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Paixão pelas "caçadeiras"

Moleque ainda, já frequentava os “armeiros”, que na verdade não eram propriamente armeiros, pois faziam de tudo, consertavam desde panelas de cozinha até peças de arados. Uma ocasião, eu, como sapo, nome dado a aquele que fica observando outro trabalhar, presenciei uma cena que nunca mais esquecerei. O Sr Consorte, em sua pequena oficina, prendeu na morsa, que por sua vez estava numa bancada de madeira, um cano de uma espingarda de antecarga para trocar o ouvido (parte onde se coloca a espoleta para deflagração). Tentou, tentou não conseguiu soltá-lo com chaves, assim sendo, tomou o maçarico e iniciou o aquecimento para ver se facilitava a soltura do ouvido. Eu, próximo da cena, levei um grande susto: um estampido inundou o pequeno cômodo, a bancada elevou-se do chão, meus ouvidos ficaram ensurdecidos. Atônitos conferimos se estávamos vivos! Felizmente por grande sorte, nada de ferimentos. O Sr. Consorte, por inexperiência ou negligência não verificou antes se o cano estava carregado. O proprietário da arma tinha carregado e não conseguiu detonar por problemas no ouvido e mandou para conserto sem avisar o armeiro que havia carga. Com o aquecimento do cano, a pólvora inflamou e o tiro saiu. Por sorte ele havia colocado o cano com a boca para baixo e a chumbada se deu próximo aos nossos pés. Meus conhecimentos e meu gosto pelas caçadeiras constantemente iam progredindo, muita coisa aprendi com meu pai que fez diversas delas.  A primeira 36 da Rossi que ganhei,quando ainda jovem, foi meu primeiro contato com coronha. Achei muito rústica a coronha de fábrica, tomei uma grosa e fui afinando, depois de lixar, consegui ainda fazer um zigrinado no pistolet e na telha. Finalizando, um banho de verniz de goma laca, que resiste até hoje. O design mudou totalmente e eu orgulhava da monocano. Com o passar dos anos tornava-se mais e mais interessado nas espingardas e sua fabricação, os catálogos da Beretta eram para mim uma joia, aquilo me causava êxtase. Assim que iniciei a fabricação das prensas de cartuchos de caça, tomei conhecimento da existência do livro:” Tiro ao Voo” de Bernardo de Castro. Passei então a perseguir o livro, naquela época não existia internet, teria que procurar nos sebos. Por diversas vezes procurei em S.Paulo ,mas não achei. Lembro-me que do lado da Casa Ao Gaucho, no andar superior, tinha um sebo, toda vez que ia babar nas armas expostas na vitrine da loja, dava uma chegadinha ao sebo, mas por infelicidade nunca encontrei o livro. Um dia vendi uma prensa de cartuchos para Porto Alegre-RS. Perguntei ao comprador se ele conhecia o livro Tiro ao Voo. Passaram-se alguns dias, meu grande espanto foi receber os dois volumes encadernados do” Tiro ao voo”. Meu contentamento foi demais, assim pude conhecer os grandes armeiros, os aços empregados, os choques, a balística, enfim muita coisa que até hoje é minha fonte de consulta. Com o passar dos anos, acumulei muito conhecimento em espingardas, mas não posso afirmar que sou um expert, pois o aprendizado continua. Um fazendeiro rico da minha cidade uma ocasião me convidou para conhecer sua Purdey, cal.12 paralela.  Aquilo para mim foi um contato inesquecível, pois poucos são os que conseguem ao menos ver, que dirá pegar numa delas. A caixa de couro, as divisões internas, o material de limpeza e a arma. Quando você segura-a, parece que se travestiu num membro da realeza. Naquela época meu pai, ainda vivo, fez chacota com o fazendeiro, que tinha gasto uma pequena fortuna na arma, e disse:- — Com todo esse dinheiro gasto, pelo menos a espingarda deveria sozinha procurar o alvo e não errar tiros! Muitos anos depois tive a prazer de conhecer a fábrica da Boito, onde pude mais ainda me inteirar com a fabricação e montagem das armas caçadeiras.

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