©2019 by RECARGAMATIC.

Os irmãos Luan e Luís


Há pouco mais de dez anos estive na fazenda dum amigo no município de Sorriso. Estacionamos debaixo das mangueiras frondosas das fazenda, sob o calor causticante do verão norte mato-grossense. Em frente à casa de madeira onde residia a família Castro levantava o costumeiro vento carregando a poeira fina e branca do chão árido do pátio.

Não me lembro bem se ainda havia o chico, o qual vivia no cercado da casa. O cateto se arrepiava todo, dobrando de tamanho quando via um cachorro. Chico, oportunamente deixou o cativeiro quando por ali passara uma vara de porcos.

 A família Castro era composta do pai, esposa, o adolescente Luan e o pré adolescente Luís. Assim que conheci-os senti forte empatia pelos garotos, que se mostravam interessados, atenciosos e brincalhões.

 O patriarca Castro, trabalhava com inseminação na criação de porcos que o Maculan, proprietário da fazenda, havia recém iniciado. Os moleques iam para escola na cidade que distava 30 km, e após, tinham tempo livre para outros afazeres.

O Luan e Luís, possuíam uma espingarda de pressão, creio uma CBC, toda detonada, mola fraca e sem miras. Porém, em sua coronha haviam sulcos, gravados com faca, contando as rolinhas e pombinhas que eles haviam acertado.

Uma tarde, eles resolveram mostrar a destreza que tinham com aquela arma de pressão movida a mola. Convidaram-nos para participar da pratica de tiro ao alvo com a cal.4,5mm. Colocaram na boca um punhado de chumbo e passaram a atirar numa tábua. Interessante era, que eles atiravam instintivamente, pois a espingarda não possuía nem alça nem         massa de mira, e por incrível que pareça davam show em nós que não tínhamos a menor prática com tiros instintivos.

Os meninos, quando tinham tempo, saíam conosco para as aventuras pelos campo, matas e lagos para pescar. Como disse eram muito atenciosos, brincalhões, enfim uma presença muito agradável e “pau para qualquer obra”

 Um fato marcante ocorreu com o Luís. Eu havia amarrado minha cadela Princesa no pé de uma mangueira, o Luís, passando em frente da cadela, com um canudo de papelão, aproximou-se da sua cabeça e emitiu, através do tubo, um som semelhante ao mugido de boi. A cadela que era muito dócil, nesse instante se rebelou e quase pegou o menino. Depois disso o Luís não podia mais passar perto dela, pois ela rosnava. Fiquei surpreso, já que a cadela nunca havia avançado em ninguém, era excessivamente mansa.

Mas, o mais interessante de tudo isso, foi que no ano seguinte, o Luís, nem se deu conta do que que havia acontecido e foi acariciá-la, assim que se aproximou a cadela rosnou feio e quase mordeu-o. Interessante como o animal não esqueceu a passagem do ano anterior.

Após a segunda vez que estive na fazenda, a família se mudou, pois o fazendeiro encerrou a criação de porcos. Assim, nunca mais tive contato com a família Castro.

Anos se passaram; com a advinda do Facebook, acabamos nos encontrando novamente, agora virtualmente!

Luan hoje, um homem casado, profissão Cuteleiro,fato que me deixou muito orgulhoso em saber que está conquistando seu espaço com grande esforço.

Contou-me o Luan um resumo da sua iniciação na cutelaria. No início achava bonito os formatos de facas, assim   passou a recortar pedaços de ferro e fazer facas, mas sem tratamento térmico, nem mesmo as empunhaduras colocava.

 Após sair do emprego onde trabalhava, passou a empenhar mais no desenvolvimento das lâminas, coisa que lhe dava muito prazer, sempre tendo apoio dos pais, aos poucos foi evoluindo e comprando algumas ferramentas. Disse ele, que começou o trabalho sob dois limoeiros do quintal da casa, onde possuía limas e um esmeril para executar a arte. Pesquisava muito na internet sobre as técnicas de cuteleiro e os segredos da têmpera. A faca que deu start em sua profissão foi uma skinner , a qual agradou seu tio que acabou comprando-a. Aquilo foi uma vitória, sentiu firmeza e auto estima, partiu então, com fé, para a profissão de cuteleiro.

 Luan, tem sua oficina montada bonitinha, seu canal no youtube.  Luan, demonstrou, em suas mensagens uma poderosa força, tanto na marreta, como para vencer seus percalços da vida.  Atualmente atende o Mato Grosso e outros Estados com suas lindas peças.

Já o Luís, quando eu lhe perguntava o que desejaria ser quando crescesse, ele me respondia que gostaria de trabalhar como o Richard com animais selvagens em frente às câmaras de TV. Ele não partiu para a biologia como o Richard, mas o sentimento amoroso pelos animais fê-lo seguir a

profissão de Treinador de cães. Hoje  é muito conceituado em sua profissão e está sempre inovando, para proporcionar um ótimo relacionamento entre homens e animais.

Sinto que de alguma forma (talvez por força do pensamento) ajudei esses meninos a se transformarem em homens realizados profissionalmente.

Ambos atendem em Sorriso e tem suas páginas no facebook, Luís Castro adestramento canino e Castro lâminas artesanais. Parabéns aos dois!

2 visualizações