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Perdiz encantada


Perdiz encantada

Nunca dantes ouvira falar que a lua tem sua parte na caçada de perdiz, bem, segundo um treinador de cães famoso, estávamos em boa lua, pois transitava na cheia.

Por uma estrada sinuosa, poeirenta, de pó vermelho parecendo pó de arroz de tão fino, tendo à nossa esquerda um morro, quase uma montanha, onde abrigava em seu cume pequena igrejinha pintada de branco, a qual servia como nossa referência, chegamos à porteira que dava acesso para o campo onde pretendíamos encontrar as coloradas, (perdigões de penas marrons). Descemos por uma estradinha até a casa, de onde surge um afrodescendente de nome Sr. Bastião. Após cumprimentos tradicionais, usamos a boa técnica, perguntando se ele gostaria de comer umas perdizes em molho. Com sorriso largo, acenou que poderíamos sim adentrar ao campo, bem como, falou que sempre as via beirando a roça de milho. Nessa hora já beirava às oito da manhã, começamos a ouvir o cantar das perdizes, aquilo foi um verdadeiro choque emocional, ficamos estagnados, não conseguíamos nos concentrar, estávamos atônitos. Era perdiz que piava à nossa esquerda à nossa direita, ao longe, por todo canto! Um único pensamento nos invadiu: hoje é o dia!

Num toque de caixa preparamos as espingardas, colocamos os cartuchos na cintura, soltamos o cão e partimos em direção aos inúmeros piados. O campo estava seco, a umidade baixíssima, consequência de três meses sem chuva. Assim que atravessamos a cerca de arame liso e pisamos no pasto de braquiária, as perdizes, por encanto, pararam de piar. Pareciam terem combinado algo, nenhuma mais piou, nem mesmo imitando-as com nosso assovio, elas não mais respondiam. Calaram-se por completo.

O cão procurava incessantemente, nada de amarração, somente algum tico-tico do campo dava faro ao cão. Andamos por tudo, beiramos a cerca rumo com a roça de milho,onde o Bastião nos disse que sempre as via, mas nada. Penso que a dificuldade do cão em farejá-las tinha como consequência a baixíssima umidade. Se o capim está muito seco, as perdizes ao caminharem não deixam impregnados seu cheiro, não provendo assim faro ao cão.

Após muito andar, rumamos para perto d’água, num alagadiço onde nosso cão procurava por água, ali farejou algo, não se firmou muito, andou pouco e pulou o perdigão. Nada há mais emotivo para um caçador de campo que o salto da perdiz, o rufar das asas proporciona emoção indescritível, nesse lapso de tempo temos que ser extremamente rápidos. Meu companheiro estava melhor posicionado e rapidamente alvejou a perdiz, mas esta continuou seu voo, como eu estava no ponto de tiro, relei o gatilho e o bólido voador foi ao chão. O festejo foi duplo, pois um alvejou e o outro certificou. Uma só perdiz dessas é mais valiosa que muitas outras, dada a dificuldade proporcionada.

Avançamos mais um tanto, o cachorro ia caminhando dentro do brejo, uma espertalhona pula bem longe, talvez se fosse outro atirador nem arriscaria, mas como sempre digo: atirar sempre, pois o risco é o da caça. Não há de ver que o tiro da cal.12 teve destino certo e interrompeu o voo do perdigão fugaz. Mais uma comemoração sem precedentes, pois o tiro foi largo, como se diz.

Com todo aquele alvoroço de piação, só encontramos duas, as perdizes se encantaram, mas o Sr. Bastião apostou que iria comer perdiz em molho e foi assim que aceitou os perdigões com outro sorriso largo de felicidade!

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