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Pescando em Ariri


Um amigo me propôs para o feriado de 21 de abril de 16 uma pescaria em Ariri, Distrito de Cananéia, situado às margens do Canal Varadouro que liga Cananéia a Paranaguá na divisa com o estado do Paraná.

O entusiasmo tomou conta, pois o percurso se daria pela Serra das Macacas, Serra essa que há mais de 30 anos não cruzo. Quando passava por esse trajeto que atravessa a Serra do Mar a estrada era de terra e muito ruim, com muitos buracos, costelas de vaca, encostas que sempre desabava e outras dificuldades.

Saímos no feriado de Tiradentes curiosos estávamos em saber como estava o trecho de serra bem como a cidade de São Miguel Arcanjo, famosa por sua grande produção de uvas Itália. Fiquei impressionado com a mudança que houve no local, hoje além de produzir uvas, muitas vinícolas, restaurantes, pousadas e turismo rural se instalaram para o engrandecimento turístico.


Assim que atingimos o portal do Parque Estadual Carlos Botelho (Serra das Macacas) recebemos um cartão dos guardas o qual deveria ser entregue na saída após atravessarmos a zona de proteção ambiental da mata Atlântica. Recentemente essa rodovia que atravessa o Parque foi calçada com bloquetes de cimento. Os guardas do Parque nos informaram que só é permitido trafegar até às 20horas, não é permitido para caminhões e nem carros com carretas que excedam 8metros de comprimento. Tudo isso para proteger a estrada, o ambiente e os animais selvagens. As pontes construídas na década de 40 foram mantidas, dando um aspecto retrô. A rodovia ficou linda, o calçamento proporcionou aos seus 33 km do Parque mais aproveitamento turístico da região.  A mata Atlântica é esplendorosa, mesmo nessa época que as esparsas quaresmeiras ainda teimam em mostrar suas flores violetas, aquelas que no final do ano explodem em beleza. Muitos jipes, picapes traçadas, modificadas, ciclistas também aproveitam esse caminho para suas aventuras. Praticantes de boia-Cross aproveitam a estrada para chegarem aos rios correntios da região. Muitos ciclistas também pedalavam pelas curvas da serra.

Completamos a travessia do parque, pegamos a Rodovia BR116 e rumamos para Cananéia, cidade simples e simpática onde o comércio de pescado é muito difundido. Fomos ao mercado de peixes para adquirir iscas e peixes para levar pra casa. De lá norteamos para Ariri, onde pegaríamos um trecho de 60 km de terra. Estávamos sem almoço, paramos numa pousada de uma simpática senhora que se desculpou, mas não tinha nada para nos servir, a não ser cerveja gelada que desceu redondo com no calor de 30 graus. Seguimos a estrada de terra e logo paramos num vilarejo onde deglutimos mais cerveja e ficamos sabendo que ali é um quilombola. Essa região hoje pertence ao projeto extrativista de Mandira, onde do mangue é extraído crustáceos diversos, que fornecem fonte de renda aos moradores da região. O simpático proprietário do barzinho nos informou que é membro da oitava geração dos negros pertencentes a Escravatura.

Seguimos pela estrada de terra que atravessa a majestosa mata com belas vistas dos morros cobertos de mata nativa.

Chegamos à tarde na simples pousada comandada por Dona Tereza, Seu Claudio e o filho Rodrigo, que fica na margem do Canal Varadouro. A grande vantagem da pousada é que fica quase dentro da água, portanto facilita totalmente o embarque das tralhas no píer. Sentamos na varanda para apreciar o encanto da lua cheia que refletia como prata nas águas sua luz amarelada. Os terríveis mosquitinhos pólvora não davam sossego, mas com um pouco de spray protetor diminuiu um pouco seu ataque e continuamos sendo acariciado pela leve brisa que vinha do sudoeste. A calmaria então foi quebrada pelo alto som de pagode de um barzinho da rua próxima e me desencantou continuar apreciar a chegada da noite.

Na manhã seguinte tomamos café simples com leite e margarina. Aprontamos toda tralha e partimos pelo canal em direção ao mar. A manhã estava amena, no céu algumas nuvens carregadas prenunciavam chuva. Pescamos pela manhã aproveitando a descida da maré, o barco ia rodando ao sabor da maré baixando. Meu amigo pescava com camarão com casca congelado e também com manjuba. Eu usava pitu vivo (espécie de camarão) que comprei de um senhor na beira do Canal. Tive sorte com o pitu, pois fisguei algumas corvinas e robalos embora pequenos mas foi bom para dar ânimo à pescaria.

 Por diversas vezes colocamos a capa de chuva e retiramos para abrigar das pancadas esparsas que aconteceram. O dia estava mais fresco, vinham brisas frescas vez por outra. Por diversas vezes vimos Guarás (ave parecida com a garça de cor escarlate) que cruzavam o céu.

 Após o meio dia tomamos um lanche, a maré subia, a correnteza mudou de direção e invertemos a direção da rodada.

Por volta das 4 horas atracamos no píer de dona Tereza, chovia levemente. Ao pisar na varanda   do nosso aposento vi uma caixa com ostras frescas que o Rodrigo havia apanhado mergulhando nas pedras ali perto. Aquilo foi uma festa, comi uma dúzia delas sem parada, sempre espremendo limão, uma delícia! Meu companheiro não quis experimentar. Soube ali que se pode preparar as ostras refogadas ou assadas na churrasqueira.

Em seguida fui pilotar o fogão, dourei junto com cebola um punhado de camarão limpo e preparei arroz, enquanto isso meu amigo foi pegar uma lata de massa de tomate. Também um palmito especial Jussara da região chegou em minhas mãos, preparei o arroz despejei o camarão e palmito picado e misturei ao arroz. Também uma salada de palmito e tomate serviu de acompanhamento. Nem acreditei em meus dotes culinários, pois ficou ótimo!


 Ao indagar como estavam pescando, não deram muita dica, disseram que pescavam ali há 20 anos. Uma coisa acho que podemos concordar com eles, disseram que para cima da pousada onde a água é mais doce é bom usar Pitu como isca e, para baixo que a água é mais salgada o camarão de mar, pois os peixes acostumam com a isca do local.


Último dia, nós sem isca, indagamos onde encontrar elas e, nos disseram que para baixo poderia encontrar. Descemos em direção ao mar mas não encontramos nada no indicado, porém nesse local indicaram outro mais abaixo, por milagre achamos 75 camarões vivos de mar. O local me despertou curiosidade por conta de diversos barcos imitando canoa de um pau só que antigamente eram feitas no litoral pelos caiçaras, porém todas ali eram de fibra de vidro. Achei interessante manterem exatamente o formato das canoas tradicionais.

Felizmente com esses camarões aumentamos nossa cota de peixes, fisgamos diversos rodando de barco próximo a árvores maiores do mangue, divertimos muito nesse último dia.

Esse feriado foi atípico na calmaria que reina em Ariri, muitas lanchas, jet skis e barcos circularam pelo canal.

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