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Macuco moqueado



Era noite de inverno de lua cheia, convidado fui para comer um arroz com frango caipira, daqueles com a gordura amarela, carne firme e coxas de ossos compridos.

 Na casa simples do sítio, ao chegar já deparei sobre o fogão o apetitoso arroz com frango.

 Assim que nos fartamos com a substanciosa comida, acompanhada de bom vinho tinto e uma salada de alface orgânica, produzida a li mesmo, iniciamos um bom papo.

Desta vez   fiquei conhecendo o Arnaldinho, homem de seus quarenta anos, de estatura baixa, que morava ali por perto com sua família, mas tinha vindo do litoral de São Paulo onde residiu por muitos anos num sítio pegado à Serra do Mar.

Não sei se por timidez, mas o Arnaldinho quase não falava. Assim que ele me disse ter vivido próximo da serra, perguntei sobre os bichos do mato. Como o assunto lhe agradou, abriu a torneira onde jorraram estórias.

A princípio contou-nos que constantemente seus animais domésticos como: cães, galinhas e porcos eram atacados por onça suçuarana; até que um dia colocou seus dois cães ao encalço da fera.

A corrida não foi longe e, a onça empoleirou numa árvore. Ele, com chumbo grosso sentou um tiro no peito da bruta. A onça caiu do galho e os cães foram de dentes em cima.  A onça ainda com vida emendou uma patada na cadelinha que rasgou o couro da cabeça e fugiu meio cambaleante. O outro cão seguiu o rastro e logo ela empoleirou novamente. Assim falou:—Cheguei de baixo da árvore coloquei um cartucho com bala, mirei na paleta da bicha e puxei. A bichona estrebuchou, caiu no chão e os cachorros de dente em cima.Tava morta.— E agora que fazer?— Carreguei prá casa, tirei o côro, bem com calma, estiquei e sarguei. A carne também sarguei e por alguns dias tratei minha cachorrada com carne da onça.

E a conversa continuou animada, com uma roda de quatro pessoas ouvindo atentamente suas estórias.

Certa vez saiu para caçar no matão, levou sua mochila e a espingarda modelo pomba cal.28 que possuía na época. Para se alimentar levou um bexiga de mortadela, farinha, etc., pois pretendia ficar mais que um dia no mato.

 Afirmava que o local era um criadouro de macuco, até ninhos sempre achava. Caminhando pela trilha logo viu um macuco e no esbarro sentou a 28, assim segurou a ave. Seguiu seu caminho em direção à sua cabaninha improvisada. Chegando, a primeira coisa foi depenar o macuco. Enquanto depenava ia pensando o que fazer. Assim resolveu pegar a moela, o coração e o fígado do macuco, juntou com mais mortadela picadinha fez uma farofa e matou sua fome. Depois preparou um jirau alto sobre o fogo de lenha e pendurou o macuco pelos pés e foi tirar um sono, pois já estava escurecendo.

E o novo dia amanhece na mata, tudo é alegre ao amanhecer, as pombas do mato cantam, os macacos já começam a movimentação e assim todos os animais saúdam o novo dia. Arnaldinho meio sonolento bateu os olhos sobre o jirau e não deu conta do macuco que deixou moqueando.

Resolveu verificar o que aconteceu, notou que só ficou um dos pés do macuco pendurado, o fogo virou em cinzas e bem no meio das cinzas que restaram notou a impressão de uma grande pegada de um felino que levou seu macuco moqueado. Veja que onça folgada nem se importou com Arnaldinho enquanto roncava em profundo sono.

Uma vez saiu para a caça e logo que entrou no mato, novamente esbarrou com um macuco, com sua 28 pregou fogo. O almoço estava garantido. Continuou a caminhada pelo mato e notou um tatu galinha que fazia barulho nas folhas secas. Aproximou com cautela e mais uma caça foi para a mochila.  Quando chegou ao seu abrigo, no meio do mato, acendeu o fogo , fez um jirauzinho, e deixou moqueando pendurados meio tatu  e o macuco. Enquanto isso preparou a outra metade do tatu e comeu ali mesmo.  Descansou um pouco, escondeu a espingarda no mato, como sempre fazem os matutos, embrulhou bem o macuco, colocou no meio das roupas, a metade do tatu não teve muito cuidado de esconder. Logo depois deixou o abrigo em direção à sua casa. Quando estava quase chegando foi abordado por dois policiais florestais. Imediatamente eles indagaram sobre palmito, pensado que ele fosse extrator ilegal de palmito. Passaram então a revistar sua mochila, acharam dentro a metade do tatu e nem notaram o macuco.

Imediatamente os policiais acusaram Arnaldinho de estar caçando ilegalmente, mas ele com a desculpa na ponta da língua, disse que ficou  perdido no mato por dois dias e para não morrer de fome pegou o tatu num mundéu , comeu metade e o restante guardou.

Os florestais então falaram: — você escapou de ser preso por ter comido a metade do tatu, pois se estivesse com ele inteiro estaria preso.

 Aprendam aí que comer a caça muitas vezes serve como prova de caçador de subsistência.

Mas a boa estava por vir:

O patrão do sítio onde residia, lá na Serra do Mar, uma tarde trouxe seu filho Biólogo que trabalha com proteção de animais. Justo naquele dia a única mistura que tinha prá servir era um tatu galinha, como o próprio nome diz a carne se assemelha à da galinha.

O biólogo era protetor, mas não enjeitava a proteína de carne e, saboreando a iguaria do tatu questionou o Arnaldinho se ele havia matado com tiro. Ele imediatamente negou:—- Não dotô, eu saí pra riba no mato e a cachorrada topou com o tatu, e matou o galinha no dente, como ia perdê aproveitei e troxe pra comê.

E o biólogo ao morder uma coxinha do tatu deu uma dentada num objeto metálico que até estralou, e questionou: —Arnaldino, olha aqui o chumbo, você está é mentindo! E o Arnaldinho cínico como ele só, respondeu: —Dotô, acho memo que o Sr. mordeu foi a obturação do dente do cachorro que caiu na ora que ele mordeu o tatu!!!

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