Mola real ou mestra ou mola "V"

    Era jovem ainda, só tinha a Rossi cal.36 que usava às rolinhas. Naquela época, os jovens sempre eram introduzidos  ao esporte da caça com uma arma fina , essa arma era uma quarentinha ou uma trinta e seis.

     Meu pai guardava as armas num armário de madeira, que mandou fazer próprio prá isso, lá ficavam as cals.36 a Pieper cal.28,polainas, cinturões , facões, pios e outras coisas pertinentes ao esporte.

    A gente vivia sonhando com caçadas ao voo e só podia usar a 36 para tiros parados, a vontade de pegar uma 28 era grande. Então, vez ou outra, quando ele estava no trabalho eu abria o armário e empunhava a 28. Apontava para algum alvo pela parede, abria alavanca, olhava por dentro dos canos e sentia o cheiro característico das armas meio emboloradas, que ficavam por meses sem saírem do armário.

   Um belo dia, não me lembro, mas talvez no inverno, tirei a cal.28 coloquei o dedão no cão exposto do lado direito e puxei, nisso senti um estralo e o cão caiu para trás.   

  Aquilo foi um desastre, quebrei a mola da arma que era o xodó do Pai. O que fazer agora? Pensei: –em Cerquilho tem um armeiro de nome Teixeira, desmonto e levo prá ele fazer a mola. Foi o que fiz, fui até a oficina desse artista, que só tinha uma furadeira de coluna movida à mão, uma bancada e uma morsa. Juro que fiquei meio desacreditado no profissional, mas não conhecia outro. Passados alguns dias fui ter com ele a mola pronta. Coloquei na arma e fiquei quieto por uns dias, mas não aguentei e contei o ocorrido. Pensei que iria tomar um pito, mas que nada, ele falou:

— Venha cá que vou te mostrar uma coisa.

 Apresentou-me uma peça forjada em forma de “V” que ele mesmo fez, e me disse:

—Eu já tinha preparado esta mola, só faltando o acabamento, prevendo que um dia poderia quebrar a mola “V” da 28.

—Porque não me falou que eu faria a mola, não precisava mandar fazer.

—Essas molas quebram com a fadiga,algumas vezes sem mais sem menos, uma mudança de temperatura pode ser seu o fim.

  Assim aprendi mais algumas coisas sobre a mola “V”. Ele pegava uma mola helicoidal, ou outro tipo de mola no ferro velho, esticava e forjava aquecendo no carvão coque. Depois aquecia ao rubro, temperava no óleo de amendoim, que por sinal exalava um cheiro tão gostoso, limava uma parte para ver se não estava com extrema dureza, depois voltava ao fogo brando até que a parte limada pegasse cor dourada, não podia chegar ao azul. Assim estava  a mola temperada e revenida. Depois disso, colocava sobre um papel riscava com um lápis onde gravava certinho o ângulo do “V”.     

 Apertava na morsa os dois braços do “V” até encostarem e deixava um dia todo. Depois, tirava e comparava com o papel para ver se a mola não se deformou. Ela tinha que voltar na mesma posição anterior deixada no papel. Outro detalhe: ambos os cães tem que ter a mesma força, portanto sempre que se faz uma mola há que testar sua pressão.

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   As armas com fecho de molas em “V”, indiscutivelmente são tradicionais com toque de saudosismo, mas venhamos, algumas vezes dão problemas. Atualmente quase não se acham mais profissionais armeiros que executem com perfeição uma mola “V” e quando encontra quem faça, o preço com certeza será salgado.

  Felizmente, já há longo tempo foi introduzida a mola helicoidal para bateria das armas. A mola helicoidal é mais durável, mais difícil de quebrar. Se enfraquecerem, podemos até dar uma esticadinha nelas, que desempenharão mais um tempo sua função. Na mola helicoidal cada elo trabalha um pouquinho, que somados nos darão o trabalho total executado com eficiência. A mola em “V” trabalha só com os dois braços onde concentra todo esforço, fica então susceptível a maior possibilidade de quebra.

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