Parte final da Zagaia


                                                                    Zagaia pronta





A  onça do Rio Cuiabá

   Enquanto esperávamos na casa do pai de nosso pirangueiro que fora atrás de iscas para nossa pescaria, entretemo-nos a conversar com o velho debaixo de uma frondosa mangueira. Sentados num banco simples em frente à sua casa modesta que ficava a uns 50 metros da margem, conversávamos e apreciávamos o movimento do rio. Enquanto corria a conversa, um filhotão mestiço de veadeiro pulava daqui prá lá atrás de calangos, como se estivesse treinando para a caça.

 —Então Sr.Antonio vive há muito tempo aqui na beira do Rio Cuiabá?

—Eu nasci aqui, casei , tive 12 filhos, prestei grande ajuda ao Brasil dando toda essa mão de obra para o país.

   Mal sabe ele, que este aumento exagerado da população, que em 1970 tinha 90 milhões e hoje quase 200milhões, está destruindo toda nossa mata acabando com os rios, tirando até os peixes que ele leva à mesa.

 —Sr. Antonio quantos anos tem e do que vive hoje?

—Estou com 74 anos , vivo da aposentadoria que o governo me dá , pesco um pouco com minha canoa de um pau só, faço uma lavorinha de mandioca e milho para as galinhas.— Sabe, não posso mais trabalhar no pesado, pois fui operado da próstata.

   Eu já estava bem íntimo com o velho e perguntei:

—Quer dizer que agora, depois de operado não dá prá fazer mais sexo?

—Claro que dá, isso não pode faltar– mas uma vez ou outra.

—Mas, faz sexo com a patroa?

—Claro que não. Na verdade a patroa não quer mais saber disso, ela me disse: — Se quiser você procure outra, que não me importo.— Então de vez em quando vou à cidade e dou meus peguinhas por lá.

—Sr. Antonio, o Senhor caça por aqui?

—Olha, eu já cacei muito antigamente, hoje ficou difícil, pois com essa proibição de arma, não se consegue nem comprar munição.

—O Senhor Já viu onça por aqui?

—Vi sim, não faz muito tempo, estava rodeando minha rocinha e notei distante uns corvos sobrevoando e descendo num capão de mato. Fui bem devagarzinho observando. Quando cheguei ao capão vejo a pintada saindo, ela estava comendo um jacaré que arrastou para a capoeira. Continuou:

— Tenho um amigo que mora na outra margem do Cuiabá que caçava onça; hoje não sei mais se caça. Na propriedade dele tem um bamburral onde habitavam as pintadas. Por falar nisso ele tem cães de caça que correm onças, por sinal, este filhotão que está vendo é cria dele.

—O Sr. Já ouviu falar em zagaia?

—Claro que sim, meu pai falava que nossos antepassados índios, que moravam nesta mesma barranca caçavam com zagaia.

—Vamos fazer o seguinte: eu tenho uma zagaia e vou trazê-la na próxima vez que eu vier prá cá e então o Sr. vai me apresentar ao caçador de onça, quero presenteá-lo com a zagaia que eu mesmo fiz.

—Perfeito, então espero o Sr. aqui o ano que vem e já vou avisando o Zé.

   Passado mais um ano, voltamos ao mesmo local de pescaria e fomos visitar o Sr. Antonio. Ele estava do mesmo jeitinho, fala mansa e como sempre contando histórias.

—Sr. Antonio notei que só está com uma canoinha, o que aconteceu com a outra?

—Passou um turista por aqui e quis levar para enfeite, negociei com ele e lá se foi a canoinha. Já estava velhinha e fazendo água. Prosseguiu:

—O Seu Zé falou prá nós irmos lá que ele vai nos levar a uma batida de onça.

  Combinamos o horário e pela manhã do dia seguinte saímos, pegamos o Sr. Antonio e seguimos. Chegando à propriedade, conhecemos o caboclo forte Sr. Zé. Tinha ele em torno de 45 anos, pessoa valente, daquela que só sente medo após o perigo passar e que no primeiro cumprimento você já deposita confiança. Ele então falou:

—Sabe eu ando tendo problemas com uma onça que está comendo meus bezerros. Tive que fazer um piquete afastado do bamburral para que o gado fique longe. Depois disso ela parou um pouco de bater, mas já vi rastros por perto do piquete. Nós vamos dar uma andada por aí com os cachorros e ver o que acontece. Mostrei a zagaia e disse que era presente. Ele ficou muito feliz e procurou um cabo e tão logo colocou, chamou seus três cachorros mestiços veadeiros e saímos. Andamos quase uma hora por vegetações altas, que crescem muito nos lugares alagadiços do pantanal que nesta ocasião estavam sem água. À medida que caminhávamos fui explicando para Sr. Zé como é usada a zagaia numa caçada de onça: assim que a onça acuar, o zagaieiro tem que levar a zagaia com a ponta rente ao chão, pois levando erguida a onça poderá dar uma patada na zagaia e deixar o zagaieiro indefeso para o ataque.

    Os cães bateram por todos os cantos e só deram uma corrida num bicho que nem pudemos vê-lo e logo desistiram.

  O Sr. Zé falou:

—Voltem amanhã que vou dar uma  vasculhada  ver se acho pegadas do macharrão.

    Dia seguinte, fomos diretos para a fazenda do Zé, sem o velho Antonio, pois ele não poderia caminhar mesmo. Chegando lá deparamos com um pantaneiro de guaiaca e com um revolver na cintura. O Zé apresentou-nos e disse que Carlão iria junto conosco na perseguição. Pedi ao Carlão para ver sua arma—tratava-se de um canela fina cal.38 marca HO, com o tambor que não contava os passos, daqueles que quando a agulha embutida no cão bate, não sabemos se será na cápsula ou na espoleta.

— Bom, seja o que Deus quiser. Como eu estava desarmado, catei um porrete, para qualquer eventualidade…

   Seguimos então pela vegetação alta, mas limpa por baixo e sem muita dificuldade de caminhar. Caminhamos uns 40 minutos com Zé sempre assuntando o chão atrás das pegadas. O sol já alto que fazia gemer os ramos e desidratava todas as coisas. Até que em um momento ele descobriu rastros frescos que enveredavam para o carrascal. Os cachorros foram soltos e logo pegaram o rastro do terceiro maior felino do mundo, que perde apenas para o Tigre e o Leão.

   Logo que o rastro foi pego os cães saíram em disparada e nós tivemos dificuldades em acompanhar, mas ao entrarem no mato diminuíram a marcha e se perderam no rastro, andam daqui prá lá e nada. Até que enfim alinharam-se no rastro e o líder dos cães já começou a ladrar. Correram mais um tanto e entraram no bamburral – aí sim a coisa complicou, pois ficou difícil a caminhada. O Zé e o Carlão iam abrindo o mato cheio de espinhos e caraguatás,     assim íamos penetrando e o uivar e ladrar dos cães pareciam estar no auge da caçada. Então, deparamos com o macharrão acuado perto de um tronco de buriti, rosnava incessantemente, ao mesmo tempo que emanava cheiro graviolento, parecia que estava no pico de adrenalina. Os cães com os dentes arregalados e pelos ouriçados tentavam abocanhar o enfurecido jaguar. Esses momentos são longos para escrever, mas passam num segundo. A onça dava patadas para afastar os cães e um deles levou uma que o deixou sangrando. Mas, o instinto bravio do animal que julgo ser o mais feroz da natureza –o cão– não desiste.

   A onça, no desespero do ataque dos cães dá um salto em nossa direção, o Carlão aproveitando a deixa, preme o gatilho do seu HO, e este como já era de se esperar, negou fogo e o Zé aproveitando seu pulo atinge mortalmente o canguçu, A pintada no instinto de se defender abraça a zagaia  com as unhas à mostra tentando se livrar da lança. Porem,  aos poucos foi perdendo a força e prostrou-se no chão. Após a emocionante caçada o Zé falou:

  — Pessoal, agora que me deu medo

  E realmente é isso que acontece: o verdadeiro lutador não se esmorece, enfrenta a batalha, enquanto que o covarde corre, e poderá ser até pego pelo bicho.

     Após findada  a caçada, seguimos para a sede, sendo que cada um de nós ia revezando no transporte da fera, que não era nada leve. Depois de esfolada, o couro foi salgado e esticado, as carnes foram divididas com os vizinhos.

                 Se vocês acreditaram na estória, irei ficar muito contente e ao mesmo tempo deixar vocês bravos, ao revelar que se trata de pura ficção. Logicamente ficção  fundamentada em muitas leituras que tive de caçadas de onças. Eloir

                  E.T. parte da entrevista com o velho pescador é real.

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