O perdigão de bico cravado!

Foi o tempo em que os caçadores gaúchos varriam os pampas às perdizes e às lagoas infestadas de marrecos, sedentos do arroz viçoso, que granava nos alagados do Rio Grande do Sul.

Naquela época, nós de outros estados morríamos de inveja e bradávamos: –Essa gauchada tem “saco roxo”, só eles conseguem abrir a caça! Todo o restante do Brasil era proibida!

Era o tempo de grande consumo de cartuchos, de vendas de espingardas, cães amestrados, enfim, o comércio movimentava e os esportistas da caça amadora sentiam se muito felizes, praticando seu esporte favorito. Nessa época despontavam os grandes colunistas de caça que marcaram época e agradaram muito com suas crônicas em semanários, revistas e jornais de caça.

Porém os ambientalistas tiveram mais força de convencimento frente a classe desunida dos caçadores e políticos desprovidos de apoio suficiente, com medo de perder votos, não conseguiram vencer os ambientalistas e proibiram a caça. O Rio Grande do sul, perdeu a tradição tão sedimentada das temporadas anuais de caça amadora.

Há muitos anos, nós caçadores estamos proibidos de exercer a caça, num país com diversidade de fauna, sem a devida exploração planejada!

Em 2019 entraremos numa nova era, algo mudou com as eleições, agora é hora de lutarmos unidos, através da grande quantidade de clubes de tiro surgidos nos últimos anos para a irrestrita abertura da caça em todo o país.

O motivo maior motivo deste “Post” é o de apresentar uma crônica impressa no jornal “Caça e conservação” de 1999 escrita pelo Dr. José Brugger- médico e caçador que faleceu em 30\06\2017.

Achei muito hilária a saída do caboclo em interpretar como uma perdiz, como que por encanto, some do focinho do cão, por mais mestre que seja!

O perdigão de bico cravado (Do Dr. José Brugger)

Quem é caçador e já andou muitos anos por este apaixonante pedaço de terra que é o nosso Rio Grande, e que em noites frias de geada no outono ou inverno tem aquecido no fogo do galpão os dedos que o vento minuano enrijeceu, certamente ouviu lendas e histórias interessantes. O que precisa é ter o ouvido atento a elas, como o faz meu amigo Luigi.

Saímos já tarde da noite rumo à fronteira: Bagé seria o nosso destino. A Toyota com seu barulho dificultava a conversa dos companheiros, todos com grandes esperanças e com a alegria própria de quem inicia um passeio cinegético. No reboque os cachorros em compartimentos separados, principalmente por causa do Kurzhaar Uff, que mesmo já velho não perdeu a mania de sempre brigar com outros machos. O Renato nos divertindo com suas brincadeiras e estourando uma lata de cerveja após outra.

Depois a conversa amainando, o sono e a madrugada chegando, e lá fora a geada branqueando o campo cada vez mais plano da nossa fronteira.

Após um café para acordar, e a costumeira largada dos cães que tem as suas necessidades como nós, rumamos para o nosso local de caça e encontramos tomando um amargo, o fazendeiro já nosso conhecido de outras visitas. “Amiguinho”, o apelido dele, como se não bastasse palavra melhor para qualificá-lo

Somente a paixão pelo campo, os companheiros, a amarrada dos cachorros e toda a natureza com seus encantos podem explicar que um cinquentão como eu, após uma noite mal dormida todo torto em uma Toyota, agora ande com uma Sauer 16 na mão ao lado dos cães pelo campo, se emocionando cada vez que salta uma codorna, como se fosse a primeira vê na vida.

A noite chega e após um churrasco e um vinho tinto, continua o bate papo entrecortado pelo mastigar de pinhões cozidos que gostamos de levar no rancho. E o assunto é o nosso esporte com todos os seus enigmas. Começamos a falar sobre o faro dos nossos cachorros, que sempre nos fascina, quando o Paulo afirma:

“Ora, é claro que a perdiz deixa o rastro pela respiração, tanto assim que quando tiroteada ela cai morta e o cachorro não acha, mas se ainda respira e se debate, então sim”. As dúvidas sobre o assunto trazem opiniões contrárias e favoráveis. Estávamos nesta conversa no acampamento quando chegam o Amiguinho com seu Sebastião de Bagé, que ainda para meu espanto confirma a história do Paulo.

“Perdigão é ave muita esperta e eu já vi coisas incríveis, como ele passar a nado por um rio para disfarçar, pois foi atirado do outro lado e estava todo molhadinho. Mas a sua defesa mais astuta, quando se vê perseguido, é cravar o bico no chão do banhado, para não deixar rastro pela respiração e assim tornar impossível a sua descoberta”

“Mas Sebastião, como é que você prova isto? Não pode ser, você viu?”

“De certo acharam o esqueleto dum perdigão com o bico cravado, que morreu nesta posição”, me diz o Paulo e acrescenta: “Tu não deves duvidar do que este pessoal do campo conta”

Bom, pensei, vai ver o Sebastião está brincando comigo, como foi aquela outra vez em Bagé, quando um peão na gozação me quis convencer que um perdigão embaixo do poncho por acaso, ao fazer a necessidade matinal na beira dum banhado em manhã de geada.

A noite avançou, o Cruzeiro dói Sul girou e a Via Láctea também. Os sonhos acordaram atrás das nossas pálpebras, até que o galo começou com seu “kikiriki” muito antes que gostaríamos de parar de sonhar. Fui ao campo, e lá num fundão com vegetação alta e aquela macega com cor de tijolo igual às asas do perdigão, com um boné verde musgo de abas largas, estava o Sebastião com seu cachorro de 13 anos, mas ainda em forma, dando voltas e mais voltas no mesmo lugar. Me aproximei e ouvi o Sebastião chamar:

“Doutor, venha para cá com seus dois Kurzhaar e ajude a procurar aqui. Pois tem um perdigão de bico “cravado”. Agora não era mais brincadeira.

“Mas Sebastião, como é que você sabe?”

“Ora, pelo trabalho do meu cachorro!”

Então era para valer mesmo. Fui na direção com o Uff e a Kinka. Levantamos uma codorna e os cachorros continuaram a cortar o campo. Será mentira? Ou será que perdigão com bico cravado nem faro escolhido de cão com pedigree acha? A história que contei é verdadeira.

E os companheiros, o que acham?

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