Manhas de caçador indígena

Texto do livro editado em 1974 por Arlindo P. Zatti “Zatti,suas caçadas e suas armas”

Para quem como os indígenas, a caça é fundamentalmente subsistência, caçar, mais do que uma arte ,é função  vital. O valor e a utilidade de um silvícola reside na relação entre ele e a sua capacidade de caçar.

Desde pequeninos, os nossos índios são treinados pelos mais experientes caçadores da tribo. Andar pelos matos com a leveza dos felinos; perscrutar águas e distâncias com olhos de águia; ouvir ventos e ruídos com sensibilidade da gazela; exercitar músculos, e alcançar a resistência de um tapir, são metas de todo caçador indígena. Mas as suas habilidades cinegéticas não só restringem ao apurar dos sentidos e do físico, como se relacionam com verdadeiras manhas, constituindo uma complexa estratégia  de caça e pesca. Imitar pássaros e animais; preparar esparrelas; conhecer hábitos e preferências dos animais; localizar pousos, pesqueiros e bebedouros, são outras tantas qualidades dos grandes caçadores das nossas selvas.

Aprende a atrair o tapir,- a anta- de grande porte que lhe fornece carne e graxa em abundância, e a imitar, à perfeição, o piado do gavião pinhé, pequeno pássaro que cata os carrapatos do nosso proboscídeo.

O tapir acorre ao chamamento do pequeno gavião, quando então é caçado.

Os macucos, tão saborosos e tão ariscos, tem nos grilos, o seu acepipe preferido. Os indígenas, para atraí-lo, se escondem e acricrilam de forma a trazê-los perto, ao alcance de sua flecha.

O jacaré do qual comem a cauda que é-verdade seja dita- um excelente “pitéu”, é trazido às margens e ao alcance do arpão e da fisga, com o simples expediente de amarrar pedaços de carne e atirá-los ao rio para engodo dos sáurios  que pretendendo alcança-los, vêm à margem atrás da isca que é puxada, fisgando-os.

Os queixadas, que tem o hábito de ir e vir sempre pela mesma trilha, em busca de alimento ou pocilgas, são facilmente abatidos pelo caçador que se posta num tronco próximo, mais alto do que o porco selvagem, que não pode vê-lo por não poder levantar a cabeça acima da linha horizontal da visão, face a fixidez das vértebras cervicais.

O caititu, menor que o queixada, é curioso como o macaco. Ao pressentir qualquer perigo, a vara se recolhe ao covil (o queixada prefere o relento) e lá, após algum tempo , um deles assoma à entrada, para explorar as imediações. É quando duas ou três certeiras flechadas o abatem. Depois de retirado, os caçadores esperam um outro curioso, e assim, sucessivamente, vão abatendo quantos exemplares necessitarem.

Para encaminhá-los à toca, o homem imita o latido do cão, latido que muito os amedontra.

O mutum morre ao atender, pressuroso, o melífluo chamado da fêmea  amorosa, que o indígena imita com facilidade.

A imobilidade dos selvagens à espreita do peixe, que corre levemente submerso, é algo espantoso, capaz de causar inveja às próprias estátuas.

Rígido, como se fosse de pedra, o caçador com seu arco e flecha é, realmente, uma escultura No momento exato em que a presa cruza o ponto de alcance há, apenas, um leve retesar de músculos e o dardo, certeiro e mortal, parte fulminante. A seta, que é de bambu e flutua, indica o local onde o peixe se encontra, facilitando sua apanha.,

Ao pescarem o pirarucu, o maior dos nossos peixes de água doce, existindo exemplares  de mais de cem quilos, o caçador nativo desliza pelas águas com sua piroga, tão silente come se fora uma cena de sonho, e procura, à superfície, as borbulhas que indicam onde, sobre folhagens e aguapés, se encontra submersa a grande presa. Localizada e depois de uma aproximação longa, cautelosa e paciente , é fisgada.

Para capturar patos e marrecos, os índios cobrem a cabeça com um porongo adequado, com dois pequenos orifícios para os olhos e a respiração e , envoltos em folhagens aquáticas, se aproximam, tão sorrateiramente que não são pressentidos nem quando, sob a água, agarram as suas presas pelas patas, afundando-as para não fazer barulho, e para serem desnucadas.

Até as sucuris não escapam à caçada. Nos lugares onde abundam, os silvícolas amarram um pequeno roedor, geralmente uma cotia, e esperam que a grande serpente triture e engula a sua presa, para transformá-la, por sua vez, durante o processo digestivo, em vítima.

Enumerar artimanhas dos caçadores indígenas, que tocaiam onças, surpreendem jaguatiricas chamando-as com o pio do macuco, que usam flechas envenenadas, cascas entorpecentes para pesca, seria uma narrativa sem fim. Aduzo, apenas, que foi a dura necessidade da vida que ensinou ao nosso irmão da selva uma estratégia sem a qual não teria o suficiente para a sua pobre e desamparada existência. Bendita seja ela!

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