O que as capivaras pensam do Rio Tietê


O rio Tietê até Barra Bonita é ainda poluído, segundo levantamentos atuais, suas águas estão com menos oxigênio que anos anteriores. Leva a crer que o tratamento de despoluição em S.Paulo e outros municípios por onde ele serpenteia deixa a desejar.

Recentemente captei algumas fotos de capivaras no rio que corta nossa cidade, e ensaiei adivinhar seus pensamentos:


“Para quem não me conhece, vivo na barranca direita do rio Tietê, defronte a uma bela cidade. Como todos nesta cidade têm apelidos, eu também não deixei de ter o meu: “Soneira”. A bem da verdade eu gosto de fechar os olhos e divagar. Hoje, lindo domingo de outono, logo pela manhã recebo a visita de um gavião que veio fazer faxina em meu couro, retirando os carrapatos que tanto me molesta. Ele faz este serviço gratuitamente e eu fico muito agradecida. Sinto-me tão bem que nos devaneios chego a dormitar um pouquinho.

Sabe, estive pensando como vivo agora e como viviam meus antepassados. Meu pai conta: meu avô falou que ouviu do bisavô, que ouviu do meu tataravô, que a vida era bem diferente antigamente. Disse que naquele tempo os nossos antepassados sofriam um pouco com os predadores, como a onça, e também o homem que era seu maior predador. Mas, diziam que viviam com muita satisfação, o rio era alegre, cheio de vida, peixes pulavam a toda hora; na época da piracema, então, os peixes embolavam e roncavam, assemelhando-se a uma orquestra onde a percussão era feita pelos sons das rabadas dos peixes na água. Não havia essa tal poluição, o rio cheirava peixe e nós nadávamos com maior prazer; nadávamos grandes distâncias para conversar com nossos colegas, e comíamos os tenros rebentos dos capins sempre verdinhos de suas barrancas. É, comparando com a vida dos nossos antepassados chego a pensar que era melhor ser perseguida por predadores do que ter uma vida limitada. Como vocês podem ver, o rio em que vivo, quando está baixo é fétido, a barranca fica enegrecida, a água nunca chega a ficar limpa, sempre com nódoas de óleo. Nós ficamos limitadas, quase nunca entramos na água, pois faz mal para nosso pelo e couro. Quando chove e o rio enche, aí sim é que vemos o que os humanos fazem com nosso ambiente. Eles lançam milhares de garrafas pets e lixo nos rios. As pequenas árvores nos barrancos ficam embandeiradas de restos de filmes plásticos, Como vocês podem ver, até nosso pirralho está dormindo embalado por uma garrafa pet, pensando ele ser um brinquedinho de ninar.



Soube também através dos meus antepassados que antigamente o rio era cheio de barcos de pescadores, o rio era piscoso e fornecia alimentação saudável para muita gente, hoje não vemos nenhum pescador. Só vemos movimento no rio, no final de ano, quando o rio recebe muitos barcos, alguns grandes, cheios de homens com roupas idênticas, e ao entardecer escuto muitos rojões, um barulho enlouquecedor para nossos ouvidos. Dizem que este movimento todo é o Encontro do Divino. Trata-se de um acontecimento religioso importante para a cidade, por isso respeitamos muito.

Encerrando meu devaneio, pois tenho que ir procurar um capim fresco e limpo para o almoço, deixo meu recado para os humanos: deixem de consumir tanto, o mal maior deste mundo atual é o exagerado consumo. Pensem antes de consumir”.

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