha mente um perdigão. Sei que não posso atirar, pois é proibida a caça dessa ave no Uruguai. A Luna continua firme no rastro, a ave procura refúgio na macega alta tentando se livrar da perseguição, mas a Luna com seu faro infalível não perde o rastro. A ave, que até então eu não sabia qual era, alça seu voo magnífico–um perdigão–, seu rufar de asas soa para nós como um jato! Eu automaticamente, arma na cara, aponto em sua direção, enquadro-a no ar, seria um tiro certeiro, mas o gatilho não foi puxado! Um grito desesperador do mochileiro foi ouvido:—“No disparar!”

       “Um dia da caça, outro do caçador”, célebre ditado, se aplicou no segundo dia, não foi um ótimo dia, mas valeu, pois caçar sempre vale à pena!

        No entanto, o dia subsequente nos proporcionou espetáculo inacreditável, que até parecera estar no Uruguai de outrora. Desembarcamos na estrada, adentramos à fazenda e, após atravessarmos lavoura colhida de soja entramos num pasto com menos de um alqueire de terra. Enquanto o mochileiro foi até a sede da fazenda, nós iniciamos a caçada. A Luna não andava mais de 15 metros e apontava uma perdiz, foi o espaço mais salpicado de perdizes que vi até hoje. A cal. 28 do Valdemar cumpriu sua missão, mas por trás dela havia um bom atirador. Eu, com a semi-auto cal.12 com 28 gramas, de chumbo me diverti muito!


Uma caçada como a nossa pode-se dizer que é um evento completo, pois não só de momentos emotivos no campo ela é realizada, mas nos dias de convivência na aconchegante pousada do JP. O grupo bem sintonizado, com pensamento focado no divertimento, isento de disputas desgastantes, com brincadeiras sadias, só deixa boas recordações!

     Sexta feira, nosso último dia de Uruguai, o dia amanheceu chovendo, quando chove as planícies uruguaias se alagam por conta do terreno plano, e das boas terras argilosas, que demoram a absorver água. Desencantados com o dia, nosso pensamento  almejava o fim da chuva. Enquanto isso fomos à Trinidad  às compras e visitar algumas lojas. Na volta, a farta mesa do João Paulo nos aguardava, para mais um almoço. O tempo limpou e nos deu ânimo de enfrentar um pouco o campo molhado.  Assim, embarcamos na van e seguimos pela estrada à esquerda da pousada.  

       Entramos num campo de vegetação rapada, salpicada de touceiras de capim. A cadela percorre o terreno aponta uma e outra, mas voam longe, fora do alcance dos tiros.  Uma delas, a Luna amarra e logo vemos-a em passos apressados fugindo, eu corro e chegando próximo o Valdemar me fala:–espere que ela deixe o limpo e se esconda na touceira e você avança, foi o que fiz. A cachorra amarrou e ela pulou em ponto de tiro e caiu.

     O tempo corria rápido, a garoa molhava nosso corpo. Por cima  não paravam de passar bandos de  pequenas pombas em boa altura. Faço mira numa delas, bem à frente, e disparo, a pomba deu uma viravolta no ar e continuou, pouco à frente vai ao chão.

    Não faltou oportunidade para o parceiro com sua infalível cal.28. Vinham umas cinco pombas das grandes, asa branca, Valdemar levou sua estimada 28 à cara, deu o desconto devido, e ouvimos o estouro abafado pelo dia nublado da carga, e a pomba tomba espetacularmente.

    Encerramos assim mais uma temporada de Uruguai.

0 visualização