O puxar do cão


Hoje em dia tudo passa tão depressa, as novas construções despidas de arte num reto sem vida toma rapidamente conta de tudo. Os artistas de molduras, do ferro trabalhado, da madeira entalhada sumiram, restou a pressa em fazer. A vida se tornou mais curta tudo virou consumo.

Os jogos de futebol perderam a arte, hoje vale mais a força muscular que a técnica. Os jogadores se tornaram gladiadores que lutam até se esvaírem para render um espetáculo em prol somente aos bolsos enquanto isso os torcedores se digladiam.

A sofisticação da culinária está em alta, não que a comida aperfeiçoou, é a mídia que impõe vender aparências, pois os alimentos perderam o gosto. A carne já não tem mais sabor apreciável.

Tudo anda rápido, a tela do smart phone move extremamente rápido ao toque do dedo e você acessa tudo tão rapidamente e, perde a paciência se alguma coisa demorar a abrir. As postagens no facebook devem ser exíguas, pois se o texto for longo ninguém lê. O homem está insaciável pelo consumo. Ele quer consumir tudo rapidamente sem medida.

A humanidade está doente, ela sofre de SPA “Síndrome do Pensamento Acelerado “A maioria dos jovens hoje em dia sofrem dores de cabeça e não dormem bem. As escolas não dão mais formação, criam robôs para enfrentarem vestibulares para galgarem um emprego e se tornem ávidos consumistas.

Lá se foi o tempo em que saíamos para o mato com uma cartucheira de cão e pacientemente procurávamos um local para esconder. De posse do pio que pausadamente assoprávamos e absortos pela natureza ao redor sentíamos a vida passar lentamente. Tudo era lento, a ave vinha devagarinho ao som do pio. Nossa quase imobilidade só era quebrada na quietude dos movimentos para se posicionar melhor, pois a perna imóvel quase em câimbras carecia de melhor posicionamento.

O simples gesto de puxar o cão da espingarda era cercado de emoções, só era feito assim que a eminência do ato fosse concretizar. Ao puxar o cão advinham pensamentos como: será que o clique metálico do cão ao engatar o gatilho não irá espantar a ave. O pensamento evoluía no imprevisto da situação e as perguntas duvidosas divagavam em nossa mente. Era o sabor da aventura da paciência, e não da pressa. Havia que esperar o momento preciso com a maior calma, não cabia ali a ânsia descontrolada de consumir. O ato da caça também era um treinamento para a vida. Saber como se portar pacientemente sem dar lugar para o consumo exacerbado.

Quem trata os caçadores de assassinos e covardes tem que refletir sobre o exagero do consumo. Celulares, mais que carros, trocam de modelos a todo instante. Há que se pensar que a cada modelo novo de algo que se cria o lixo progride, e muitas vezes com caríssimo armazenamento. Sem falar na grande quantidade de energia que é gasta ao trocar os modelos das coisas. Todo esse consumo representa um rapto dos bens naturais e renováveis da face da terra e o puxar do cão com certeza num futuro próximo os habitantes da terra nem se darão conta que existiu.

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