O cinturão costurado a mão

 A notícia correu veloz aos ouvidos dos aficionados da caça e das caçadeiras: uma espingarda que custou uma pequena fortuna, igual ao preço de uma caminhonete diesel da época, está em nossa cidade. Isso ocorreu nos anos 80. Um fazendeiro cheio de excentricidades, homem orgulhoso de sua saúde, que percorria todo o dia quilômetros pelas ruas com sua bicicleta inglesa Humber, e que a conservava como uma joia rara. Andava sempre bem trajado orgulhava-se da cinta de couro em sua cintura, com seus pontinhos miúdos feitos à mão por ele mesmo, que pareciam à máquina de tanta precisão. Era um exímio artesão em couro, gostava dos revólveres da Marca Colt, e sempre ficava olhando as horas, para mostrar que em seu braço tinha um Rolex.

Foi ele quem numa ocasião pediu-me emprestado o livro “Tiro ao Voo”, fez uma cópia e encadernou e se aprofundou na leitura. Ele já conhecia muitas armas, mas o livro revelou os grandes mestres das armas,e assim foi procurar o top das caçadeiras.

 Os amantes das armas, que curiosos iam a sua casa, desdenhavam a escopeta, pois, a não ser a caixa que impressionava, os trabalhos de cinzel eram miúdos sem relevo e não muito expressivos, nem chegavam perto de uma Sauer modelo 18. Perguntavam a si mesmo:- — Qual o segredo dessa espingarda para custar tanto? Mas nada sabiam da história da arma.

 A questão do valor é sempre a mesma quanto se trata de marcas famosas, como Rolls Royce, Ferrari,etc.

 Não foi o caso do meu amigo, que  comprou-a de segunda mão, mas quem encomendava uma arma daquelas na fábrica tinha que esperar um ano para ser fabricada, muitas vezes o cliente ia até o campo de prova da fábrica para que fosse confeccionada a coronha ideal para seu físico.

O que o Amantino tinha em casa era a arma apreciada dos reis, príncipes, xeiques, etc. ela saiu da casa James Purdey & sons da Inglaterra.

Quando fui apreciar a arma, pairou a preocupação: pego ou não nela? monto as partes e coloco a telha? Será que devo tocá-la em suas partes metálicas, mesmo sabendo que minhas mãos não possuem ácido úrico que enferrujam? Esse tipo de preocupação sempre foi constante em minha vida. Bem diferente daqueles que nem se preocupam em deixar suas impressões digitais nas armas dos outros, e que noutro dia brota a ferrugem tão indesejável.

 Um belo dia o proprietário desta Purdey chamou meu amigo, que era negociante de armas, colocou todas suas armas sobre um tapete, a maioria espingardas renomadas, e falou:- –Quero dispor de todas elas, mas que você as compre. Meu amigo respondeu:- –Não tenho dinheiro para essa compra. Então o dono das armas retrucou:- –você deixa um cheque no valor de 30mil dólares e fica com as armas por um mês, se vender tudo bem, se não me devolve. E assim ficou estabelecido.

O negociante tomou as armas e logo achou um milionário para oferecer Purdey, seu intuito era vendê-la por um bom preço, assim as outras ficariam de graça.

O negociante manteve contato com o já falecido e dono da construtora Camargo&Correia, Sr. Sebastião Camargo. Marcou e foi à sua fazenda no interior de S.Paulo. Chegando à fazenda teve que se identificar em diversas portarias, até que adentrou à casa principal. Lá o mordomo o recebeu dizendo que o Sr. Sebastião tinha recebido um novo avião e teria ido com a pessoa que o entregou até Foz do Iguaçu para mostrar-lhe as Cataratas do Iguaçu. Ao mesmo tempo disse que deveria espera-lo, e ofereceu  refeição trazendo o cardápio com uns 10 pratos para sua escolha.  Dessa forma ele fez a refeição, esperou mais um pouco e como o homem não apareceu decidiu ir embora e deixar a espingarda  para o Sr. Sebastião olhar.

Após alguns dias nosso amigo ligou à fazenda perguntando se a arma tinha sido vista, e a resposta foi que nem aberta a caixa tinha sido.

Nesse meio tempo o dono das armas ligou desesperado para o negociante dizendo:— Eu não sou acostumado a desistir de negócio, mas se você ainda não vendeu as armas eu pago o dobro para ficar com elas. O meu amigo disse que elas estavam na fazenda e se ele concordasse em pagar as despesas da viagem iria buscá-la. E assim trouxe a arma.

Quando o Sr. Amantino foi buscar as armas na casa do meu amigo , ele não cobrou a viagem, mas proprietário quis por toda a lei saber quanto meu amigo cobraria para desistir do negócio. Meu amigo disse que não iria cobrar nada, então na saída ele fez um cheque equivalente a 30 mil dólares e deixou na mão da filha do meu amigo. Quando ele soube ligou assustado para o Sr. Amantino querendo saber o porquê daquele cheque. Ele afirmou categoricamente que o cheque era para ser cobrado, pois pra ele não importava o dinheiro e sim as armas. Diante dessa proposta irrecusável, meu amigo só teve a agradecer.

Atualmente o Sr. Amantino, velho e debilitado, não possui mais nem as armas, nem os relógios,  somente a velha Humber que nem sequer olha mais prá ela.

Esse caso de apego me fez lembrar de um amigo arquiteto aposentado. Ele me contou que tinha alguns relógios de bolso Roskoff de coleção os quais ficavam expostos na parede de sua casa.

 Um dia um amigo  visitou-o e viu o pequeno relógio de bolso e ficou apaixonado pelo objeto:— Esse relógio é meu,disse o visitante ao arquiteto. Mas ele se negou a dispor do relógio, mas não teve como escapar, o homem enfiou o relógio no bolso e se foi.

Naquele dia o arquiteto não dormiu,  era muito apegado ao relógio. Assim sendo depois de passar uns dias amargos não conseguindo desapegar do relógio, teve uma ideia. Vou fazer um contrato em cartório rezando que se eu morrer primeiro meu amigo fica com o relógio, caso contrário eu fico com o relógio.

 Um dia, o arquiteto passando em frente a seu amigo, dono de uma lanchonete, que também é colecionador, contou sobre o caso do contrato. Este de imediato entrou no seu estabelecimento e voltou com um relógio Roskopf patente igualzinho ao que ele tinha dado. E disse que não haveria necessidade de fazer o contrato, pois aquele  relógio seria dele.

Nesse mesmo dia que o arquiteto contou essa historia , ele me disse que tinha uma coisa para me dar, e falou que era uma antiga revista Troféu que aparecia uma foto minha. Eu respondi que não precisava, pois tinha a dita revista, mas o que eu queria dele é uma ponta de flecha esculpida em pedra, das diversas que tem e que mantém junto com uns cachimbos indígenas que foram encontrados por trabalhadores que retiravam areia do rio Tietê.

Categoricamente ele me respondeu que aquelas pontas eram milenares remanescentes da época da pedra lascada e não podia me agraciar. Imediatamente respondi que se ele me desse a ponta com certeza iria receber outra como aconteceu com o relógio.

 Mas até agora não consegui a tão apreciada ponta de pedra, mas não desistirei.

Quase um mês após eu escrever este conto estive na casa do arquiteto que mantém sob custódia as pontas de flechas de pedra. O Sotovia estudou arquitetura em Portugal,mas há anos ele se aposentou e  hoje cuida apenas de seus hobbies. Sua casa fica na parte alta , onde se tem uma vista privilegiada  de nossa cidade. Ao adentrar à casa  observamos um monte de coisas, que a grosso modo assemelha aqueles acumuladores de coisas. Tem de tudo. Logo na entrada da sala já encontramos aquilo que  procurava–as pontas de flechas de pedras retiradas do leito do Tietê. Disse a ele que minha intenção era fotografar, mas se ele quisesse me presentear com a mais feinha da coleção eu ficaria bem agradecido. Eis que num gesto de amizade ele me ofereceu a que mostro na foto acima. Tenho muita admiração pelo trabalho de nossos ancestrais que sabiam esculpir em pedra com tanta habilidade. A pedra está polida pelo efeito da abrasão provocado pelo arrasto no leito do rio.

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