Os Búfalos de Marromeu


Esta narrativa autêntica, passa-se em Setembro de 2007 em Moçambique. Há já alguns dias no acampamento-base situado na margem esquerda do Zambeze, perto de Xupanga, saímos pelas sete da manhã. Destino: acampamento número dois instalado na antiga Coutada14, ainda do tempo que Moçambique era colônia portuguesa, considerada uma das melhores para a caça de búfalos, devido às grandes manadas que ali existiam.

Depois de breve paragem para almoço e compra de mantimentos em Marromeu, regressamos à estrada e atravessamos as várias dezenas de quilômetros de uma plantação de cana de açúcar. Aí chegados, fomos recebidos pela proprietária da concessão de caça, uma senhora sul-africana, e por um dos seus caçadores profissionais.

Após apresentações e cumprimentos de praxe foi-me mostrado o acampamento. Logo à entrada uma placa em madeira por cima de duas cabeças de elefante enormes com os dizeres “Kunguma”, que em língua Sena significa “Bem vindos”

No estacionamento ressaltava à vista duas velhas viaturas, ainda no ativo, um jipe em uma “Berliet” do antigo exército português com o logotipo do acampamento nas portas.

A noite caía e fomos para a roda da fogueira falar sobre os preparativos a caçada da manhã seguinte. Foi me explicado pelo Caçador Profissional sul-africano que havia duas maneiras de caçar os búfalos naquela reserva: uma, irmos diretamente a uma zona de mata densa onde possivelmente seria mais fácil encontrar um velho solitário; outra, seria tentar caçar um bom macho numa das grandes manadas que havia na região, mas esta última teríamos que estar em boa forma física, pois poderíamos caminhar algumas dezenas de quilômetros, a pé, por terrenos difíceis. Embora a primeira opção fosse a que dava menos “trabalho” e mais garantias de êxito pela qualidade do troféu, escolhi a segunda porque me contaram que seria a caçada “a antiga” daquelas que se faziam quando foi construída a estrada de ferro entre a cidade da Beira e Marromeu, no início do século XX, quando era preciso “caçar” um ou dois elefantes e cerca de três dezenas de búfalos diários para alimentar os trabalhadores. Eu estava em boa forma física, pois nos últimos três meses tinha feito caminhadas diárias de vinte quilômetros em marcha acelerada, portanto essa parte não me preocupava. Despedimo-nos cerca das vinte e um horas e combinamos tomar o café da manhã às quatro e meia da madrugada.

Fui deitar-me no meu bangalô, mas não conseguia dormir. Apesar do vinho do jantar ter 14 graus e da cama ser muito confortável não parava de dar voltas na cama, sonhava acordado com o dia seguinte, era o dia, “o tal dia” pelo qual esperava tantos anos…Contudo adormeci. Acordei, liguei a lanterna, olhei o relógio marcava quinze para as quatro. Que chatice, pensei, ainda é tão cedo, não se ouvia o mínimo de barulho no acampamento, sentia-me como se tivesse dormido dez horas. Olhava a minha CZ 550 Magnum calibre 416 Rigby equipada com uma luneta Zeiss 3x9x42, comprada especialmente para aquele momento; ao lado, duas caixas de balas, uma Norma TXP 400 grains Soft Point e, outra Nitro Express WR 410 grains Solid, os binóculos com telêmetro, um pequeno canivete suíço e uma máquina fotográfica. Não podia esquecer de nada, tinha deixado tudo pronto antes de me deitar.

Dirigi-me ao refeitório às quatro e meia, a manhã estava um pouco fria. Já lá se encontrava o P.H. que me acompanhava desde que tinha chegado ao acampamento base sul-africano. Falavam do estado de saúde do meu P.H. que de há três dias estava com um ataque de paludismo, pelo que o sul –africano lhe dizia: “não se preocupe vou arranjar um bom búfalo para o seu cliente e vai correr tudo bem”. Com pouca vontade sabendo perfeitamente que não iria conseguir naquele dia acompanhar uma caçada daquelas em tais condições físicas o P.H. se rendeu à evidência e ficou no acampamento.

Depois do “breakfast”, dirigimo-nos às viaturas, onde já se encontrava um mundaréu de gente, eu o P.H. e os seus três pisteiros num veículo, nos outros dois mais três pisteiros do sul-africano e sete carregadores, éramos quinze ao todo.

Não queira acreditar no que os meus olhos viam, parecia uma excursão, nunca tinha ouvido falar que para caçar um búfalo fosse preciso tanta gente.  Mais tarde viria entender o porquê.

Saímos do acampamento cerca das cinco já com alguma claridade, não tardaria o nascer do sol. Poucos quilômetros andados, o nosso veículo afugentou um bando de galinhas de Angola que estavam dos dois lados da picada e também diante de nós, com seus gritos e alaridos.

Um pouco mais à frente, do antigo jipe do exército português, salta a roda traseira do lado esquerdo, tinha-se partido o eixo e as molas. Sem peças suplentes nem ferramenta adequada para resolver a situação pensei que teríamos que distribuir os homens pelos outros dois carros. Estava enganado, o condutor disse que iria tentar arranjar. Foi cortar um tronco e entrelaçar umas folhas com as quais fez uma corda e disse para irmos andando que já nos apanhava. Não estava crente no que dizia, e muito menos em ser capaz de colocar a roda a andar. Seguimos pela picada que não tardaria a acabar. Defronte, encontrava-se agora um mar de capim com amis de dois metros e meio de altura. Nisto, salta um pisteiro para cima da capô do carro com uma vara na mão para nos indicar o caminho e o PH, liga o acelerador de mão. Íamos a navegar naquele mar com motor engrenado em segunda marcha, mas com rotação elevada. Andamos assim cerca de dez minutos e por fim saímos do capim alto. Finalmente chegara ao paraíso úmido e pantanoso das planícies de a Marromeu.


Cerca de um quilometro e meio volvidos, depois de sairmos do capim, já em terreno completamente aberto, estacionamos junto a um pequeno riacho, cerca das seis horas. Assim que toda gente ficou pronta o PH. Chamou um carregador da sua confiança e disse-lhe para me levar a carabina e ser a minha sombra. Começamos a andar e qual não foi o meu espanto, fomos diretos ao riacho. Não queria acreditar, não tinha saído do jipe nem há um minuto e já tinha água pelos joelhos. Isto prometia…

Seguimos em coluna com três pisteiros na frente seguidos pelo caçador professional e por mim, vindo atrás o resto da comitiva. Vau após vau, fomos andando… Já estava todo molhado pois nos locais mais fundos enterrava-me até a cintura, a lama já tinha entrado nas botas e nas calças, mas na verdade não sentia qualquer incomodo, talvez porque nunca paramos de andar ou pelo meu estado de excitação pelo que estava a sentir: o som das aves, o cheiro da terra, tudo me fascinava! Intervalada no tempo fazia-se uma pirâmide de três pessoas, pondo se de pé em cima dos seus ombros o P.H., que, com ajuda dos binóculos procurava as manadas de búfalos.

Cerca das nove fizemos uma paragem para almoçar e descansar um pouco. Entretanto chega o condutor mais o resto da equipa que ficou a arranjar o jipe. O P.H. perguntou se o carro estava pronto ao que ele respondeu que estava estacionado ao lado dos nossos. Nem queria acreditar!

Voltamos à marcha e ainda não tinha passado uma hora quando vimos a primeira manada de búfalos, cerca de trinta animais. Depois de observados não se encontrou nenhum que se enquadrasse no nosso


objetivo. Continuamos e fizemos mais uma pequena paragem para observarmos uma manada de cinco elefantes sendo dois relevantes: um pelas suas presas e outro pelo seu tamanho. Entretanto, mais além, outra manada de búfalos, esta também sem nenhum bom exemplar. Surge então a primeira complicação: os pisteiros que seguiam à cabeceira para nos proporcionar os melhores trilhos e para evitar os vaus e ribeiros mais fundos, atravessaram um onde a água lhes chegou ao peito. Atolados não conseguiam voltar para trás e eu, já com água pela cintura, ao tentar-me virar-me para voltar para trás, fico com o pé preso na lama. Em desequilíbrio caio ao lado. Valeu-me a minha sombra que me agarrou no momento exato. Sorte a minha tinha acabado de colocar a máquina fotográfica embrulhada num saco plástico dentro do bolso da camisa.

Procuramos novo trilho e lá fomos ter com os pisteiros que só não tinham lama na cara¹ Mais uma vez foi feita uma pirâmide agora com resultados positivos. Foram avistadas duas manadas bastante grandes que estariam a cerca de uma hora de nós. Enfim, era o que procurávamos!

Fizemos a aproximação pelo meio das duas manadas, mas ao chegarmos mais perto vimos que um rio nos separava da que estava à nossa esquerda, e que só o poderíamos transpor três ou quatro quilômetros mais acima. Como tal, viramos toda nossa atenção para a manada mais perto e que teria mais de duzentos animais.


A manada continuava a sua caminhada cada vez mais devagar, pausadamente. Restava esperar que parassem para descansar, o que vira acontecer um pouco antes das três da tarde. Tinha chegado o momento! Apenas eu e o P.H. iriamos fazer a aproximação, pelo que, sem qualquer tipo de vegetação, fomos rastejando até cerca de cem metros dos animais. Com tudo pronto para escolher a posição do animal para poder dar um tiro limpo, eis que os dos “Dagga Boys” se envolvem numa luta. O barulho que faziam com os cornos era impressionante e assim estiveram durante vinte minutos que me pareceram horas. Nisto o P.H.sussurrou:” sabe ainda qual é o animal”. Sim e o da esquerda, respondi. “Então prepare-se, quando estiver pronto dispare” Confirmei pelos binóculos, noventa e dois metros. Levantei-me muito lentamente, tentei controlar as batidas do coração e a respiração e consegui ainda o


domínio dos nervos. Apontei ao coração e disparei! Em simultâneo a manada começou em debandada, numa correria louca, era impressionante o barulho que faziam, sentíamos perfeitamente o tremer da terra… Os meus olhos não se tiravam do “meu” búfalo que tentava acompanhar a corrida dos outros, mas em vão! Corria muito mais devagar, até que, ao fim de cerca de cento e vinte metros, estancou. Segundos depois, caiu para o lado! Entretanto, o P.H. disse para irmos recuando apressadamente mas sem nunca virarmos a cara aos búfalos. Estes, que caminharam todo o dia em coluna ou menos compacta, corriam agora à desfilada, alargando muito e aproximando-se de nós perigosamente. Dois três minutos depois estava tudo acabado e pudemos apreciar o meu Primeiro búfalo! Fizemos a aproximação por de trás e uns dez metros antes o P.H. disse-me para lhe dar um tiro na coluna, ao que eu respondi; “mas está morto” e ele retorquiu: “já vi muitos búfalos mortos levantarem-se”


Nessa altura percebi o porquê de tanta gente: do búfalo apenas sobraram as ossadas para os abutres, pois até o bandulho carregaram! Ao fim de poucos minutos estava tudo acabado, sacos de cinquenta quilos à cabeça e mochilas cheias. Havia que regressar depressa aos carros, pois não tardava a ficar escuro, quando chegamos já era noite cerrada. Chegamos ao acampamento às vinte e uma horas, já estavam todos preocupados, pois não era habitual as caçadas terminarem tão tarde.

Esta caçada está relatada no Livro “Coletânea Literária Cinegética”, livro editado em Portugal , ilustrado com desenhos do famoso artista Francisco Charneca. Este conto foi vivenciado pelo Caçador  Paulo Santos que me enviou as fotos e me  concedeu autorização de publicação em meu Blog.

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