Pescaria de abertura de 2012

A euforia de pesca nos invade quando da abertura da temporada. Os peixes que estão usufruindo do defeso nadando livremente pelas águas pantaneiras como se estivessem numa reserva ,despreocupados com seu maior predador que é o homem ficam assim mais fáceis de serem apanhados nos primeiros dias de abertura da pesca.

Para que uma pescaria se torne motivo de descanso e diversão o mais importante é selecionar os amigos. Assim é que reunimo-nos em quatro amigos com compatibilidade de gênios e de pensamentos semelhantes. Após duas reuniões para discutir a estratégia da viagem e demais fatores relacionados, partimos dia 26/02 para chegarmos dia 28 no local de pesca e esperar mais que um dia no local, para a tão esperada abertura do dia 1/3.

O tipo de isca preferido pelo Cachara ,que seria nossa preferência maior, sempre é a piramboia, também chamado de muçum. Até que tentamos apanhá-las por aqui em lagoas , mas depois de tentativas infrutíferas desistimos. Teríamos mesmo que comprar. Assim sendo ligamos aos fornecedores de iscas de Coxim e foram encomendadas, mesmo contrariando nossas expectativas quanto ao custo que girava em torno de R$2,00 cada.

Ao sairmos, resolvemos empreender outro trajeto de viagem, passando por Pres. Prudente, fazendo caminho diferente do já costumeiro por Três Lagoas. Na verdade nosso intento seria mesmo averiguar fornecedores de iscas. Ainda do lado de S.Paulo encontramos um fornecedor de iscas na estrada, mas estava sem o produto. Ao atravessarmos a ponte de 2.550m sobre o Rio Paraná, que por sinal está em reforma, liguei para meu compadre de Maracajú. Ele logo foi soltando uma noticia nada animadora, dizendo que a pesca só abriria dia 14/3 no MT, justo para onde rumávamos. Felizmente essa notícia não era verídica.

Chegando a Bataguaçu logo avistamos um fornecedor de iscas, preparamos nossas vasilhas e fizemos a compra de 120 iscas de uma iscada e mais 36 de seccionar. O preço estava muito bom. Curiosidade foi a placa que avistei, no comércio da senhora proprietária, que dizia:” Não garantimos que nossas iscas atrairão seus peixes, mas sabemos que morrerão tentando”

Após 1.140 km percorridos, chegamos a Coxim às 20hs. A lua crescente rodeada de uma auréola prateada brilhava na noite matogrossense. Coxim que foi palco de grandes pescarias, hoje tem que se acostumar com o rio Taquari assoreado. A cidade que tempos atrás tinha seus hotéis lotados de pescadores, hoje tornou-se mais um corredor da gigantesca frota de caminhões que apanham soja e milho do norte para o sul e de dormitório de viajantes. Naquela mesma noite estivemos na casa da proprietária da fazenda para acertarmos o valor das diárias de acampamento, bem como o aluguel de barco. Em conversa com a filha da viúva, que perdeu seu marido há 3 anos num acidente de trator, ela nos informou que a fazenda estava à venda. Logo veio a preocupação—será que o ano que vem teremos pescaria?

Pousamos no Hotel Búfalo Branco, como de costume, e no dia seguinte, fomos às compras de mantimentos, carne e gelo, no comércio de Coxim.

Logo depois de comermos uma peixada, saímos para mais 170km até chegarmos ao posto Monica, que fica situado justamente na entrada da estrada de terra que entra para o pantanal. Lá encontramos com pessoal amigo da cidade de Cerquilho, vizinha da cidade de Tietê, que também iriam para o mesmo local. A estratégia de pousar no hotel do posto é entrar logo pela manhã na estrada de 120 km que atravessa parte do pantanal, pois nunca sabemos o que nos espera este trecho, que com poucas poças de água, gasta-se 5 horas na travessia. Em conversa com os amigos da cidade vizinha, um deles nos falou que a pesca abriria no dia 29/2 no MS. Sabe como é: o primeiro dia é o mais importante, os peixes ainda estão bobinhos.

Veio aquela euforia de podermos pescar no dia 29/2. Porém tinha um agravante nisso tudo, o rio Piquiri divide os estados do MS e MT, portanto nós estaríamos acampados no MT, então deveríamos seguir a lei do MT que abriria a pesca sòmente no dia primeiro.


Logo após o café do Hotel Monica, que foi deglutido por duas dúzias de pescadores, adentramos a famigerada estrada que sempre nos causa inquietude.

Atravessamos a pequena serra e logo notamos que a estrada estava acumulando pouca água. Sorte nossa! Cruzamos por belas pastagens, fazendas com pastagens e resquícios de vegetação pantaneira. Deparamos também com uma linha branca no horizonte que quase desaparecia da esquerda para à direita sobre um fundo de mata. Custava a acreditar, mas a faixa branca era pintada por nelores.


Cruzamos mais fazendas onde habitam veados de rabo branco, que com a maior naturalidade fazem indiferença aos seres humanos. Isto se deve, pois ninguém se atreve em persegui-los, então aproveitamos sacar fotos.

Após exatamente cinco horas percorrendo os 120 km, chegamos à fazenda onde fomos recebidos pelo Odilon. Este, enfaticamente nos noticiou que o SEMA, fiscalização ambiental do MT, estava acampada na fazenda. Também nos noticiou que eles estão muito severos na fiscalização.

Descemos para a beira do rio, onde uma cabana de madeira coberta de folhas de babaçu nos esperava para acampar. Como a cabana era grande, fechamos duas das suas laterais com lonas e armamos as barracas sem a proteção de chuva, já que não choveria dentro. Quando armamos a barraca no relento, tomamos o cuidado de levar uma lona de ráfia na medida de 5x4m e instalar uma sobre cobertura, livrando assim o perigo de ter a barraca encharcada de água de chuva. Instalamos a bomba Anauger , o encanamento para a água da cozinha e do chuveiro e a instalação elétrica da iluminação. Fizemos uma outra barraquinha de lona para abrigar o gerador e assim já tínhamos condições de tomar um refrescante banho depois de uma suadeira provocada pelo trabalho no intenso calor.

Logo o sol abaixou ràpidamente no oeste entre os inúmeros babaçus e os poucos ruídos que ouvíamos eram dos bacuraus.

Ao amanhecer o dia fomos acordados por inhumas que estavam a trocar mensagens guturais com seus parceiros. Não tínhamos pressa, pois teríamos o dia todo em “fare niente”, sem pressa preparamos a tralha de pesca e também pescamos com caniço. Mais à tarde trouxeram o barco, o qual deixamos preparado para sair na claridade do dia.

Até que enfim amanhece o dia primeiro ,após uma noite inundada de pensamentos e sonhos fisgando peixes. Descemos o rio em três na canoa, eu como piloteiro , um na proa e outro no meio.

A certeza era tanta que já contávamos com o ovo antes da galinha botar, e qual foi nossa decepção que após rodarmos com o barco muitos quilômetros com isca de muçum a percorrer o fundo do rio, só algumas piranhas nos mostraram os dentes afiados.

No trecho do rio chamado de embarcador, encontramos com a chalana com amigos de nossa cidade que desceram pelo rio Corrente para pescar no mesmo local. A chalana estava ancorada do lado do MS e eles sabendo que a abertura se daria no dia 29/2 pescaram nesse dia e conseguiram apanhar alguns peixes. Como no outro dia baixou um batalhão de pescadores, inclusive com motores potentes cortando as águas, os peixes esconderam-se.


Pescamos desde manhã até às quatro da tarde e só conseguimos apanhar dois pacus com isca de coração de frango.

Subimos o rio até o acampamento onde nosso parceiro passou o dia a pescar de barranco. Estava ele com um dourado canivetão, sem atingir o tamanho mínimo que pegou com minhoca na vara de bambu! Dissemos a ele que correu risco em retirar do rio peixe sem medida. Ele se desculpou dizendo que não sabia que peixe era.

Assim que fomos ligar o gerador para fornecimento de água, a surpresa—não pegava! Tirei a vela, limpei-a, pois estava encharcada, retirei o carburador e não apresentava nenhum defeito, a gasolina fluía bem e a agulha estava normal. Chamamos o vizinho da barraca ao lado para ver se tinha algum mecânico, ele nos informou que o “gordo” um dos donos da fazenda mexia com motores. Levamos até a séde da fazenda, ele retirou a tampa das válvulas e uma delas estava emperrada e tinha muito carvão. Denotava que fora usado gasolina com óleo dois tempos no motor 4 tempos. Tentamos desencantar a válvula, mas nada. Sugeri então tirar o cabeçote, aí sim desengripamos a dita e o motor voltou a funcionar. Tenho azar com geradores, na pescaria de 2010, também tivemos problemas.

Como estávamos com apenas um barco, no segundo dia cedi lugar para outro companheiro ir à pesca. Também não fizeram nada, reservei o dia para ler o livro do John Coningham, intitulado Celina, que fala do tempo em que passou na caserna no Batalhão de Bela Vista e suas aventuras pelo Mato Grosso e na divisa com o Paraguai. Preparei um almoço com arroz e feijão, bife frito, peixe frito e salada que foi deglutido pelos parceiros que chegaram esfomeados.


Terceiro dia, contrariando um pouco um dos companheiros, descemos o rio em dois para mais uma pescaria. O rio apresentou melhoras de peixes, conseguimos apanhar diversos pacus, mas infelizmente só um foi embarcado o restante foram devolvidos ao rio por não terem tamanho suficiente.

Um objeto muito funcional foi introduzido na minha tralha de pesca, trata-se de um trono para necessidades, que os barrigudos agradeceram muito. Fiz um quadro com quatro pés rosqueados para facilitar o transporte. Faz-se um buraco no chão coloca o trono em cima e para cada uso cobre-se com terra, após encher o buraco, muda-se de local.

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