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Pios Maurilio Coelho



Maurilio Coelho ao centro de óculos

A primeira vez que me dirigi a caçar de mato, utilizei um pequeno vidro , que assoprado de maneira especial imitava o canto do juriti. Recordo que este vidro era usado como embalagem de um líquido oleoso para passar no corpo e afastar pernilongos. Nas vezes seguintes que adentrei ao mato, junto com o mestre meu pai, utilizei uma garrafinha de madeira de lei, muito bem torneada e envernizada. Tinha tamanha afeição pelo objeto, que enquanto esperava na ceva, ficava imaginando como era feito aquilo e qual a magia para tirar sons precisos. Para que não perdêssemos, amarrávamos um barbante no objeto e pendurávamos ao pescoço.

Este lindo objeto, preservado até hoje, que para nós tinha tanto valor, vinha piro grafado o nome Maurilio e o logotipo de um coelho. Mal sabíamos que o fundador da fábrica de pios Coelho foi o Maurilio Coelho, o qual aprendeu com os índios a arte de imitar os pássaros e fabricar artefatos para este fim.

Quando iniciei-me na caça de mato, nossa região tinha o que caçar, então saíamos com dois pios Coelho, o do juriti e o do inhambu xororó. A caçada tinha duas opções , se ouvíamos um inhambu cantar, partíamos para atraí-lo imitando seu lindo gorjeio, da mesma forma o juriti.

Hoje, escrevo as experiências que tive, não tão somente pela caçada em si, mas para mostrar o fruto disso tudo ter revertido em preparo físico, domínio das emoções, da paciência e da perseverança que desenvolvi com a atividade cinegética. Todo esse treinamento, posteriormente contribuiu muito no meu desenvolvimento profissional, humano e protetor da natureza.

Infelizmente temos, há muito tempo, a caça proibida, locais onde eu caçava antigamente hoje são condomínios de chácaras. Caçar não pode, mas invadir , expulsar e matar animais , tirando seus habitats, isto pode.

Atualmente muitos adolescentes sonham em caçar, mas não podem. Com certeza muitos deles poderiam ter desviados de outras atividades indesejáveis praticando a caça.

Voltando ao assunto dos pios Maurilio Coelho, descrevo um pouco de sua história.

Maurilio Coelho, fundou a fábrica em 1903, nasceu em Cachoeiro do Itapemirim em 1868 e faleceu em 1956. Ele aprendeu com os índios a arte de chamar aves e animais com pio e foi aperfeiçoando esses instrumentos e tornou-se hábil caçador. Por solicitação de seus amigos caçadores, começou a produzir pios em sua fábrica de farinha de milho situada às margens do rio Itapemirim . As máquinas eram movidas pela força motriz de roda de água, e que são conservadas até hoje. Maurilio ensinou seus dez filhos a arte de fabricar pios, em 1922 recebeu o premio de melhor artesão brasileiro.

Até o ano de 1960 a caça era permitida, depois disso o negócio iniciou uma trajetória descendente e quase faliu, motivado pela proibição da caça. Mudando a estratégia, conseguiu reerguer o negócio direcionado seus pios para uso em percussão, objetos de decoração e também para atrair pássaros para fotógrafos, para estudo e admiradores de aves. Os pios Maurilio sempre foram confeccionados com madeira de lei usando retalhos das serrarias.

Com os pios Maurilio, diversas personalidades do cenário artístico e político nacional e internacional, foram agraciados com estojos finamente acabados.

Felizmente os pios Maurilio continua existindo heroicamente até nossos tempos , esperamos que continue por muitos anos mostrando a arte na madeira e o som produzido.


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