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Passageiros


Nossa vida é comparável a um trem percorrendo uma viagem onde embarcam muitas pessoas e desembarcam outras tantas, umas permanecem tempo em nossa viagem outros por pouco tempo. Alguns deixam marcas e muitas saudades, outros nem tanto, mas há aqueles que jamais esqueceremos. Um que deixou muita saudade foi o Nardinho, um sul mato grossense que conheci há muitos anos.

O Nardinho sem mais nem menos um dia apareceu em minha firma, bateu no portão e atendi-o com uma pistola na mão, não me lembro, mas deveria ser uma 7,65mm.

No meu escritório sentou-se a minha frente, e continuei o que vinha fazendo, manobrando a dita pistola com balas mortas.

Nardinho, de pouca estatura meio careca, de óculos, com uma das vistas levemente apontando na diagonal, notava meio apreensivo o que eu fazia com a arma.

Esse fato ficou marcado em sua memória, pois toda vez que encontrava comigo me dizia: —Quando te conheci você me atendeu com uma pistola na mão. Confesso que no começo da conversa não fiquei muito a vontade, mas depois me acostumei.

Após negociarmos alguns produtos ele me expôs que gostava de caçar perdizes. Então como dizem: “jogou o sapo na água”, pois era tudo que eu gostava de praticar, assim passamos a combinar viagem para os recantos do MS.

A primeira vez me acompanharam dois amigos que também gostavam de andar atrás de um cachorro. Um deles por sinal  perdeu sua vida bestamente num desentendimento com seu amigo que sentindo-se mais fraco puxou uma pequena faca e atingiu a ponta de seu coração. O outro que participou comigo da caçada já foi empresário, que hoje amargura a falência.

Assim que chegamos à casa do Nardinho fomos recebidos com muita hospitalidade, mostrou-nos seu quartinho onde fazia suas recargas. Era uma pessoa que demonstrava interesse em tudo e sabia muita coisa, pessoa dotada de experiência de vida. Ele foi um daqueles atiradores medíocres que com a recarga se tornou um bom atirador ao ponto de acertar com seu Rossi inox. 38 de 6”perdizes que perambulavam pelo braquiária.

No dia seguinte partimos para a casa do Mamede que trabalhava de peão em uma fazenda de gado, ele adorava ver o tombo das galinhas na macega. Quem nos acompanhou também foi um amigo local do Nardinho. Ele se chamava Antonio, gostava de ir atrás das perdizes era solitário na caçada, saía acompanhado do seu cachorrinho com uma sacolinha a tiracolo e a espingardinha de um cano cal.32, assim fazia sua caçadinha na maior calma. Quando todos chegavam exaustos de andar ele aparecia todo descansado. Uma oportunidade me contou que teve que fazer uma operação no estômago para retirar meio quilo de chumbo de caça de tanta perdiz com chumbo que havia comido (sic)

A fazenda era de gado, havia perdizes, mas não eram tantas, pois o braquiária, como todos sabem, é um capim invasor que tira a chance de outros vegetais se desenvolverem, então a perdiz fica sem opção de alimentação e desaparece. Esse desaparecimento das perdizes e de outras aves vem sistematicamente acontecendo com as diversas monoculturas existentes no país. Bem disse dias atrás um amigo sobre o braquiária: já que trouxeram esse capim invasor, porque não trouxeram também as aves que vivem nesse habitat, assim o ecossistema ficaria mais equilibrado.

Da caçada o que nos trouxe lembranças  agradáveis foram as amarrações, isto sim deixou  a imagem  gravada para sempre. Quando então, estávamos caçando próximos um de outro e os cães se cruzavam no rastro é que dava gosto de ver os magníficos pointers amarrando em dupla. Aí sim o coração parecia querer sair fora do peito de tanto que pulava.

Numa dessas caçadas, numa macega de média altura, o cão amarra e segue em frente convicto de seu faro. Não demora muito subitamente uma ave pula e sai desembestada. Não houve tempo de discernir o que tinha saído em disparada e o tiro sai automaticamente, tão automático como o frear de um carro. Quando fomos analisar era uma ema. Então, o que fazer além de ficar indignado era a questão. Carregar aquilo seria impossível. Sorte nossa que deparamos com um índio que vinha caminhando cortando o caminho por dentro da fazenda. Orientamo-lo que em tal lugar tinha uma ema, ele foi até lá e apanhou a ave. Ainda bem que foi aproveitada.

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