Os lobos


Quarta parte

“Os Lobos”

Naquela época do ano calhava sempre chover na serra nos finais de semana, mas a chuva não vencia meus animos, estava sempre pronto para mais uma empreitada de aventuras.

 Como escreveu José Pardal: “A febre da aventura e a embriaguês do perigo são estados de espírito próprios dos homens e que exercem sobre ele forte solicitação. Sempre foi assim e sempre continuará a ser”

O colchão havia ficado na caverna dos morcegos, assim no primeiro final de semana que saísse o sol iria apanhá-lo e levá-lo para a cabana provisória.

Foi num sábado de tempo bom que apanhei o primeiro trem, e às 8 horas da manhã já estava na caverna onde deixei o colchão.

O dia estava ensolarado com azul vivo, parecendo ovo de macuco. Os feixes de luz que penetravam por entre as frestas das árvores faziam resplandecer o verde profundo das folhagens.


 A Araponga, com seu trinado martelava a bigorna intensamente, imitando o Ferreiro, como assim também é chamada. O Gavião Miudinho, voava em volta procurando sua presa, o pica-pau tamborilava os troncos à procura das larvas de insetos.O Tucano de bico verde pulava de galho em galho à procura de frutas silvestres.


 Os pernilongos eram de amargar, tive que me untar de repelente . Assim que retirei a espingarda de cima do colchão vi a dois metros de mim dois olhos vermelhos que me fitavam. Não tive dúvida era um daqueles lobos que uivaram na boca da noite. Só via um, mas tinha certeza que vários me cercavam.  Este com a boca arreganhada, de onde pendia baba viscosa e caninos ameaçadores. Engatilhei bem devagar a espingarda de um cano, sem movimento brusco apontei em sua direção. Estava tão perto que sentia a catinga do animal predador. Puxei o gatilho e o estampido ecoou na mata silenciosa. A fumaça da pólvora turvou minha visão, nada mais vi na escuridão. Troquei rapidamente o cartucho, tomei uma vela e com muito cuidado verifiquei o local. Temia que subitamente o animal ferido me atacasse, mas a carga atingiu o chão e nem sinal de bicho.

Tomei um tronco de madeira podre, coloquei ao lado da cama e sobre ele uma vela acesa, alem dessa outras estavam acesas ao meu redor, parecia um corpo sendo velado. Temia ser acordado com uma matilha de lobos cravando os dentes em meu pescoço. Boa parte da noite permaneci acordado com a espingarda na mão atento a qualquer ruído.

A canseira era tanta que sem notar caí em sono profundo e só fui acordar com o som dos pássaros anunciando o novo dia.

Início da construção da cabana.

Para mais uma ida à cabana consegui a companhia do Walter, que trabalhava na mesma empresa que eu. Era um homem forte, alto, ruivo, calmo e bastante simples. Falava pouco,não se preocupava com o perigo,topava qualquer coisa era uma excelente pessoa.

Chovia muito, mas não importávamos trabalhávamos só de calção arrastando troncos por lugares dificílimos. Ficávamos cobertos de lama, totalmente molhados, atolávamos no barro com troncos nos ombros, mas tudo era divertimento.

Derrubamos duas grandes arvores para servirem de sustentação da estrutura da caverna, os troncos eram tão pesados que não conseguimos tirar do local.

Durante a próxima semana combinei com o Walter, o Werner e o Milton, porém o Walter não pode ir. O Werner descendente de alemão, homem muito forte praticante de halterofilismo levou três correias de couro de 2 metros cada. Passávamos as correias atrás do pescoço e agarrávamos com as mãos o tronco. O Werner, mais forte agarrava na parte traseira a mais grossa, o Milton no meio e eu na ponta do tronco. O Werner dava um grito e todos ao mesmo tempo impunham força e arrastávamos um pouquinho, um dia todo durou para arrastar um só tronco. No outro dia arrastamos o outro. Procurei não cortar nada da vegetação onde a barraca seria construída para manter a naturalidade, como também manter o local escondido. Mais dois finais de semana conseguimos montar a estrutura da cabana.

Como empregado, sempre agradecia a quantidade de feriados que emendavam o final semana, pois sempre me enfiava no mato.

Tinha um colega que trabalha comigo, chamado Juarez, na época ele tinha 30 anos e sempre convidava para passar um final de semana na mata.

Nesse feriado prolongado ele topou ir, mas quando chegou na hora, disse que não podia mais; novamente fui sozinho.

No domingo à noite quando cheguei à firma, fiquei sabendo que o Juarez tinha sido assaltado dentro de seu carro. A bala disparada pelo bandido passou rente à testa do Juarez e atingiu em cheio a cabeça de sua noiva, ela ficou três dias na UTI e depois veio a falecer.

No próximo final de semana o Juarez quis ir comigo para o matão, ele estava muito abatido e triste, mesmo assim levou o violão. O passeio iria melhorar sua depressão. Trabalhamos mais um pouco na nova cabana,e a  noite tocamos e cantamos muito.

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Nota: O Guará, maior canídeo brasileiro, erroneamente chamado de Lobo, vive nos campos é um animal arisco e covarde, alimenta-se de pequenos animais e aves como também alguns vegetais e frutas. Ele não tem nada a ver com o Lobo verdadeiro da Europa, embora de porte semelhante ao Guará, este é mais corpulento afoito, vive em matilha, e ataca qualquer animal, até mesmo o cavalo e o boi, chegando até desrespeitar o homem.

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