Matão


É com muito prazer que transcrevo o diário de aventuras no matão de um grande amigo , que ora está aposentado, bem longe do burburinho da cidade grande ,deliciando-se  com o ar puro e a simplicidade da vida no campo. ——————— Como descobri o Matão Dezembro de 1978, há um ano trabalhando como desenhista artístico numa editora, residindo dentro dos muros da mesma num quarto simples nos fundos, cercado por jardins e gramas. Vivendo sozinho numa cidade grande, longe do oeste de Santa Catarina e do aconchego familiar. Entediado com a mesmice do trabalho e da vida sedentária, resolvi procurar afazeres que viessem a ocupar meu tempo ocioso, dando assim mais qualidade de vida e satisfação. A princípio resolvi praticar ciclismo, mas com o trânsito horrível da cidade grande, que não respeita ciclista, após dois acidentes, abandonei o esporte. Certo dia, andando pelas redondezas, descobri a Serra do Mar, fiquei encantado com a beleza da diversidade de fauna e flora.  Sonhos de criança foram despertados, aventuras no mato, selva encantada cheia de mistérios. Veio em mente a ideia de construir uma cabana num local remoto da profunda mata tropical, onde ninguém pudesse me localizar.  Esse  meu intento veio dar um” Up” na minha vida monótona, passei a gastar meu tempo livre pensando, desenhando cabanas e me preparando para a nova atividade. À procura dum lugar ideal para a cabana Assim que saí de férias, depois de pesquisar muito, planejar e estudar a estratégia, munido de uma boa mochila um cantil uma boa faca e outras coisas, resolvi embrenhar no mato. Reservei os primeiros dias para explorar a mata e também pesquisar um local adequado para a construção da cabana. Aqueles dias de exploração fiquei estarrecido com a beleza da mata, onde pude ouvir diversos cânticos de pássaros, ora para mim totalmente desconhecidos. A beleza das flores que coloriam a mata, onde os beija- flores e borboletas sugavam o néctar, marcava um cenário espetacular. Já tinha em mente e no papel o formato da cabana e nessa primeira exploração fui delineando os recursos naturais que haveria de utilizar para sua construção. Assim permaneci quase 15 dias na mata alimentando exclusivamente de pão e banana. Quando acabava a comida saía da mata ia até o pequeno vilarejo de Paranapiacaba, que fica na encosta da mata, comprava as provisões e retornava ao interior da misteriosa selva. Meu objetivo era escolher o melhor local para a construção da cabana. Assim sendo, dum ponto situado duas horas de caminhada, que adotei como ponto de referência, fazia as penetrações. Dali efetuava as buscas em sentidos radiais, cada dia partia para uma direção, no entardecer sempre voltava para esse mesmo ponto. Seguindo esses rumos adotados, muitas vezes deparava com picadas de caçadores ou de palmiteiros, seguia a trilha ate´acabar e continuava na mesma direção, sempre marcando com o facão, cortando galhos, marcando árvores para não se perder. A preocupação de quem penetra sozinho na mata é grande em função de poder voltar ao ponto de partida. A exuberante vegetação, as formações rochosas, as tétricas grutas formadas pelas enormes pedras, as muitas árvores cobertas de trepadeiras floridas, tudo aquilo alentava minha alma.


Como eu passava sozinho a noite na selva Passava a noite num pequeno coberto trançado de folhas de palmito na encosta de uma grande pedra e perto de um poço de água cristalina. Não havia paredes laterais, sobre o coberto estendia sacos de lixo para estancar as chuvas. A cama onde dormia era um aplainado de terra onde estendia folhas de palmeiras e por cima colocava folhas macias e sobre tudo colocava sacos de lixo para isolar a umidade da terra. O clima da serra do mar é muito úmido e as chuvas eram quase que diárias. Os pernilongos e borrachudos espicaçavam o tempo todo sugando meu sangue. Nesses primeiros dias de penetração na mata tive sorte, pois as chuvas foram poucas. O verdadeiro clima da serra do mar viria a conhecer mais tarde. Eu adorava tanto aquele lugar que até as chuvas e os pernilongos se tornaram meus aliados. Explico: com o passar do tempo, após eu já ter minha cabana os caçadores passaram a seguir meus rastros, mas nunca conseguiram chegar, pois o local era mesmo difícil de atingir e por causa da chuva e da grande quantidade de pernilongos ninguém se aventurava. Mas esse pavor de perseguição marcou meus sentimentos e quando dormia em minha cabana, constantemente era assolado por pesadelos como: que estava cercado por chapeludos armados querendo me sequestrar e tomar tudo que tinha. Vez por outra sonhava que a civilização tinha alcançado minha cabana e o asfalto passava ao lado e podia ver as luzes da cidade. Tudo isso era o medo de perder tão preciosa conquista. Nos final dos quase 15 dias de exploração já tinha percorrido e conhecido vasta área da mata em todas as direções que adotei. Antes de completar os 15 dias consegui definir o local onde construir a minha cabana. O local ficava 4 horas e meia de caminhada dentro da mata. A estratégia seria não permitir que num só dia uma pessoa conseguisse ir e voltar sem ter que pousar no mato, a não ser que tivesse muitíssima experiência.


A congestão O final desses quinze dias culminava numa sexta feira, como já tinha escolhido o local para a edificação da pequena cabana, resolvi voltar para casa, mas permanecia a ideia de voltar na sexta. Tinha dois objetivos a perseguir, um seria convidar um velho amigo para me fazer companhia e o outro seria levar uma velha espingarda cartucheira que trouxe de Santa Catarina da casa dos meus pais. Assim que cheguei ao pequeno quartinho onde morava, apanhei rapidamente minhas coisas, tomei o primeiro trem que passou. Desci no meio do caminho e fui à casa do meu velho amigo Zezinho, experiente mateiro e caçador. Assim que adentrei à sua casa simples, já fiz o convite e o velho baixinho de 60 anos, imediatamente aceitou. O Zezinho tinha sido professor primário e mostrava boa cultura e conhecimento, além disso, era um bom contador de casos, que prendia o ouvido de qualquer um. Assim na mesma sexta rumamos para a mata adentro. Ele carregava sua pica- pau de carregar pela boca e eu com a cartucheira e mochila pesada de coisas, como: panelas colheres, fogareiro, bujão pequeno de gás, alimentos, etc. Após ter passado todos aqueles dias sozinho na mata, agora com um companheiro seria muito mais gratificante. Logo que adentramos a mata, o Zezinho fez ecoar a pica pau, a fumaça branca escondeu o alvo, mas logo despencou de cima da árvore uma pomba do mato. Assim nossa janta já estava salva. Andamos mais um pouco e outro estampido rompeu o silencio daquela tarde na selva, e outra pomba foi para o embornal. Assim que chegamos ao local onde iríamos pousar, ouvimos o piado de um inhambu, o Zezinho imediatamente tirou de sua bolsa de tiracolo um pio Coelho que havia comprado em São Paulo, em uma daquelas ruas próximas a av. Duque de Caxias, onde ficava a antiga rodoviária.Com sua experiência de assoprar o instrumento, a ave caminhava  em nossa direção inebriada pelo chamado. O Zezinho estava na minha retaguarda e eu na frente, preparei minha arma municiada com um cartucho e esperei num silencio total naquela tarde sem vento em que o sol já estava deitando e a mata ficando escura. Logo percebi que avezinha vinha oscilando a cabeça na minha direção. Levei à cara a velha cartucheira, firmei no ponto e desengatei o gatilho do cão num puxado suave. A ave só deu uma estremecida imediatamente ecoou na serra outro estampido tirando a calma da tarde silente. A janta estava mais que garantida. Enquanto eu cozinhava arroz com batatinhas, o Zezinho arrumava um lugar para dormirmos. Na hora da janta ele me advertiu para que eu não comesse muito, pois já havia dito a ele que tinha tido dores no estômago, talvez sendo porque tinha passado os dias anteriores só a pão e banana. Mas, a comida estava boa demais e mergulhei no prato. A noite enegreceu totalmente e nenhum sinal de estrela via-se por entre as copas das árvores. Acendemos algumas espirais espanta mosquitos e deitamos sobre a cama preparada de folhas e coberta com um plástico transparente apoiado sobre varas. Logo passei a sentir dores horríveis no estômago e a barriga a estufar. Na escuridão da mata, algumas vezes o silêncio era quebrado por ruídos estranhos que não sabia de onde originavam. Eu, acordado retorcia em dores horríveis no estômago. O calor reinante anunciava a mudança prá chuva, logo uma brisa suave balançou as árvores, os trovões e raios denunciaram a água que logo veio aos baldes. Barulhos de árvores e galhos que despencavam em consequência do vento eram ouvidos. Nosso ninho ficou todo molhado, o desconforto era total, mas logo a chuva de verão foi-se e o silêncio novamente reinou. Porém meu estado colérico só agravava, assim que sentava sentia tudo girar em minha volta. Às 5horas da manhã partimos, a jornada de retorno foi extremamente penosa, não estava aguentando, a subida da serra acabou comigo. A volta que deveria durar 4 horas demorou mais que 12horas! Chegamos à estrada de terra que leva à estação às 18h30min. Muito cansado, fraco, desidratado em função da diarreia, caí na beira da estrada e lá fiquei. Os veículos que passavam pela estrada não paravam por nada desse mundo. O Zezinho, vendo que aproximava uma caminhonete, saltou no meio da estrada com a arma envolta em panos, mantida por cima da cabeça com ambas as mãos, pulava na estrada sinalizando para que a caminhonete parasse. O motorista para, e a muito custo me embarca deixando o Zezinho no local me entrega para um policial na estação férrea. O policial me acompanha na viagem até o hospital em Santo André onde passei a noite. Continua na próxima publicação O conteúdo acima contém ficção.

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