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O calibre 36

A espingarda calibre 36 é a namorada que você desejou tanto, mas quando conseguiu ficou frustrado.  É uma arma que até a designação do calibre não seguiu a nomenclatura oficial. A designação dos calibres nasceu da seguinte forma: uma libra de chumbo foi confeccionada diversas esferas, o numero de esferas obtidas é o calibre obtido. Assim o calibre 12 foi confeccionado 12 esferas de chumbo perfeitamente iguais, o diâmetro externo obtido da esfera é igual ao diâmetro interno nominal do calibre 12.

No caso do calibre. 36 é uma exceção da regra, assim: usando a fórmula para descobrir o calibre partindo do peso específico do chumbo, teremos então: diâmetro do cano 10,5mm que é igual a constante 42,8 dividido pela raiz cúbica do calibre, resultará o cal.67, portanto o cal.36 deveria ser chamado de cal.67.

Talvez o calibre 36 seja tão venerado pelo romantismo, pois em tempos passados era costume os pais que gostavam de caçadas oferecerem aos filhos a 36 como a primeira arma de fogo.

O cal.36 para usar na caça não tem muita eficácia, pois sendo um calibre muito fino, levando em consideração que em média dos cinco bagos de chumbo que acertam a caça só um é mortal, para a 36 resta pouca chance de abater a caça, já que leva pouca carga. Portanto a verdade é uma só: caçar é abater, então não devemos deixar a caça fugir ferida.

O cal. 36 pode ser usado nas propriedades rurais para afugentar aves de rapina ou controlar as pombas domésticas, etc. Serve também para caçada de mata, para abater juritis, pombas empoleiradas, rolinhas, e também para espera de paca. Para uso na caça de aves ou animais maiores ou ao voo não é aconselhado. Mesmo assim algum caçador não sabe se para desafiar a si próprio caçam ao voo com o cal.36. Já vi um amigo caçando perdizes com uma paralela cal.36.

 Já cacei codornas com o cal.36, a título de evitar barulho do tiro, pois o local não permitia, mas como a carga de fábrica era muito fraca, aumentei carregando com pólvora de queima lenta, aí deu na mesma o tiro saiu com ruído alto.

Meu pai usava uma cal.36, que ele mesmo fez, para atirar peixes na espera. O peixe que mais se atirava naquela época era o curimbatá. Procurava-se um local do rio onde fosse raso em que os curimbatás vinham lamber as pedras, arrumava uma árvore apropriada que o galho de empoleirar deitasse o mais perto possível da água.

Lembro-me, quando criança , que meu pai apareceu com um curimbatá enorme de quase 5 kg que tinha atirado com a 36 usando esferas de chumbo carregados nos cartuchos de metal com uma boa coluna de bucha.

As espingardas 36 causam um frisson nos caçadores, talvez por ser uma arma “slim” maneira, e se levar boa marca então o caçador se apaixona. 

Em nossa cidade existia uma espingarda da marca Beretta paralela cal.36m, mocha, creio eu da década de 50, essa arma era venerada pelo seu proprietário que nunca se interessou em vender. Assim a arma se tornava cada vez mais desejada, ofereciam somas altas pela arma, mas o proprietário mantinha-se irredutível. Não sei qual foi o paradeiro da arma, já que o proprietário faleceu.

O Bernardo de Castro em seu livro “Tiro ao voo” abomina os pequenos calibres, sobre o cal. 36 nem ao menos fala. Para ele o calibre apropriado para tiro ao voo é o 12 indiscutivelmente. Ainda diz que se for por causa de 500gramas a mais de peso da arma, então que desista de ser caçador e se for por economia não vale à pena, pois os calibres finos evidentemente matam menos.

O Oscar Cardoso em seu livro “A espingarda de caça em Portugal” também escreve que não tem nenhuma predileção pelo cal.36. e cita: “Famosos atiradores como Doc Carver e Annie Oakley usavam cartuchos .44-40 carregados com chumbo miúdo para partir bolas de vidro atiradas ao ar, o que produzia grande efeito entre a assistência.

Para maior eficiência, o cal.44-40 foi alongado dando origem ao calibre 44XL(Extra Long). Por sua vez, o .44 XL tomou a forma atual .410, com um comprimento de 65 mm.

Nos EUA o .410 tornaram-se muito popular, pois é um dos quatro calibres usados na modalidade Skeet. Alguns caçadores empregam-no na caça a codorniz a muito curta distância, aproveitando a grande dispersão causada pela deformação dos chumbos periféricos da carga. O 410 dispara 21 gramas de chumbo na sua versão de 3 polegadas”

No Brasil existe uma cultura que dá pra caçar com  o cal.36 colocando a munição de. 44-40 . Realmente atira, só que sem nenhuma precisão, pois o cano é liso!

Contudo, a 36 deixou muita recordação em minha vida de  caçador iniciante. O nosso mundo era muito pequeno, o local de passarinhar era nas plantações de café próximo à cidade onde habitavam as rolinhas. Na semana antes cuidávamos da preparação dos cartuchos de metal de câmara 65 e 70 mm. Primeiro calibrava os cartuchos num calibrador cônico que o meu pai usinou com todo capricho. Lubrificava com óleo as cápsulas e com um martelo pesado introduzia no calibrador e após retirava com um pino batendo de volta. Continuando retirava a espoleta com um objeto pontiagudo tipo sovela, introduzia a nova espoleta com martelo, depois a pólvora, que tinha a marca Brasil embalada num tubo cilíndrico de papelão, colocava então duas buchas espessas de feltro e finalmente o chumbo com uma bucha de cortiça e por cima pingava gotas de parafina com uma vela. Depois era só reservar as emoções para a caçada.

Acho que a mais famosa 36 brasileira foi a modelo Pomba monocano da Rossi, depois apareceu a Rossi mocha de um só cano, que era uma cópia da Beretta, também a Boito passou a fabricar, depois a Rossi lançou a paralela dois canos. Teve também a Rossi com dois canos tipo Savage, um cano 36 e outro. 22. A CBC também fabricou a espingarda cal.36, bem como a Boito e a Rossi fabricaram garruchões no cal.36. Atualmente a Boito fabrica a cal.36 ou .410 nas versões paralela e sobreposta.

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