O Chamado da África

“O Chamado da África” é o nome do último livro lançado pelo grande Caçador Jorge Alves de Lima Filho, Depois de ter lançado “In The Company of Adventure”,”Chasing the Horizon,e Big Five in Angola,o autor lançou dia 25 de agosto de 2014 o livro ” O Chamado da África” especialmente para o público português em língua portuguesa. Com muita honra participei do lançamento deste livro. O tempo pareceu ter  retrocedido, senti como se estivesse na festa de casamento de Karen Blixen com o famoso caçador Barão Von Blixen, ou num lançamento de livro do Hemingway ou Robert Ruark.  O clima  do lançamento relembrava meados do século XX época áurea dos grandes safáris, onde caçadores africanos se encontravam para contar suas aventuras. Famosos caçadores africanos relatados em seus livros como: Tony de Almeida, Rudy Bonfiglioli, Doca Street e Lourival Iorvolino (Mukongo) estavam presentes. O destemido caçador Jorge, que sempre respeitou a natureza e, que no passado enfrentou feras perigosas em África não perdeu sua coragem e enfrentou críticas infundadas de alguns leigos que desconhecem o verdadeiro ato de caçar. Proporcionou uma bela festa que foi previamente anunciada nos meios de comunicação. Quem se interessar na compra de qualquer livro do Jorge Alves de Lima Filho pode contatar o website  www.kirongozi.com

Segue abaixo um belo texto escrito por André Viana.



por ANDRÉ VIANA, DE GARÇA

Leões rugem ao crepúsculo. Sentado à varanda de sua fazenda, distante 450 quilômetros das luzes da metrópole, para os lados de Garça, no interior paulista, ele ouve o urro oco das feras. Está de olhos fechados e um discreto sorriso de canto. “Este som me faz pensar que nunca saí da África”, ele diz, sem perder a concentração. A luz diáfana do lusco-fusco desenha os contornos finos e ainda augustos de seu rosto. Alguém imaginou que os ralos cabelos brancos em sua fronte lembram as neves rarefeitas no cume do Kilimanjaro, uma das mais altas montanhas do mundo, no entroncamento da Tanzânia com o Quênia. A imagem não é gratuita. Antes de tudo, pelo décor que envolve ambos – o continente africano. Segundo, porque, no mundo dos white hunters, os caçadores profissionais que fizeram o século XX, seu nome figura entre os maiores – para não dizer o maior vivo. E não se fala aqui de sua altura: 1,90 metro. Terceiro, porque considerável é a idade da matéria de que são feitos – no caso dele, 80 anos, atingidos em 4 de junho último. Também porque as neves do Kilimanjaro dão título a um dos mais famosos contos de Ernest Hemingway, o escritor norte-americano que dedicou os últimos anos de sua vida às caçadas nas savanas. Jorge Alves de Lima Filho jamais leu um livro de Hemingway (prefere os de história e geografia aos de literatura) nem tampouco caçou com ele, mas com o filho, Patrick Hemingway. Jorginho, como este paulistano de Higienópolis é chamado na intimidade, já caçou com muita gente nas duas décadas em que viveu enfurnado, desgarrado, percorrendo no mais das vezes a pé o continente negro, no encalço dos chamados big five, os cinco animais mais perigosos da natureza, a saber: elefante, leão, búfalo, rinoceronte e leopardo. Claro, não necessariamente nessa ordem. Porque, Jorginho aprendeu, animal perigoso é animal vivo. Das milhares de vezes em que se viu face a face com seu mortal ganha-pão, calcula em menos de vinte as vezes em que passou real perigo. “Jamais raciocinei como gente, sempre como bicho”, explica, sucinto como um predador, o fato de estar vivo para contar a história. Talvez esteja aí o segredo que lhe rendeu a alcunha com a qual foi saudado nos anos 1950 como o maior caçador profissional do mundo: Kirongozi! Deu até nos jornais. “A estranha aclamação ecoou na tarde quentíssima, quando ia em meio o ritual singular, numa comunidade negra, em plena África Oriental Britânica [atuais Uganda, Tanzânia e Quênia]”, escreveu o jornalista B. J. Duarte para a Folha da Noite de 21 de agosto de 1956, ao explicar que Kirongozi, em suaíli, língua franca da África Oriental, quer dizer mestre caçador. “Os negros, naquele quase crepúsculo africano, deferiam pela primeira vez o título honroso a um caçador branco.” Corria naquela época o auge da fama de Jorge Alves de Lima Filho no Brasil. Muito graças a um documentário dirigido por Geraldo Junqueira de Oliveira sobre “o caçador brasileiro de fama mundial”, como anunciava o cartaz. Lançado em 1957, Kirongozi, Mestre Caçador promoveu nos cinemas de São Paulo quatro semanas de filas repletas de paulistanos curiosos a respeito daquele conterrâneo que, qual Rimbaud sem palavras, havia trocado o berço dourado de sua quatrocentona família pelo embate diário “na selva e nos bosques perigosos da África”. Para realizar seu filme, Geraldo Junqueira passou três meses à sombra de Jorginho pelo interior do Quênia, filmando cada passo do protagonista, cada diálogo com os locais, cada fera por ele abatida. Se exibidas hoje, as cenas da estranha e bárbara poesia das caçadas de Kirongozi promoveriam rios caudalosos de ecologistas a interromper, de braços dados, o trânsito das principais avenidas do país. Mas era assim, sem restrições morais ou políticas, a vida dos caçadores profissionais em 1948, quando Jorginho pisou pela primeira vez no continente com o qual sonhava desde o tempo em que seu pai importava dos Estados Unidos a revista Field&Stream, recheada de textos sobre viagens e aventuras na África. Jorgi-nho corria então pelos seis anos de idade. Nessa época, outra de suas distrações era caçar, munido de sua carabininha 22, tico-ticos na fazenda Guatapará, próxima a Ribeirão Preto – uma das maiores da São Paulo de outrora, vale dizer, propriedade do lado paterno da família, os Silva Prado, cuja matriarca mais famosa, em fins do século XIX, atendia pelo nome de Veridiana Prado. Não à toa, as primeiras cenas do filme que narra a história de Kirongozi acontecem no portão da casa que pertenceu a dona Veridiana, situada no início da avenida Higienópolis (avenida, diga-se, que viu Jorginho nascer, no número 212). É assim: o menino por trás das grades assiste à passagem do circo. Leões e tigres ferozes, elefantes do tamanho de um edifício desfilam diante das retinas do guri, que sonha um dia conhecer o lugar de onde eles vieram. Brotava ali, daquela marcha circense, sua paixão pelos animais selvagens. Mais tarde, essa paixão se mesclaria à descoberta da caça esportiva, uma tradição cultuada há séculos pelos nobres europeus, sobretudo os ingleses, durante os períodos eduardiano e vitoriano. Um esporte que, aprenderia ele depois, produziu na África do final do século XIX lendas como Gordon Eoualyn Cunning, William Cornwallis Harris e Charles Baldwin. Aquela criança citadina assistindo ao circo passar não podia imaginar, mas ela estava fadada a também virar lenda nos grotões africanos. Números não interessam Jorginho chegou à África só, aos 22 anos, na seqüência de uma temporada de dois anos na Califórnia, para onde havia sido, digamos, extraditado pelo pai como prêmio por uma juventude um tanto transviada. “Eu era um moço muito briguento, sabe? Tomava uns drinques a mais e aí já viu…”, justifica-se, quase seis décadas mais tarde, não sem algum sarcasmo. “Tanto que consegui ser expulso de todos os clubes de São Paulo.” Provável que houvesse aí alguma revolta de um “triste e desencorajado cidadão”, nas suas próprias palavras, contra a opressão da cidade em crescimento. O fato foi que, assim que desembarcou do avião em Fort Archambault, na África Equatorial Francesa (atuais Repúblicas do Congo, do Gabão, Centro-Africana e do Chade), respirou fundo e viu que os ares eram bons. Munido de sua fiel câmera Kodak Medalist e de um rifle Holland&Holland cano duplo, calibre 500.465, adquirida de segunda mão em Londres, logo iniciou o motivo que o havia levado àquelas paragens: disparar. Imagens e balas. Não necessariamente, uma vez mais, nessa ordem. De preferência em elefantes. Mas antes era preciso se ambientar. Travou, assim, conhecimento com alguns white hunters, fez bicos para um comerciante português por alguns trocados, ensaiou seus primeiros tiros em animais menos perigosos, deu os primeiros passos no que viria a se tornar fluente, o sango, pidgin usado por aqueles lados. Quando sentiu que dava, mirou para o sul, rumo às florestas e savanas de Bogangolo e Bossangoa, regiões onde, sabia, paquidermes davam em árvore. Com a ajuda de pisteiros nativos, pegou o rastro de sua primeira vítima e, sem conhecer seu paradeiro, seguiu-a por quatro dias. Uma hora, viu-se à distância do tiro fatal e não hesitou. Mirou no ouvido, mostrando assim preferência pela escola francesa, que procura o cérebro, abate certo e indolor, ao contrário da escola inglesa, mais chegada ao tiro no coração. Razão versus emoção, diria-se, não fosse o frenesi que se apoderou de Jorginho ao ver aquela massa corpórea esparramada por terra. Na ausência de bebida para brindar seu primeiro elefante, cortou um bife do ombro da besta, assou-o numa grelha improvisada e, sem se importar com a consistência borrachuda do repasto, comeu-o até o fim, sem tirar os olhos do troféu. O júbilo foi tanto, a identificação com aquele mundo selvagem foi tamanha, o dinheiro, sobretudo, adquirido pela venda do marfim foi tão generoso, que a temporada prevista para durar seis meses começou a estender-se sem horizonte à vista. Em 6 de outubro de 1953, surgiam os primeiros rumores no Brasil da existência deste excêntrico filho da terra. “A caça de 200 elefantes, 800 búfalos, 15 leopardos, 30 leões, 40 rinocerontes, mais de 100 hipopótamos e antílopes a perder de vista, eis o balanço da jornada de cinco anos em terras de África de Jorge Alves de Lima Filho”, noticiou José Tavares de Miranda, o colunista social mais influente de então. Na verdade, é de se crer que a única contagem certa no trecho citado seja a dos antílopes. O próprio perfilado afirma ter parado de contabilizar seus abates quando já não mais cabiam tracinhos na coronha da espingarda. “Adoram me perguntar quantos animais já derrubei na vida”, ironiza, com sua inocente rabugice. “Acho essa uma pergunta estúpida: números não me interessam.” Pano velho Para Kirongozi, mais que contabilidade, o que importa numa caçada é o durante. Um fair play no fio da navalha, pode-se dizer, já que, pela regra da floresta, caçadores também podem virar caça. “A emoção principia no momento em que se pega o rastro de algum animal”, explica Jorginho. “A partir dali, tudo pode acontecer.” O tempo e os nativos foram-lhe ensinando as artimanhas de cada bicho. Para seguir um elefante, por exemplo, urge não perder a direção do vento: ficar de costas para ele significa que o perseguido sentirá o cheiro de seu perseguidor. Já o calor do interior das fezes do paquiderme indica a distância em que ele se encontra. Marcas nas árvores mostram o tamanho do bicho – e, para bom olho, o peso e, conseqüentemente, o valor das presas. Leões e leopardos são mais astutos, mas poucos resistem a um suculento antílope com as tripas expostas. Agora, nunca, jamais persiga um búfalo ou um rinoceronte numa espinheira fechada. O caminho feito pelo animal pode ser o mesmo pelo qual ele retornará em disparada para cima de você. Caso isso aconteça, torça para que seja um rinoceronte: o búfalo o esfregará no chão com seus cornos até transformá-lo num pano velho. E sorriem Dez anos depois de sua chegada na África, os dedos de Jorginho já exibiam os calos de milhares de duelos bem-sucedidos. Graças à venda da carne, dos cornos, das presas e das peles, sua conta bancária já era considerável (para desgosto do pai, que desde o início negou-se a patrocinar o filho tresmalhado). Data dessa época o início das restrições políticas à caça com fins lucrativos. Mas já não havia problemas à altura de Kirongozi. Conhecido por suas destreza e coragem – “coragem é o controle do medo”, ensina – em praticamente toda a África negra, nosso caçador errante ganhou dos governos de Angola, Tanganika (hoje Tanzânia) e Moçambique áreas de concessão de caça, as chamadas coutadas, com o propósito de alavancar o turismo cinegético. Montou três empresas de safári, todas com retumbante sucesso pelo circuito Elisabeth Arden dos amantes da caça esportiva. “Na baixa temporada, meu trabalho era freqüentar, de portfolio debaixo do braço, as mais chiques festas da Europa e dos Estados Unidos em busca de clientes”, conta. “Conseguia uma média de seis por mês.” Em sua maioria milionários que não se importavam em gastar até 7 mil libras esterlinas (o equivalente a mais de 80 mil reais hoje) para, com toda segurança e conforto, caçar futuros troféus de parede pelos prados africanos. Um deles foi o empresário paulista Armando Conde. Aos 74 anos, ele lembra com saudade de suas duas temporadas de caça pajeado por Kirongozi: em 1964 e em 1967. “Jorginho era um excelente caçador, conhecia a natureza em seus detalhes”, elogia. “O que mais me chamava a atenção, porém, era o amor que ele tinha pelos bichos”, defende Conde, sabendo como amateur que, para leigos, caça esportiva é sinônimo de caça indiscriminada. Nada mais errado do que imaginar isso, explica Jorginho. Para ele, a maior conseqüência da caça indiscriminada é a redução da população de animais. Já a caça esportiva é seletiva, o que, além de não causar danos ao ecossistema, pode ainda ajudar a restabelecer a harmonia em regiões onde a natureza está desequilibrada. Não só. “A carne dos animais que eu caçava era sempre revertida para os moradores de aldeias que não tinham o que comer, sem contar as vidas que salvei ao abater leões comedores de gente.” Estes, claro, são os argumentos, digamos, politicamente corretos do homem. Porque Jorginho também gosta de sacar um outro, mais pungente. “Espero que os críticos da caça esportiva não sejam carnívoros, pois eles estariam sendo incoerentes”, diz. “E, se por acaso não o forem, precisam brigar também pelo fechamento de todos abatedouros e açougues do país.” Assim se vê que as críticas jamais abalaram Jorginho. “Os anos em que vivi na África foram os mais felizes de minha vida: passei fome, quase morri, mas viveria tudo novamente umas cem vezes mais”, declara, com o peso de quem não põe os pés no continente desde 1969, quando, em represália aos brancos que lá possuíam negócios, guerrilheiros ligados à independência de Angola invadiram, queimaram e mataram todos os empregados de seu acampamento de caça – isso três dias depois de Jorginho viajar a negócios. A notícia de que sua temporada africana havia chegado ao fim veio-lhe fria, por telegrama. Hoje, vivendo a maior parte do tempo em sua fazenda Kirongozi, comprada no retorno definitivo ao Brasil, esta lenda viva entre os white hunters aguarda ansioso a publicação de In the Company of Adventure, no qual narra em primeiríssima pessoa – e num inglês escorreito – as peripécias vividas nos 21 anos em que passou nos grotões da África. O livro, com edição limitada de mil exemplares, será lançado em outubro deste ano pela editora norte-americana Trophy Room Books (www.trophyroombooks.com). Enquanto a versão encadernada de sua vida singular não lhe chega às mãos, Jorginho distrai-se na frente do computador, onde passa uma média de dez horas diárias, revisando a versão em português de suas aventuras, ainda sem editora. No fim da tarde, Jorginho gosta de sentar na varanda em companhia de Lúcia, sua quinta mulher, com quem está casado há 16 anos. De mãos dadas, taça de vinho para ela, copo de cerveja para ele, eles ouvem ao crepúsculo o rugido oco dos cinco leões e oito tigres, todos importados dos Estados Unidos, que criam ao redor do casarão. E sorriem.

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